Jovem brasileiro se mantém distante das questões ambientais

Apesar de cada vez mais preocupado com a questão ambiental, o jovem brasileiro não é capaz de relacionar, entre si, os vários temas ligados aos impactos da ação humana sobre o meio ambiente, mantendo certa distância em relação às alterações ambientais já em curso, como o aquecimento global e a escassez da água potável.

A pesquisa encomendada pelo canal MTV Brasil, “Dossiê – Universo Jovem 4”, aponta que em um ranking de 28 temas sobre assuntos de interesse pessoal, a questão ‘ecologia/meio ambiente’ aparece na 22ª colocação onde as três primeiras posições são ocupadas por música, esportes e profissão, respectivamente.

Entretanto, quando questionado sobre os assuntos que mais os preocupa e amedronta, os jovens classificam o tema ‘aquecimento global/mudanças climáticas’ na quinta posição – atrás da fome (4º), tráfico de drogas (3º), desemprego (2º) e violência (1º).

A preocupação com a ‘falta de água’, é colocada na 16ª posição e ‘escassez de alimentos’ na 24ª. SegunSegundo a pesquisa, os temas voltados para a sustentabilidade ambiental (lixo, água, energia e crimes ambientais, por exemplo) ganharam mais destaque na mídia nacional e internacional nos últimos anos, passando a interferir na economia global e conseqüentemente no dia-a-dia do jovem.

Mesmo assim, as questões ambientais são tratadas e vistas de forma pontual, “sem relacionar um problema com o outro”.

“A poluição e o lixo são problemas das cidades, o desmatamento só ocorre na Amazônia ou na Mata Atlântica, e o aquecimento global é um problema internacional, que parece ainda não ter chegado ao Brasil. Alguns ainda falam como se o problema não fosse parte de sua geração, como se não fizessem parte desta ‘geração futura’”, completa o dossiê.

A pesquisa foi feita com 48 milhões de jovens entre 12 e 30 anos em todas as regiões do país – cerca de 9 milhões nas cidades economicamente mais ativas. O levantamento também foi realizado junto as classes A (5%), B (37%) e C (58%) com pessoas que representam 92% do Índice de Potencial do Consumo no Brasil.

O relatório ressalta também que o aumento da preocupação é perceptível, sobretudo, por conta das informações cada vez mais difundidas nas escolas e mídias, no entanto, a busca por uma postura frente às questões de sustentabilidade ambiental ainda “é assumidamente pequena, superficial e, quando captada, dificilmente se transforma em ação”.

O artigo conclui que a conscientização do jovem é influenciada tanto pela família, quanto pela formação escolar e a qualidade da informação que consegue absorver. No entanto, independentemente do grau de conhecimento de cada entrevistado sobre o meio ambiente, quando discutida a questão, todos concluem que “a situação é bastante séria e que, daqui a alguns anos, as gerações futuras vão sofrer as conseqüências”.

Papel da escola

Durante o seminário “Os Jovens ante o Desafio do Desenvolvimento Sustentável”, realizado pela Universidade de São Paulo (USP), na última segunda-feira (13), a senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambiente, enfatizou a importância da escola para a difusão de valores sustentáveis em relação ao meio ambiente.

“Professores e alunos são mediadores de aprendizado, pois fazem relações entre si e, sobretudo, com a comunidade. A ação desses dois agentes, e em seguida dos alunos com a comunidade, leva a uma visão maior do que está acontecendo no mundo, permitindo a formação da opinião pública”, colocou.

O professor do Departamento de Economia da FEA/USP, José Eli da Veiga, que também participou da mesa de discussões do encontro, complementou que um dos maiores problemas vistos nas ações de produção e melhoramento da infra-estrutura do país é a dificuldade de aceitação das novas medidas sustentáveis.

“Ainda vemos na mídia a agricultura canavieira ameaçando o Pantanal, a ênfase que o governo está dando ao desenvolvimento de energia nuclear ou até mesmo priorizando as termelétricas. Tudo isso tão dispare com a necessidade de se desenvolver a sustentabilidade”, disse.

A mudança de paradigma quanto às formas de produção e gestão do desenvolvimento brasileiro estaria, portanto, nas mãos dos educadores diretamente ligados às gerações mais novas, aptas a aceitar as novidades sem tanta resistência quanto às gerações do final ou de meados do século XX que cresceram com a ideia de que o alcance do desenvolvimento econômico e bem estar significa a máxima exploração dos recursos da natureza vinculada ao consumo exagerado.

Segundo a senadora Marina Silva, isso ocorre porque o objetivo exploratório do homem sempre se deu no sentido de dominar a natureza, não somente para saciar suas necessidades físicas mas também para se sentir amparado frente aos fenômenos ambientais, como chuvas, ventos e tempestades, por exemplo.

“O problema é que nos deparamos hoje com a radicalização da forma de exploração do homem. E como estamos contidos na Terra, ao inviabilizar sua alto recuperação, nós estamos nos inviabilizando, conseqüentemente”, completa.

Papel do Estado

Na 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente – “Vamos cuidar do Brasil”, realizada pelos ministérios da Educação e do Meio Ambiente, no início de abril deste ano, em Goiás, reuniram-se 670 estudantes de 11 a 14 anos que representaram escolas públicas e privadas de todo o país – a escolha dos alunos participantes e dos temas abordados no seminário mobilizou cerca de 3,5 milhões de pessoas, segundo a organização do evento.

Durante o encontro, alunos, professores e 70 observadores internacionais de 43 países discutiram e trocaram informações voltadas à questão ambiental. Todo o conteúdo produzido pelos jovens durante as oficinas feitas na conferencia estão disponíveis na comunidade “Vamos Cuidar do Brasil”, dentro do portal EducaRede.

A senadora Marina Silva ressaltou que o papel do governo quanto ao incentivo de práticas sustentáveis estaria, portanto, ligado a realização de seminários como esse. A primeira edição aconteceu em 2003 e envolveu, na época, cerca de 15,4 mil escolas e 5,6 milhões de pessoas de 3.461 municípios. A segunda, promovida entre 2005 e 2006, mobilizou 3,8 mil pessoas de 2.865 cidades brasileiras.

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