Kin Kataguiri e a paradoxal modernidade anacronica do MBL

 

Antes de entrar no tema proposto pelo título, farei aqui um modesto breviário da evolução histórica dos conceitos mais relevantes para as ciências sociais (classe, multidão, público, massa, tribo, comunicação todos-todos e, por fim, a era dos cyberpunks).

É impossível discutir o termo classe social sem fazer referência aos dois teóricos do socialismo que colocaram esta categoria no centro de suas especulações históricas, filosóficas e econômicas:

“Las ideas de la classe dominante son las ideas dominantes en cada época; o dicho en otros términos, la clase que ejerce el poder material dominante en la sociedad es, al mismo tiempo, su poder espiritual dominante. La clase que tiene a su disposición los medios para la producción material dispone con ello, al mismo tiempo, de los medios para la producción espiritual, lo que hace que se le sometan, al proprio tiempo, por término medio, las ideas de quienes carecen de los medios necesarios para producir espiritualmente. Las ideas dominantes no son outra cosa que la expresión  ideal de las relaciones materiales dominantes, las mismas relaciones materiales concebidas como ideas; por tanto, las relaciones que hacen de una determinada clase la clase dominante, o sea, las ideas de su dominación. Los individuos que forman la clase dominante tienen también, entre otras cosas, la concciencia de ello y pensan a tono con ello; por eso, en cuanto dominan como clase y en cuanto determinan todo el ámbito de una época histórica, se comprende de suyo  que lo hagan en toda su extensión, y, por tanto, entre otras cosas, también como pensadores, como productores de ideas, que regulan la producción y distribución de las ideas de su tiempo; y que sus idea sean, por ello mismo, las ideas dominantes de la época.” (C.Marx – F. Engels, Obras Escogidas, tomo I, Editorial Progreso Moscú, URSS, 1986, p. 45, fragmento de Feuerbach, Oposicion entre las concepciones materialista e idealista – I capitulo de La Ideologia Alemana)

O conceito de multidão ganhou sua melhor formulação com Gustave Le Bon:

“O desaparecimento da personalidade consciente e a orientação dos sentimentos e dos pensamentos em um mesmo sentido, primeiros traços das multidões em via de organização, nem sempre implicam a presença simultânea de vários indivíduos em um único local. Milhares de indivíduos separados podem em um dado momento, sob a influência de certas emoções violentas, provocar um grande acontecimento nacional, por exemplo, e adquirir características de uma multidão psicológica. Um caso qualquer que os reúna bastará então para que sua conduta logo se revista da forma específica dos atos das multidões. Em certas horas da história, meia dúzia de homens podem constituir uma multidão psicológica, ao passo que centenas de indivíduos reunidos acidentalmente podem não constituí-la.” (Psicologia das multidões, Gustave Le Bon, Martins Fontes, São Paulo, 2008, p. 30)

Segundo Gabriel Tarde:

“A multidão é o grupo social do passado; depois da família, é o mais antigo de todos os grupos sociais. Ela é incapaz, sob todas as suas formas, de pé ou sentada, imóvel ou em marcha, de estender-se além de um pequeno raio; quando seus líderes cessam de tê-la in manu, quando ela deixa de ouvir a voz deles, a multidão desaparece. A mais vasta das audiências que se viu foi a do Coliseu; mesmo assim não excedia cem mil pessoas. As audiências de Péricles ou de Cícero, e mesmo a dos grandes pregadores da Idade Média, um Pedro, o Eremita, ou um São Bernardo, eram certamente bem inferiores. Assim se compreende que o poder da eloquência, seja política, seja religiosa, não tenha progredido sensivelmente na Antiguidade ou na Idade Média. Mas o público é indefinidamente extensível, à medida que ele se estende, é impossível negar que ele seja o grupo social do futuro. Formou-se assim, por um feixe de três invenções mutuamente auxiliares – tipografia, estrada de ferro, telégrafo -, o formidável poder da imprensa, esse prodigioso telefone que ampliou desmesuradamente a antiga audiência dos tribunos e dos pregadores. Não posso portanto conceder a um vigoroso escritor, o Dr. Le Bon, que nosso tempo seja ‘a era das multidões’. Ele é a era do público ou dos públicos, o que é bem diferente.” (A opinião e as massas, Gabriel Tarde, Martins Fontes, São Paulo, 2005, p. 13-14)

Sobre as massas (típico produto da comunicação um-todos controlada por um partido totalitário que, além de comandar o Estado rejeitando a existência do conflito entre as classes sociais, passa a regulamentar e gerenciar todos os aspectos da vida social) disse Hannah Arendt o seguinte:

“Tem sido frequentemente apontado que os movimentos totalitários usam e abusam das liberdades democráticas com o objetivo de suprimi-las. Não porque os seus líderes sejam diabolicamente espertos ou as massas sejam infantilmente ignorantes. As liberdades democráticas podem basear-se na igualdade de todos os cidadãos perante a lei, mas só adquirem significado e funcionam organicamente quando os cidadãos pertencem a agremiações ou são representados por elas, ou formam uma hierarquia social e política. O colapso do sistema de classes como estratificação social e política dos Estados-nações europeus foi certamente ‘um dos mais dramáticos acontecimentos da recente história alemã’, e favoreceu a ascensão do nazismo na mesma medida em que a ausência de estratificação social na imensa população rural da Rússia (esse ‘grande corpo flácido destituído de educação política, quase inacessível a idéias capazes de ação nobilitante’ como disse Gorki) favoreceu a deposição, pelos bolchevistas, do governo democrático de Kerenski.” (Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt, Companhia das Letras, São Paulo, 2011, p. 362-363)

De maneira geral podemos dizer que o fim do totalitarismo levou, algumas décadas depois, à fragmentação das massas e ao nascimento das tribos urbanas:

“…as ‘tribos’ de que nos ocupamos podem ter um objetivo, uma finalidade, mas não é isso o essencial. O importante é a energia dispendida para a constituição do grupo como tal. Dessa maneira, elaborar novos modos de viver é uma criação pura para a qual devemos estar atentos. É importante insistir nesse ponto, pois existe uma ‘lei’ sociológica que leva a julgar todas as coisas com base no que está instituído. Essa carga nos faz passar ao largo do que está em vias de surgir. O vaivém entre o anômico e o canônico é um processo de que não descobrimos toda a riqueza. Assim, para definir melhor o meu postulado direi que a constituição em rede dos microgrupos contemporâneos é a expressão mais acabada da criatividade das massas.” (O tempo das tribos, Michel Maffesoli, editora Forense-Universitária, Rio de Janeiro, 1987, p. 136-137).

O advento da internet permitiu uma expansão ilimitada das tribos na medida em que promoveu e possibilitou a comunicação todos-todos:

“Uma nova ecologia das mídias vai se organizando ao redor das bordas do ciberespaço. Posso agora enunciar seu paradoxo central: quanto mais universal (extenso, interconectado, interativo), menos totalizável. Cada conexão suplementar acrescenta ainda mais heterogeneidade, novas fontes de informação, novas linhas de fuga, a tal ponto que o sentido global encontra-se cada vez menos perceptível, cada vez mais difícil de circunscrever, de fechar, de dominar. Esse universal dá acesso a um gozo do mundial, à inteligência coletiva enquanto ato da espécie. Faz com que participemos mais intensamente da humanidade viva, mas sem que isso seja contraditório, ao contrário, com a multiplicação das singularidades e a ascensão da desordem.” (Cibercultura, Pierre Levy, editora 34, São Paulo, 2001, p. 120)

A era das tribos virtuais contudo, se transformou em pesadelo quando a NSA passou a usar a internet para vigiar todos o tempo todo em todos os lugares. Então três cyberpunks (Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden) explodiram o Grande Irmão norte-americano de uma maneira inimaginável. Nunca antes na história do homem poucos (aqueles que dominam as técnicas de programação e da criptografia) foram tão poderosos gerenciando recursos econômicos infinitamente mais modestos que os à disposição dos Estados.

O poder das classes sociais dominantes não pode mais se expressar espiritualmente com a mesma liberdade que tinha no tempo em que Karl Marx escreveu sua obra. No mundo em que vivemos os meios de produção espiritual estão à disposição de todos e não apenas daqueles que detém os meios de produção econômicos. Até mesmo a ação livre dos donos das empresas de comunicação encontra grande resistência no mundo virtual, onde blogueiros adquirem tanta credibilidade quanto os jornalistas renomados expondo-os ao ridículo quando eles distorcem, editam ou omitem informações relevantes. Os Estados não conseguem mais controlar nem mesmo seus segredos militares. Três cyberpunks destruíram décadas de diplomacia norte-americana sem disparar um único míssil balístico.

A massificação da comunicação todos-todos fragmentou o público limitando seu poder político local. Contudo, esta mesma comunicação todos-todos aumentou a força dos grupos de pressão transnacionais. A internet certamente não substituiu as multidões nas ruas, mas reduziu sua importância social. As ações diretas de poucos no mundo real raramente conseguem inspirar as ações virtuais de milhões de internautas. No Brasil, por exemplo, a intensa resistência virtual de milhões de internautas às multidões diminutas que se reúnem nas ruas para depor Dilma é tão evidente quanto efetiva.

O totalitarismo foi um fenômeno da massificação e esta somente se tornou possível quando ocorreu a destruição dos espaços em que a política era realizada na Alemanha dos anos 1930 ou em virtude da inexistência de espaços politizados na Rússia antes de 1917. A internet, que possibilita a politização de todos o tempo todo, serve como um antídoto às aspirações totalitárias daqueles que ainda acreditam poder construir tiranias partidárias ou pessoais. Quando um cyberpunk expõe segredos governamentais ele não somente fecha a porta da tirania como abre as janelas da democracia que os produtores de segredos pretendiam manter fechadas a fim de manipular o público ou transformar este numa massa alienada.

As tribos nascem e morrem com uma velocidade estonteante na internet. Mas nenhum partido político ainda foi destruído em razão da mesma. De fato, os partidos que aprenderam a usar de maneira eficiente a comunicação todos-todos (o Partido Democrata de Barack Obama, o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn e o próprio PT, no último caso mais em virtude dos militantes virtuais do que em razão da competência de sua diretoria) conseguiram se fortalecer. As tribos virtuais tem grande importância eleitoral e até econômica, mas seu impacto na vida real ainda não foi estudado como ocorreu no caso das tribos que surgiram algumas décadas depois do fim do totalitarismo.

Kin Kataguiri criou uma tribo virtual e real que tem aspirações totalitárias. A tarefa que ele mesmo se impôs é inglória e, de certa maneira, quixotesca. O grupinho dele representa um estágio de desenvolvimento político que já foi ultrapassado. O MBL e outros grupos semelhantes (como o Revoltados On Line, por exemplo) não representam uma classe social, não ambicionam construir um partido político e não consegue se tornar um fenômeno de massa. Ao mostrar a bunda na Av. Paulista, dizer que petista merece tiro na cabeça, posar com arma de fogo e ser fotografado ao lado do enlameado presidente da Câmara dos Deputados, Kin Kataguiri restringiu o público do MBL a um punhado de lunáticos. Além disto, ele ambiciona criar multidões num tempo em que as estas se tornaram anacrônicas.

O líder do MBL usa freneticamente a internet para se comunicar, mas não tem as mesmas habilidades dos cyberpunks que implodiram a diplomacia dos EUA. Além disto, a rede mundial de computadores (um instrumento de comunicação todos-todos) serve mais como um antídoto ao totalitarismo do que como uma ferramenta para a sua construção.

Até o presente momento o MBL não fez história, mas apenas uma nota de rodapé. O movimento de Kin Kataguiri é uma verdadeira inércia política que daqui a 30 anos não ganhará mais do que uma nota de rodapé com duas ou três linhas e uma foto ridícula. Isto é pouco. Mas nos faz rir muito. De fato, o MBL só conseguiu uma coisa: garantir as viagens, hospedagens e as refeições diárias dos líderes do grupo. Suponho que os moleques que lideram aquele grupinho (eles são todos jovens e já deram prova em vídeo de que são desmiolados) tenham descoberto uma forma de ganhar a vida sem trabalhar. A profissão deles não exige muita formação teórica ou técnica e a imprensa os descartará assim que eles deixarem de ser uma novidade ou uma anomalia.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora