Linhas do Horizonte, coletivo mineiro que borda política

    Em Belo Horizonte, a concentração para o ato “40 anos da anistia política”, marcada para o último 29 de agosto, estava prevista para as 17 horas.  O endereço escolhido – Memorial de Direitos Humanos – carrega simbolismo. Localizado no centro da capital mineira, o lugar foi sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS-MG), local de detenção, tortura e assassinato de presos políticos, durante a ditadura militar. Em 2013, quando foi tombado pelo patrimônio histórico, o prédio foi destinado a abrigar o Museu de Memória, Verdade e Justiça. Até hoje o projeto não saiu do papel.

    Na manhã daquele mesmo dia, exatamente às 9:40h, uma das coordenadoras do Coletivo Linhas do Horizonte, Leda Leonel, postou no WhatsApp do grupo: “É hoje! Vamos fazer as flores da Liberdade para distribuir lá? Temos papel e cola. Precisamos de gravetos ou espeto de churrasco. Vou começar agora. Quem quiser vir, vem! Quem quiser fazer em casa, faça. Junto tudo depois. Podemos fazer lá também, durante o ato. O que vocês acham? As faixas que bordamos para a Comissão da Verdade estarão lá. Com quem estão nossas faixas contra a ditadura? Precisamos delas.”

    Provocado, o grupo respondeu prontamente.

    “Quero fazer flores”.
    “Nunca fiz, mas vou passar na casa da Leda para aprender.”
    “Cate gravetinhos no caminho, se puder”.
    “Tenho um monte de palitinho de comida chinesa ou japonesa… posso levar”.
    “São ótimos! Pode trazer.”
    “Se subir aprende a fazer rapidinho”.

    Menos de uma hora depois, imagens de flores de crepom colorido inundaram a tela dos celulares do grupo. Em instantes, mais de duzentas flores foram produzidas para o evento. Esta é a forma ágil de atuação em rede, que interliga pessoas e viabiliza intervenções do coletivo mineiro, Linhas do Horizonte, pioneiro no bordado político.

    Há dois meses fui convidada a participar do grupo e busquei compreender a dinâmica de funcionamento do Coletivo. Marquei entrevista com as coordenadoras, a arquiteta Leda Leonel (67) e a engenheira agrônoma Adriana Ferreira (59). As duas dividem a coordenação do Linhas do Horizonte. “Não há cobrança”,  esclarecem. “Cada pessoa participa conforme sua disponibilidade. Quem tem disponibilidade se engaja”, esclarece Adriana. “Quem não tem, incentiva”.

    Criado há cerca de dois anos e meio, o Linhas do Horizonte congrega mais de 70 pessoas, homens  e mulheres, de classe média. A idade média é de 60 anos. O Linhas do Horizonte inspirou iniciativas semelhantes pelo Brasil e exterior afora. Há “linhas” em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba, Vitória e até, quem diria?… Nova Iorque.

    Perguntei-lhes sobre a origem do grupo. Adriana e Leda esclarecem-me que o Linhas nasceu do desejo de homenagear Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula, vítima de difamação. “Decidimos bordar uma toalha para dona Marisa Letícia. Durante a viabilização do projeto, Marisa adoeceu e faleceu”. A tragédia foi  decisiva para consolidar o desejo de seguir com o projeto. “Vale lutar pelo que se acredita”, confirmam Leda e Adriana.

    Daí pra frente, o coletivo ganhou força. Depois de Marisa Letícia, o grupo bordou para Dilma, Zé Dirceu, Chico Buarque e para as Iyás – Mães de Santo. Dom Pedro Casaldáliga foi o último homenageado, em julho deste ano. O Coletivo borda também em defesa de pautas democráticas como a violência contra a mulher, a luta antimanicomial, a defesa do SUS, dos atingidos por barragens e dos povos indígenas. “Nossa luta é por todos os que sofrem ameaças”.

    “Aprender fazendo é penoso”, confirmam Leda e Adriana. Mas também é pedagógico.  “Aprendemos com nossa experiência. Quando bordamos na rua, ensinamos também. As pessoas se aproximam, sentem-se representadas. Bordamos muitas vezes na rodoviária de Beagá. A retorno foi compensador. Distribuímos e nos sentimos alimentadas de afeto. A rua é nosso espaço político.”

    Há conflitos? pergunto-lhes. “Com certeza”, respondem-me sem pestanejar. Como qualquer grupo suprapartidário, há divergências pontuais. Entretanto, “temos certeza de que nosso objetivo é o mesmo. Democracia. Justiça. Liberdade. Igualdade.” Alguma pessoa lúcida pode ser contrário a estas causas? Com certeza, não!

    Se você tem interesse em conhecer mais o Linhas do Horizonte, acesse:

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