Lista de Livros: A Dialética Materialista (Parte II), de Alexandre Cheptulin

Um sistema nervoso altamente desenvolvido cria apenas a possibilidade real do aparecimento da consciência

Lista de Livros: A Dialética Materialista: Categorias e leis da dialética (Parte II), de Alexandre Cheptulin

Editora: Alfa-Omega

ISBN: 978-85-2950-042-3

Tradução: Leda Rita Cintra Ferraz

Opinião: bom

Páginas: 360 

  

“Como propriedade da matéria altamente organizada, a consciência é, ao mesmo tempo, o produto do trabalho humano e o resultado do desenvolvimento social. Um sistema nervoso altamente desenvolvido cria apenas a possibilidade real do aparecimento da consciência; mas, a transformação dessa possibilidade em realidade está ligada ao trabalho. Foi precisamente sob a ação do trabalho que a forma psíquica do reflexo, própria aos ancestrais animais do homem, transformou-se progressivamente em consciência, em reflexo consciente da realidade. O ponto de partida desse processo foi o momento no qual uma espécie superior de macacos começou a utilizar objetos da natureza para obter um resultado ligado à satisfação de uma ou outra necessidade do organismo. No começo, essas ações constituíam apenas casos isolados, mas, pelo fato de que elas davam, em geral, resultados positivos, e de que elas contribuíam para a satisfação de uma ou outra necessidade, um reflexo condicionado elaborou-se a partir delas e, com esse reflexo, apareceu o hábito de utilizar, em certas condições, os objetos da natureza como “ferramentas”. Esse hábito conduziu a mudanças fundamentais no comportamento desses animais. Sua ligação com a realidade ambiente foi, desde então, mediatizada pelos objetos da natureza.

Uma tal complicação da ligação do organismo com o meio ambiente influenciou de maneira positiva o desenvolvimento do sistema nervoso e, em particular, o desenvolvimento do cérebro que, obrigado a criar novos laços e a cumprir novas funções cada vez mais complexas, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se, o que, em compensação, exerceu uma influência benéfica sobre a “utilização das ferramentas” pelos macacos superiores. Essa atividade complicou-se e desenvolveu-se. A um determinado estágio de seu desenvolvimento, os macacos superiores, quando da ausência da “ferramenta” necessária para a execução de um determinado ato, procuravam adaptar o objeto não adequado, modelando-o segundo a necessidade. Surge, então, a tendência de criar as ferramentas necessárias a partir de objetos da natureza. Pode-se observar tentativas de transformar um objeto que não é conveniente para uma função dada e de criar uma ferramenta necessária, mesmo entre os macacos atuais26.

O desenvolvimento dessa tendência entre os ancestrais animais do homem condicionou a transformação progressiva dos reflexos em atividade consciente, visando a modificação da realidade ambiente com a ajuda de ferramentas criadas para esse fim. Essa atividade tornou-se uma forma necessária de ligação entre os seres que se distinguem do estado animal, entre eles próprios, de um lado, e com a realidade ambiente, de outro. Essa atividade os coloca em relações determinadas independentes de sua vontade, e assim os reúne em um todo único, organicamente ligado. Para que tudo isso possa surgir, funcionar normalmente e desenvolver-se, uma certa coordenação das ações dos indivíduos que a formam é necessária. Mas isso suporia tomar consciência dos objetivos e das tarefas, repartir as funções no processo de sua realização. Tudo isso tornaria necessária uma troca de pensamentos entre indivíduos que agem em comum. “Logo, os homens em formação chegariam a um ponto em que eles teriam reciprocamente alguma coisa para se dizer27. Cada nova necessidade condiciona também o aparecimento de meios para satisfazê-la. Um desses meios é a linguagem. Com a linguagem, a consciência recebeu uma forma material de existência correspondente a sua natureza social. Por meio dela, os pensamentos de um homem tornaram-se acessíveis a outros homens, a um grupo de homens. Sublinhando o laço orgânico da consciência com a linguagem, Marx e Engels escreveram: “A linguagem é tão velha quanto a consciência; a linguagem é a consciência real, prática, existindo também, para outros homens, existindo, portanto, somente para eu mesmo também…”28. Por intermédio da linguagem, os homens trocaram ideias e chegaram a uma coordenação de sua atividade necessária para o trabalho coletivo e para a vida social.

Sendo ligada ao trabalho e à sociedade que a engendrou, a consciência é dotada de uma natureza social, é um aspecto necessário da forma social do movimento da matéria, embora exista na consciência dos indivíduos que formam a sociedade. Com efeito, cada indivíduo, por intermédio da linguagem, dos meios de trabalho, dos modos de atividade, assimila a experiência acumulada pela sociedade e transmite sua experiência individual, encarnando-a em valores culturais e materiais criados — as formas da vida e da ação.

O fato de que a consciência seja um aspecto da forma social do movimento da matéria, um “produto social”29, é frequentemente deixado de lado pelos autores que estudam o problema da consciência. A afirmação, segundo a qual a consciência representa o produto ou o resultado da atividade fisiológica do cérebro, é muito difundida. Não há dúvida de que a consciência está ligada a certos processos que se desenvolvem no cérebro, mas esses processos não têm condições para engendrar a consciência. Para que ela apareça, o ser possuidor de um cérebro deve necessariamente estar incluído em um sistema de relações sociais e agir em comum com outros homens; ou, em outros termos, deve viver uma vida humana, social. Logo, os processos fisiológicos do cérebro fazem nascer a consciência apenas em sua união ou, mais exatamente, em sua ligação orgânica com as atividades sociais determinadas que são executadas pelo sujeito, e não pela ligação com o exercício dessa ou daquela função social. Ainda mais, as ligações neurodinâmicas do cérebro, ou seja, as estruturas a partir das quais surge e funciona a consciência, estabelecem-se sob a ação de fatores sociais, da atividade prática. “O psiquismo do homem, escreve sobre isso o psicólogo soviético A. Léontiev, é uma função das estruturas cerebrais superiores, que se formam de maneira ontogênica no processo de assimilação das formas historicamente constituídas da atividade em relação ao mundo ambiente”30. É por isso que não podemos admitir a afirmação de que a consciência é uma função, um produto, uma manifestação ou uma propriedade de interações fisiológicas, isto é, uma forma biológica do movimento da matéria. Ela é uma propriedade, um produto, um resultado de interações sociais, uma forma social do movimento da matéria, que encerra em si, sob uma forma anulada, todas as outras formas anteriores do movimento, notadamente as formas física, química e biológica. Levando tudo isso em conta, parece-nos mais correto falar dos laços da consciência, não com os processos fisiológicos do cérebro, mas com o próprio cérebro e não simplesmente com o cérebro, mas com o cérebro humano, porque é aqui que se exprimirá em uma certa medida a ideia do cérebro, órgão do pensamento, e este com a consciência, enquanto sua função, representam uma forma mais elevada do movimento da matéria do que a forma biológica.”

26 N. N. Ladiguina-Kots, Desenvolvimento das formas de reflexo no processo da evolução dos organismos, in Problemas de filosofia, 1956, v. 4, p. 101. Original em russo.

27 F. Engels, op. cit., p. 174

28 K. Marx e F. Engels, L’idéologie allemande, Paris, Editions Sociales, 1968, p. 59.

29 K. Marx e F. Engels, L’idéologie cit., p. 59.

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“Mais acima falamos dos caminhos da compreensão do que se passa com o sujeito, por um lado, e com a realidade que o rodeia, por outro. Mas qual o papel que a compreensão do que se produz desempenha na vida dos homens? Ela é a condição necessária da orientação do homem na realidade. Apoiando-se sobre uma compreensão justa da realidade, sobre o conhecimento de certos aspectos e ligações necessários, o homem, como se previsse o futuro, reproduz sob a forma de imagens o que ainda não existe, mas que deve se produzir em decorrência dessa ou daquela modificação da realidade que o rodeia, dessas ou daquelas ações exercidas sobre ele. A partir desse reflexo antecipado da realidade, o homem fixa objetivos correspondentes e a eles submete seu comportamento e suas ações. A antecipação do futuro, baseada no conhecimento dos aspectos e ligações necessários dos fenômenos do mundo exterior e sobre a compreensão do que se passa na realidade ambiente, e a fixação, em consequência disso, constituem a função essencial da consciência. A execução dessa função é que distingue o comportamento do homem do comportamento do animal, a atividade racional do homem, das ações instintivas dos animais. “Uma aranha, escreve Marx, realiza operações semelhantes às do tecelão, e a abelha, pela estrutura de suas células de cera, confunde a habilidade de mais de um arquiteto. Mas o que distingue, antes de tudo, o pior dos arquitetos, da mais esperta das abelhas, é que ele constrói a célula em sua cabeça antes de construí-la na colmeia. O resultado ao qual se chega com o trabalho preexiste idealmente, na imaginação do trabalhador”50.

O reflexo antecipado da realidade pela consciência está não apenas na base da fixação do objetivo, na orientação racional do sujeito na realidade ambiente, mas igualmente na base da atividade criadora e transformadora, aspecto necessário do trabalho. Surgindo sob a ação imediata do trabalho que supõe a transformação da realidade segundo as necessidades da sociedade, com a ajuda das ferramentas criadas para esse fim, a consciência não apenas torna possível a compreensão dos atos executados, e cria uma imagem ideal do que deve resultar dessas ações, mas também coloca em correlação, reúne todas essas ações ao resultado final, isto é, a partir do conhecimento da situação efetiva das coisas e das possibilidades reais que ela condiciona, a consciência cria qualquer coisa de novo, que não existe na realidade e que, sendo expresso no sistema de imagens ideais, torna-se um plano real da atividade material transformando uma possibilidade dada da matéria em realidade. Sem esse plano preciso indicando os caminhos da transformação da realidade, segundo as necessidades do homem, a atividade prática, laboriosa, é impossível. Isso confirma o fato de que a consciência, aspecto necessário da atividade produtiva, forma-se e desenvolve-se ao mesmo tempo que esta última.

Embora sendo esse aspecto prático que transforma a realidade objetiva da atividade em interesses da sociedade, a consciência não se confunde com essa atividade. Essa atividade é um processo material. “O trabalho, escreve Marx, é antes de tudo um ato que se passa entre o homem e a natureza. O próprio homem desempenha, nesse caso, frente a frente com a natureza, um papel de potência natural (…). As forças das quais seu corpo é dotado, braços e pernas, cabeça e mãos, são colocadas em movimento, por ele, a fim de assimilar as matérias dando-lhes uma forma útil para sua vida”51. Quanto à consciência, é, por natureza, ideal; ela é o reflexo, a fotografia, a cópia da realidade existente e a representação, repousando sobre esse reflexo (sob a forma de um sistema de imagens ideais e de relações), da realidade futura, que atualmente ainda não existe. Ela não é o processo real da criação de novas formações materiais, mas sim o modelo ideal do processo de criação e seu resultado, assim como o fator que controla o desenrolar da criação, confrontando constantemente a esse modelo os atos do sujeito e seus resultados.

Assim, a consciência representa um reflexo consciente ideal por sua natureza, associado à compreensão, pelo sujeito, do que é refletido, reflexo que antecipa a realidade, representa de forma subjetiva o resultado de sua transformação e de seu desenvolvimento, e, a partir disso, torna possível a fixação do objetivo e a criação. Em uma palavra, a “consciência humana não reflete apenas o mundo objetivo, mas também o criado”52. São somente todos esses momentos, em sua totalidade, em sua correlação e interdependência orgânicas, que constituem a essência da consciência, sua natureza específica.”

50 K. Marx, op. cit., p. 136.

51 K. Marx, op. cit., p. 136.

52 V. Lenin, op. cit., t. 38, p. 201.

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“Com o surgimento da consciência, o reflexo da realidade, pelo sujeito, adquire um caráter consciente e manifesta-se, antes tudo, sob a forma de conhecimento, chamado para assegurar à sociedade os conhecimentos necessários para a organização e o desenvolvimento da produção, assim como a transformação do meio ambiente no interesse do homem.

Estando ligado organicamente à atividade laboriosa dos homens e à prática, o conhecimento, como já fizemos observar, funciona a partir da prática e desenvolve-se da intuição viva ao pensamento abstrato, e do pensamento abstrato à prática, como critério de verdade. Repetindo um número infinito de vezes o ciclo: intuição viva – pensamento abstrato – prática, o conhecimento desenvolve-se, descobre novos aspectos e ligações e, em um certo estágio de seu desenvolvimento, começa a captar e a distinguir as propriedades e as ligações universais e a tomar consciência das leis universais da realidade e das formas universais do ser.”

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“1. A RELAÇÃO ENTRE AS CATEGORIAS DA DIALÉTICA ENQUANTO GRAUS DO DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO

Sabemos que a forma primeira, a mais simples do aparecimento da consciência, é a tomada de consciência, pelo homem, de sua existência, a separação de si com relação à natureza e a compreensão de sua relação com ela. O animal não se distingue da realidade que o rodeia, ele não sabe que existe. “O animal, escrevem a esse respeito Marx e Engels, ‘não está em relação’ com nada, não conhece, somando tudo, nenhuma relação. Para o animal, suas relações com os outros não existem enquanto relações”1. É o homem que, tendo já adquirido a consciência, nota pela primeira vez sua existência e toma consciência de seu relacionamento com o mundo exterior.

Desligando-se da natureza pelo trabalho, o homem toma consciência de sua autonomia e de seu relacionamento com o mundo exterior por meio da ação ativa que ele exerce sobre este último, transformando-o, segundo seu projeto, no interesse da sociedade. Isso condiciona o fato de que a relação do homem com o mundo exterior manifeste-se, antes de tudo, como uma interação com o mundo, cujo resultado é a transformação deste último. Esses momentos do relacionamento do homem com a realidade ambiente são captados por meio dos conceitos de correlação e de movimento.

A separação em si, com relação à natureza, supõe a tomada de consciência pelo homem da espacialidade, da existência dos objetos fora dele e, ao mesmo tempo, do aparecimento da representação, depois do conceito de espaço, das características espaciais. O conhecimento das particularidades das transformações intervindo na realidade ambiente, em decorrência da atividade laboriosa, conduz à formação do conceito de tempo, como medida de toda modificação e de todo movimento concretos.

Confrontando-se no processo do trabalho e na vida quotidiana com o particular, isto é, com os objetos, fenômenos, processos particulares, o homem distingue aqueles dentre eles que, estando de uma maneira ou de outra ligados à sua atividade vital, poderiam ser utilizados para a satisfação dessa ou daquela necessidade da sociedade e os concebia, no começo, como alguma coisa singular, inédita, jamais encontrada.

Mas, à medida que foi descobrindo outros objetos, capazes de satisfazer a essa mesma necessidade, o homem os reuniu em um mesmo grupo e fez deles uma representação geral, depois um conceito, e assim executou a passagem, na consciência, no pensamento, do singular ao geral e, no curso do desenvolvimento ulterior da prática, ao universal.

Tomando consciência do particular (objeto, processo, fenômeno) como singular, o homem julgava-o sob o ângulo de sua qualidade e esforçava-se para elucidar o que representava esse objeto. Nesse grau do desenvolvimento do conhecimento do objeto, as características quantitativas eram indiferenciadas e manifestavam-se como qualitativas. Mas, à medida que o homem passava de um objeto para vários, e comparando-os na prática e na consciência, ressaltava sua semelhança, isto é, o geral e o diferente (particular), ele começava a tomar consciência das características quantitativas. Cada aspecto da qualidade, cada uma de suas propriedades pareciam desdobrar-se; ao lado da manifestação do que ela representava, revelava também sua grandeza.

As características qualitativas e quantitativas distinguidas nesse grau do desenvolvimento do conhecimento são consideradas pelo homem como coexistentes, independentes umas das outras. O desenvolvimento ulterior do conhecimento do objeto conduz à descoberta da correlação e da interdependência orgânicas das características qualitativas e quantitativas, de sua interpenetração e de sua passagem de uma a outra.

Com o conhecimento da correlação entre os diferentes aspectos da qualidade, entre as características quantitativas e as passagens recíprocas da quantidade e da qualidade, o homem consegue tomar consciência de que a transformação de um aspecto, de uma propriedade, de um fenômeno é condicionada por uma certa modificação de um outro aspecto, uma outra propriedade, um outro fenômeno. O que engendra o outro e condiciona seu aparecimento reflete-se no conceito de causa; o que é engendrado e condicionado reflete-se no conceito de efeito.

O estudo da ligação de causa e efeito, mostra que, em certas condições, a causa engendra o efeito correspondente, que a ligação da causa e do efeito possui um caráter necessário. Surge, então, o conceito de necessidade. A necessidade é, antes de tudo, concebida como propriedade da ligação de causa e efeito. Entretanto, no decorrer do desenvolvimento do conhecimento, o conteúdo do conceito de necessidade vai precisando-se. Começa-se a considerar como necessários não somente os laços causais, mas também todas as ligações que se manifestam necessariamente em certas condições, e não apenas as ligações, mas também as propriedades e os aspectos, próprios ao objeto por sua natureza. As ligações necessárias estáveis, repetindo-se, começam a ser consideradas como leis, a ser concebidas mediante o conceito de lei especialmente criada pelo seu reflexo.

À medida que vão-se acumulando conhecimentos sobre as propriedades e ligações (leis) necessárias no domínio estudado da realidade, surge a necessidade de reunir todos esses conhecimentos em um todo único e de considerar todos os aspectos (propriedades) e ligações (leis) necessárias do objeto em sua interdependência natural. A reprodução, na consciência e no sistema, de imagens ideais (conceitos) do conjunto dos aspectos e ligações necessários próprios ao objeto representa o conhecimento de sua essência.

O movimento em direção da essência começa com a definição do fundamento — do aspecto determinante, da relação — que desempenha o papel de célula original na tomada de consciência teórica da essência do todo estudado. A dedução (explicação), desde o princípio de partida, de todos os aspectos que constituem a essência do objeto supõe a análise do fundamento (do aspecto determinante, da relação) em seu movimento, seu aparecimento e seu desenvolvimento, porque é precisamente no curso de seu desenvolvimento que o fundamento faz nascer e transforma outros aspectos e relações do todo (do fundamentado) e assim forma sua essência. A representação da célula original (do fundamento) do todo estudado em movimento e em desenvolvimento presume a descoberta de tendências contraditórias que lhe são próprias, da luta dos contrários que condiciona sua passagem de um estado qualitativo a outro. Assim, o conhecimento, desenvolvendo-se, chega finalmente à necessidade da formação das categorias de “contradição”, de “unidade” e de “luta dos contrários”.

Colocando em evidência a contradição própria do fundamento e seguindo seu desenvolvimento e sua resolução, assim como a transformação do objeto, o sujeito descobre que a passagem do objeto de um estado qualitativo a outro, efetua-se mediante a negação dialética de certas formas do ser por outros, a manutenção do que é positivo no negativo e a repetição do que já passou sobre uma nova base superior. Os conceitos de negação dialética e de negação da negação surgiram para refletir essa lei.

O conhecimento do objeto não termina com a reprodução da essência na consciência. Ele vai ainda mais longe: por um lado, da essência ao fenômeno (as propriedades e as ligações contingentes exteriores explicam-se a partir dos aspectos e das ligações interiores), por outro lado, da essência da ordem primeira à essência da ordem segunda e assim sucessivamente até o infinito (à medida que descobrimos novas propriedades e ligações necessárias do objeto, são produzidas a elucidação teórica de sua essência e a elaboração de um sistema de conceitos por seu reflexo, que é sempre mais preciso e completo).”

1 K. Marx, F. Engels, L’idéologie alemande, p. 59.