Mapa interativo mostra impactos do clima

Governo britânico lança mapa que destaca efeitos severos do aumento de temperatura, com base no cenário mais crítico do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU).

A decisão de usar o quadro A1F1 em vez dos demais cenários, segundo nota do Uk in Brazil, é porque o Reino Unido defende a importância do desenvolvimento de estudos caso o mundo fracasse na meta estipulada pelo Protocolo de Quioto: frear o processo de aquecimento para que o aumento da temperatura não supere 2ºC.

Cenários



Fonte:ONU 2007

Segundo o professor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri/Unicamp), Hilton Silveira, o mundo não tem mais condições de impedir a intensificação do efeito-estufa, decorrente do aumento de gases na atmosfera.

O relatório mais recente, publicado pelo IPCC, em 2007, aponta que onze dos últimos doze anos (1995-2006) estão entre os mais quentes desde 1850 quando o homem passou a utilizar instrumentos para medir a temperatura da superfície global. E a tendência de altas durante os últimos cinquenta anos é quase duas vezes a tendência dos últimos 100 anos – tudo indica que desde o início do século passado a temperatura média planetária cresceu em 1ºC. “Para chegarmos a dois graus não será difícil e essa estimativa é correta ainda mais considerando que o gás carbônico (CO2) demora até 200 anos para baixar o teor na atmosfera”, explica Silveira.

O MAPA, encomendado ao Departamento de Meteorologia britânico (Met Offece Hadley Centre) mostra que a média de 4ºC elevados não irá se espalhar uniformemente. O aumento da temperatura em terra será maior que no mar, de cerca de 5,5ºC em relação ao início do século passado.

O programa destaca os efeitos significativos em nove esferas: incêndios florestais; produtividade agrícola; disponibilidade de água; aumento do nível do mar; impactos sobre as espécies marinhas; seca; degelo em solos permafrost (que concentram grandes quantidades de gás carbônico); ciclones tropicais e temperaturas extremas.

No Brasil, a temperatura se elevará entre 5ºC no litoral e 8ºC nas regiões mais ao centro do continente. O resultado esperado para este caso é o aumento do risco de incêndios florestais – principalmente na região norte onde as temperaturas devem se alterar para +8ºC numa área que compreende 60% do território. O levantamento britânico também aponta que a disponibilidade de água será prejudicada, além do desempenho da produção agrícola.

O mapa foi gerado utilizando-se projeções do IPCC com base em comparações dos cenários A1B (2,8ºC) e A1F1 (4ºC) – foram 34 simulações das quais 23 atingiram os 4ºC antes do fim do século.

O pesquisador Silveira destaca que se nada for feito, o Brasil irá sofrer fortes impactos econômicos na produção agrária – segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2008, o produto interno bruto (PIB) agrícola do país foi de R$ 163,5 bilhões, correspondentes a 7% da economia brasileira.

Brasil

Em 2008, o Cepagre e a Embrapa divulgaram um estudo com cenários futuros para a agricultura brasileira, financiado com recursos do governo britânico. A análise revela que com um aumento na ordem de 2ºC o déficit na safra de grãos irá proporcionar uma perda na ordem de R$ 7,4 bilhões, em 2020.

A pesquisa brasileira faz projeções para os anos 2020, 2050 e 2070 cruzando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do último relatório do IPCC, em cima dos cenários A2 e B2 – o primeiro prevê alta média de temperatura igual a 3,4ºC e o segundo a 2,5ºC.

As conclusões do estudo apontam que algumas culturas, como algodão, arroz, café, cana-de-açúcar, feijão, girassol, mandioca, milho e soja – que juntas respondem hoje por 86,17% do total de área plantada no país – terão que ser readaptadas ao novo ambiente ou realocadas para regiões mais providas de recursos hídricos.

As culturas mais prejudicadas serão a soja, café e milho. No pior cenário, os produtores de soja poderão perder até 40% da produção em 2070. A soja é a principal commodity agrícola do país, para se ter ideia da importância do grão à balança comercial brasileira, as vendas proporcionaram uma receita de US$ 11,3 bilhões em 2007, e em 2008, de US$ 17 bilhões – dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). As perdas econômicas esperadas para 2020 são de R$ 4,3 bilhões, promovidas por uma redução de área cultivável de 21,61% a 23,59%.

O café arábico, espécie mais plantada no Brasil, poderá perder 33% de áreas nos estados de São Paulo e Minas Gerais – o aumento de 2ºC causaria o brotamento da flor antes da colheita das sementes. A tendência, segundo a pesquisa brasileira, será a procura por regiões de temperaturas mais amenas – é possível que em vinte anos nas regiões da divisa do Rio Grande do Sul com a Argentina seja possível produzir café.

Os prejuízos decorrentes do aquecimento global em relação ao café poderão chegar a R$ 600 milhões até o final da próxima década e de R$ 1,7 bilhão em 2050. Já a cultura do milho, em 2070 estará com uma área 17% menor de produção, levando a perdas próximas de 10 bilhões.

A indústria canavieira será uma das poucas a se beneficiar com o aquecimento global podendo se expandir para os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde hoje, a temperatura não permite a produção.

Medidas

Segundo os pesquisadores, o Brasil deve se proteger de crises no setor agrário a partir de dois tipos de ações: mitigação e inovação. A primeira seria realizada com a adoção do plantio direto, fim das queimadas e maior interação entre pecuária e lavoura – que favorecerá um ganho de área igual a 60 milhões de hectares para produção de alimentos. A segunda ação, viria com estudos para adaptação das culturas ao estresse climático – assim, a biotecnologia e inovação agrária entrariam em campo para melhorar as espécies.

Silveira destaca que o Nordeste será a região que mais sofrerá com os cenários previstos – o clima local poderá se alterar de semi-árido para árido potencializando a escassez de água.

“A alternativa é investir na criação de plantas regionais – cajá, xique-xique, siriguela – que já são mais tolerantes a secas e altas temperaturas e, principalmente, implementar uma indústria das culturas nordestinas. Podemos repetir o que se deu com o côco, por exemplo, até dez anos atrás só se tomava água de côco na praia, hoje temos uma indústria no país que vende o produto em caixinha”, completa.

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