Marcelo Adnet, Tas e as saudades de Ernesto Varela

Os questionamentos de Tas passaram a sensação da enorme saudade que ele deve ter de Ernesto Varela, o inesquecível personagem criado por ele, nos anos 90, antes de sucumbir aos stand-ups.

A entrevista do humorista Marcelo Adnet ao Roda Viva comprovou o que suas imitações permitem intuir: é um dos principais pensadores da nova comunicação digital. Suas imitações englobam os trejeitos, a voz, os tics verbais do imitado e a própria retórica dos imitados.

Tem uma enorme capacidade de analisar os fatos e sistematizar conclusões. Especialmente em entender a retórica da direita.

Há pelo menos 12 anos, quando enfrentei esse grupo, na série que fiz sobre a Veja, ficavam nítidas as características retóricas, desenvolvidas pioneiramente por Olavo de Carvalho, e seguidas à risca por discípulos jornalistas.

Um dos recursos consistia em minimizar a indignação do oponente com as barbaridades levantadas. A indignação se baseia em um conjunto de julgamentos que se consolidam junto à chamada opinião pública civilizada.

O ponto central da lógica da ultradireita consistia em tentar desmontar os consensos em torno da arte, da moral e dos costumes.

Especialmente os colunistas da revista Veja entraram em uma espiral de opiniões visando chocar cada vez mais os leitores, desqualificando o politicamente correto, falando mal de Mozart, de Chico, das unanimidades consolidadas até então.

A retórica olavista desqualificava a indignação com argumentos tipo “mimimi”, ou “e daí”.

No início daquela lógica de desconstrução, lembro-me de levar minhas caçulas ao cinema. Entramos na fila da pipoca, um sujeito furou a fila. Questionei-o. E ele: para com essa história de politicamente correto, eu só vou comprar uma pipoca, vocês vão comprar quatro.

Era nesses pequenos episódios, capturados no dia-a-dia que se via a desconstrução das normas sociais e a preparação do terreno para a acensão do húmus homo bolsonarius.

Adnet capta com precisão essas construções verbais, potencializadas pelas redes sociais. Capta também a extrema eficácia dos slogans de ultradireita, quando confrontados com a argumentação racional da esquerda.

Lembro-me de um trabalho do grande Wanderley Guilherme dos Santos, por volta de 1962, chamando a atenção da esquerda para os bordões primários brandidos por Carlos Lacerda (que era um polemista sofisticadíssimo).

Dizia ele que os pensadores de esquerda ironizavam o primarismo dos argumentos, mas sua eficácia era absoluta. Permitia a qualquer pessoa entrar no debate político armado daquele primarismo.

Além do pensamento do próprio Adnet, foi curiosa a participação de Marcelo Tas na entrevista. Em outros tempos, Tas foi um pioneiro das novas linguagens das redes sociais. Questionador, provocador, compôs um tipo popular na TV. Depois, foi se enquadrando gradativamente no padrão stand0up, perdendo a vitalidade inicial.

No Roda Viva, seus questionamentos a Adnet, passaram a impressão de haver alguma a mais do que a mera curiosidade de entrevistador.

Primeiro, ao atribuir o fato de Adnet ter sido contratado pela Globo a uma estratégia planejada, “típica de couchs”, e não ao seu talento. A mensagem que tentou passar parece ter sido, Adnei conseguiu, eu não, porque ele é mais vendedor.

Adnet respondeu que adorava o ambiente da MTV, onde iniciou sua carreira. Aceitou o convite da Globo apenas quando ficou claro que a Abril deixara de apostar na emissora. E não passou recibo à provocação.

Depois, quando confrontou a declaração de Adnet, dizendo-se um esquerdista, com a ditadura em Cuba e na China, um questionamento inacreditável.

Pacientemente, Adnet explicou que não é comunista, é apenas esquerdista.  E que classificar todo esquerdista de comunista é primarismo, assim como é primarismo classificar todo direitista de fascista. A lição não foi para um hater de Internet, mas para o pai de Ernesto Varela, personagem criado por Tas nos anos 90.

A terceira questão matou a charada. Indagou de Adnet como faria para não se acomodar com o atual sucesso. Adnet explicou que era uma luta diária, que não admitia acomodamento.

Os questionamentos de Tas passaram a sensação da enorme saudade que ele deve ter de Ernesto Varela,  antes de sucumbir aos stand-ups.

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12 comentários

  1. Nao tem nenhuma grande invenção nessa nova retórica antissocial. Enquanto perde-se tempo cerebrinando teses e mais teses, eles usam a velha chalaça, o velho bate boca de bar e de esquina, a zoação do futebol, e tudo mais que qualquer um que nasceu no subúrbio ou na periferia se cansou de ver. É isso que o baix(issim)o clero da política se viu legitimado a usar no espaço público com o apoio alto clero. Agora eles estão aí se reposicionando.

    Enquanto os chamados “setores democraticos” continuarem embarcando nessa falsa divisão entre um suposto “centro” do bloco da direita e esse bando de boçais desvairados que estão na linha de frente agora, já era: ou aprendem a brigar ou vão apanhar. Pra quê que serve tanto diploma, tanto conhecimento, tantos anos de janela se caem em toda e qualquer armadilha?

  2. Só discordo de Adnet quando diz que o governo de Cuba não é progressista. Entendo que, apesar de não ser democrático representou um grande progresso em relação ao governo anterior ao distribuir de forma mais justa os resultados do trabalho socialmente produzidos. Entendo ainda que os comunistas cubanos nem precisam ser humoristas — basta que proporcionem as condições para que o povo comum de lá continue majoritariamente bem humorado…

  3. Nassif, Ernesto Varela nasceu nos anos 80 e não nos 90. Tas envelheceu demais, tornou-se conservador, de centro-direita, caindo pra direita mesmo, avesso ao PT, por definição – pelas 2 letras até. O tal programa dele na Band foi um dos responsáveis por dar visibilidade semanal ao Bolsonaro. Depois, no Papo de Segunda, no GNT, não durou muito: antipático, em confronto sempre com os outros apresentadores progressistas, inclusive com Xico Sá. Como tem ligações fortes com o PSDB, não sai da TV Cultura. Ontem, deu show de calhordice. Adnet deitou e rolou.

  4. Há um vídeo no youtube contando a viagem de um grupo de políticos jovens, inclusive, o Aécio Neves, a Moscou, narrado pelo Ernesto Varela que é muito engraçado. Vê-se que Tas envelheceu. Está amargo, triste. Coitado. Envelhecer requer sabedoria para não se perder a graça, nunca. Vamos ter piedade com ele…

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