Marielles na política, por Tereza Cruvinel

    Imagem da Agência Patrícia Galvão

    no Jornal do Brasil

    Marielles na política

    por Tereza Cruvinel

    Socióloga, ela queria ser pesquisadora e não política. A filha da Maré queria emprestar o conhecimento conquistado com muita luta, pois não é fácil para uma favelada chegar à PUC, às causas que abraçara: identidade racial e de gênero e a realidade dos territórios habitados pelos mais pobres, castigados pela violência e a exclusão. Li que ela hesitou muito em ser candidata mas, no trabalho como assessora parlamentar de Marcelo Freixo, deve ter concluído que a práxis política poderia ser mais efetiva que o instrumental teórico. E de fato foi, até à noite de quarta-feira. 

    Em 2014, a representação feminina encolheu em mais de 14% nas assembleias legislativas e cresceu apenas 1% na Câmara, chegando a humilhantes 9,9%. No Senado também elas são menos de 10%. Num ranking de 190 países, organizado pela ONU Mulheres, o Brasil ocupa a 154ª em matéria de presença feminina no Parlamento. A instituição de cotas para candidatas, há cerca de 20 anos, obrigando os partidos a reservarem pelo menos 30% das vagas para mulheres, não mudou o panorama. Afora o fato de muitos partidos terem burlado a lei, lançando candidatas “de mentira”, o financiamento das campanhas foi determinante para o insucesso das cotas. Hoje sabemos que, nas últimas décadas, elas foram financiadas pelo conluio entre os dirigentes partidários, todos homens, com os varões que comandam as grandes empresas. Afora as barreiras culturais, as candidatas pelas cotas enfrentaram sobretudo a falta de dinheiro.

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    O que o Supremo decidiu, seguindo o voto do ministro Fachin, foi que os partidos, este ano, terão que reservar pelo menos 30% dos recursos do Fundo Eleitoral (R$ 1,7 bilhão) para candidatas mulheres. A tal minirreforma eleitoral de 2015 teve a pachorra de estabelecer  que esta reserva seria de 5%, como mínimo, a 15%, como teto, até 2020.  A PGR argumentou que os recursos deveriam ser proporcionais ao número de candidatas, 30% das vagas. Fachin acolheu e ainda estabeleceu que o mínimo de 30% valerá definitivamente.  É uma boa notícia.  Não será fácil concorrer com a maioria masculina dos que já têm mandato mas haverá mais equilíbrio na disputa.  Desde que as mulheres exijam que os partidos, quase todos dirigidos por homens,  cumpram o determinado.

    SECTARISMO NA DOR 

    Parafraseando Otto Lara Resende, para quem o mineiro só era solidário no câncer, ouso dizer que a esquerda não abdica do sectarismo nem na morte. No ato em frente à Alerj, o senador Lindbergh Farias e o deputado Wadih Damous, ambos do PT do Rio, foram vaiados, e o senador praticamente impedido de discursar por uma claque de militantes do PSOL, partido de Marielle Franco.  Antes, o PSOL agradecido a solidariedade de vários partidos e entidades,  não citando o PT, solidário na primeira hora.  As deputada Maria do Rosário e Érica Kokay foram das mais veementes na sessão de homenagem da Câmara. A morte de Marielle não pode ter dono nem partido. Não entender isso é ignorar o tamanho dessa tragédia.

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    2 comentários

    1. Os mortos não falam

      As últimas entrevistas da vereadora Marielle Franco que assisti no 247 provam que os mortos não falam, porém, aqueles que estão marcados para morrer costumam dar pistas sobre quem eventualmente poderiam ser os seus carrascos.

    2. O Brasil e seus filhos: partidos
      Homenagem em Paris

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      https://m.youtube.com/watch?v=jzQ49ttcuXI

      Sobre o artigo

      O sectarismo antipetista entre a esquerda radical, composta majoritariamente por ex petistas ressentidos, destituído de solidez contrapropositiva e maturidade político-ideológica (uma relação distorcida com a figura parental ou referencial idealizada e rejeitada por sua falibilidade realizada – em todas as acepções possíveis do termo -, segundo um almanaque freudiano vulgar) é apenas uma das muitas fraturas sociais e políticas que a disputa eleitoral de 2018 tende a recrudescer. Se metade da energia gasta por antipetistas e extremistas de qualquer lado contra outros setores da esquerda fosse utilizada em prol de seu próprio desenvolvimento, todos só teríamos a ganhar em fortalecimento da esquerda progressista democrática como força política popular, através da pluralidade de alternativas e ampliação da credibilidade das propostas e do ideário da esquerda em meio a população majoritária, para além de figuras pessoais carismáticas – que não se confunde com liderança -, que o PSOL tanto criticou no PT e acaba por optar como catalisador de mudanças que superem sua intransigência imobilizadora.

      O caminho para a superação do golpe será longo, doloroso, exigente, um ritual de passagem ancestral da adolescência para a vida adulta de um país órfão de pais e mães vivos, exilado em seu próprio território, sem auto estima e esperança, cansado de apanhar e a quem só resta não desistir, a grande tentação.

      O canto das três raças – de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte – com Clara Nunes

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      Selvagem – de e com Paralamas do Sucesso

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      Sampa/SP, 18/03/2018 – 16:15 (alterado em 16:17).

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