“Me ensina a fazer versos?”, escreve a moça com admiração pelos líricos. Mas eu não sei ensinar

Aquela moça, mulher que me escreve querendo saber por que não consegue fazer versos, como os que lê e se deslumbra com muitos, me encanta, me derruba ao chão, de fascínio.

O outro que escreve aos poucos com versos diagramados em células completamente distintas daquelas formalmente concebidas me encanta ainda mais.

Aquele que, bissexto, se diz insatisfeito com quem lhe pergunta que significado têm seus versos – este então me alucina, como um cofre que, aos poucos vai-se abrindo e dele saem acordes melodiosos como os de uma caixinha de música.

E a criança que começa a escrever e, seduzida pelas rimas que a atraem pelo ritmo, começa a rimar “leão, cão, sabão, balão, mão” – ao escrever seus primeiros versos de sílabas simples – ah, essa então me faz levitar, porque a simplicidade dos versos, a simplicidade da lírica é um requinte quase inatingível.

Passei a vida a ensinar a escrever. Mas escrever versos é quase como ter que molhar a pena na tinta do sangue, a retirar o papel das resmas empoeiradas que se acumularam ali por anos, é digitar com feridas nos dedos das mãos as loucuras dos ramais e caminhos percorridos até então.

Sem se preocupar com rima, ritmo, léxico ou estrutura, a poesia é um esguicho, uma jato, um regurgito, um vômito, uma ejaculação, um suor, um orgasmo.

Poetar é entrar em contato direto com deuses e, possuídos de seus espíritos, ser cavalo poético de seus dizeres a partir de nosso corpo apenas.

Lapidar é obra, de fato. Mas refere-se à beleza, qual a de um Bilac ourives.

Sangrar versos é individual, único e insubstituível, inconfundível, inalienável e inafiançável também.

Poetar é para quem vive intensamente a vida – creio eu.

 

SANGUE

 

Versos escrevem-se depois de ter sofrido.

O coração dita-os apressadamente.

E a mão tremente quer fixar no papel os sons dispersos…

É só com sangue que se escrevem versos.

 

Saúl Dias

 

Dedico meus versos a meus pais Itália e Plácido, que como feijão e sonho me forjaram em risos, lágrimas e gozos.

 

https://www.youtube.com/watch?v=Tl8GaA7p3Ls

 

O MONSTRO DO LAGO LARGO

Nas águas estáticas

o oculto ser eclipsado de dor

rumina sua sina água barro lodo chão

 

Cabeça disforme 

corpo bipartido

membros quase resignados.

 

Entretanto, com um mínimo movimento,

águas estáticas se chocam

levemente

se chocam

promovendo duas mãos 

estendidas

acima do lodo.

 

Mãos que exalam perfume

Mãos que adoçam o ar

Mãos que murmuram, 

como bocas,

uma lírica

desconhecida,

estrangeira,

incomum.

Odonir Oliveira

 

 

 

 

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