Mensagem ao senhor analista da Editora

 

Ao senhor analista da Editora:


   Afora questões de mérito, considero bem complicado para um escritor novato publicar um livro no Brasil. Existe muita burocracia nas editoras. Vejam só, cometi um romance. Escrevo assim – cometi um romance – porque me parece que desandei a criar entraves para o bom andamento da indústria (desculpem a palavra) cultural e, portanto, mereço ser punido.

   O primeiro grande trabalho foi escrever. Foram dois anos que resultaram em humilde jactância. Escrevi um livro, repetia orgulhoso a vários amigos. Ouvia deles como resposta, na maioria das vezes, o trivial redundante: se escreveu um livro, plantou uma árvore (eu respondia que sim, já plantei), teve filhos (sim, também já!), então você é uma pessoa completa, realizada. Porém, meu livro permanecia na gaveta. Que realização é essa? – perguntava-me.

   Então, registrei o romance na Câmara Brasileira do Livro, preocupado com a pirataria, cioso de minha labuta: sim, quando digo que o primeiro grande trabalho foi escrever, definitivamente não exagero. Bem, depois do registro passei a integrar algum catálogo. Pertencer a um índice é melhor que nada, senti-me sócio de um simpático clubinho.

   O sentimento de pertencer a um simpático clubinho não amainou minhas inquietações. O segundo trabalho consistiria em fazer o papel de comerciante. Vender o meu peixe. Ora, bolas, não sou comerciante. Não seria capaz de vender água no deserto. A bem da verdade, sequer sou escritor, uma vez que não publiquei. O escritor que não publica é um meio-escritor. Meus únicos leitores são minha mulher, minha mãe e meus filhos. Todos gostaram do romance, mas desconfio, são obviamente suspeitos. Não contam como leitores. Sem leitores, um sujeito não vale também como escritor.

   A cada editora que enfrentei (foram poucas, pois logo perdi a paciência), constatei uma infinidade de exigências. Era preciso preencher formulários. Era preciso fazer uma sinopse. Era preciso um resumo biográfico. Era preciso dizer em que aspectos o meu romance apresentava características próprias. E, pior de tudo, era preciso enviar o material impresso. Uma cópia apenas mostrava-se insuficiente. Percebi que duas eram a regra, mas até três me pediram. Puxa vida, pensei, o meu desejo é justamente ter meu livro impresso e quem sabe distribuído pelas casas do ramo. Se eu tivesse essa larga capacidade de impressão, não precisaria de uma editora. Formato .pdf ou .doc, nem pensar, muito simples para dar cabo das duzentas e noventa e cinco páginas de um romance que será conferido por – minha imaginação voa – uma fileira de sábios. Como disse, desisti logo, não quero ser um homem de fibra, não sou daqueles que acreditam no “lute sempre e conseguirá alcançar seu objetivo”. Se acreditasse nessas teorias, teria escrito um texto de auto-ajuda.

   Um ser cativo de seu hábito literário entra numa livraria, feliz, olha as capas, abre um exemplar aqui, folheia as primeiras páginas do primeiro capítulo, abre outro exemplar acolá, lê a orelha, enfim, não precisa muito para escolher. Alguns parágrafos, o tema, o estilo da linguagem, mais suas próprias referências: ele junta tudo e caminha resoluto para o caixa, paga e volta para casa com uma promessa de prazeres debaixo do braço e um pequeno buraco no cartão de crédito.

   Se é assim tão rápido para decidir nos corredores de uma livraria, por que raios um analista de uma editora exige tanto para decidir, já que faz disso sua profissão. Deveria ser mais prático. É verdade, em parte sou capaz de entender, costumamos sofisticar nossas rotinas profissionais para compensar o sofrimento de nossos egos com melhoras na estima, a sofisticação costuma se traduzir em promessas interiores de uma sólida carreira. Somos profissionais, não temos um simplesmente emprego. Não exageremos, entretanto.

   Senhor analista da Editora, espero que minhas palavras desçam sobre seu espírito de um jeito bem suave, que não causem maiores contusões. Tenho receio de ser retumbante. A gente acaba sendo retumbante às vezes, vai na onda das pessoas e faz igual, depois percebe que foi burrada. Não quero ser retumbante, quero ser delicado, sugestivo, insinuante, quase carinhoso, mesmo porque não gostaria de receber nenhuma chapuletada em troca.

   Não exagere, senhor analista da Editora, muita pompa termina por ser prejudicial aos negócios. Cá estou eu, inerte, com o meu livro enfiado na gaveta, um meio-escritor a caminho do desalento. Talvez meu romance resulte em um livro bonzinho o bastante para seduzir pessoas cativas de seu hábito. Há muitos assim, por aí, ávidos por novidades e desapontados com o excesso de reedições. Facilite um pouquinho, senhor. Não tenho a pretensão de ser um Saramago, pouquíssimos o são. Ficaria feliz por um voar baixinho, inseguro e vacilante. Pense nos milhares de quase-escritores como eu, senhor analista da Editora, embriões que abortam em meio a tantas exigências, que gostariam de ver seu trabalho materializado em papel, com uma capa luminosa e fontes elegantes. Escritores-metade que carregam o sonho de ter suas palavras diante dos olhos das pessoas, de outras pessoas que não sejam suas mulheres, suas mães e seus filhos. Pegue leve, senhor analista da Editora, há que pecar de leve, lembre-se disso.

 

Muito obrigado pela sua atenção, viu?

 

Johnny Gonçalves

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome