“Minha responsabilidade é nenhuma. Nada que eu tenha feito gerou percalços”, diz Ernesto Araújo à CPI

Ex-chanceler diz que Itamaraty agiu na pandemia sob orientação do Ministério da Saúde. Ele nega prejuízo por ataques à China e admite que governo federal não buscou a Coronavac

Jornal GGN – Em depoimento à CPI da Pandemia na manhã desta terça (18), o ex-chanceler Ernesto Araújo disse que o Itamaraty agiu na pandemia na busca por medicamentos e vacinas sob orientação do Ministério da Saúde. Ele negou alinhamento aos EUA sob Donald Trump durante sua gestão no Ministério das Relações Exteriores, minimizou e negou que o Brasil tenha sofrido “prejuízo comercial” por causa dos ataques ideológicos dele e da família Bolsonaro à China.

Além de não ter apostado em um leque maior de vacinas contra Covid-19, o Brasil assiste, reiteradamente, a atrasos na chegada de insumos da China para o envasamentos das vacinas Coronavac e Astrazeneca/Oxford. Direitor do Instituto Butantan, Dimas Covas tem afirmado que a diplomacia brasileira não facilita a importação. Pesquisadora da Fiocruz, a médica Margareth Dalcolmo também já criticou a má vontade e inaptidão do governo Bolsonaro nas articulações envolvendo as vacinas e o IFA (insumo farmacêutico ativo).

Na sessão da CPI que começou às 10h, o relator da comissão, Renan Calheiros, destacou uma série de declarações dos Bolsonaro e artigos e falas de Ernesto Araújo atacando a China. “Minha responsabilidade como ministro é nenhuma. Nada que eu tenha feito gerou percalços na liberação de insumos. Jamais foi identificada nenhuma correlação entre atraso e atuação da minha parte ou qualquer elemento político oriundo do governo brasileiro”, disse o ex-chanceler. O presidente da CPI, senador Omaz Aziz, rebateu: “Vossa Excelência está faltando com a verdade”.

Apesar da reprimenta, Araújo insistiu que “não houve nenhuma declaração que se possa qualificar como anti-chinesa [por parte do governo Bolsonaro], de modo que o impacto [desses ataques à China sobre a questão das vacinas e insumos] não existiu.”

Araújo afirmou à CPI que o governo Bolsonaro não elaborou um plano estratégico específico voltado às articulações internacionais em busca de insumos para abastecer o País na pandemia. “Não recebi orientação do presidente para essa política. O fato de não ter havido um plano desse tipo não significa que teve improviso”, disse.

O Itamaraty, segundo ele, agiu sob orientação e quando solicitado pelo Ministério da Saúde. Araújo afirmou que houve articulação diplomática em torno da vacina da Astrazeneca a pedido da Saúde. Também jogou responsabilidade sobre a Pasta então comandada por Eduardo Pazuello pela priorização da importação de hidroxicloroquina em detrimento de vacinas.

O ex-chanceler ainda admitiu também que o Instituto Butantan negociou sozinho com a Sinovac pela vacina contra Covid-19, sem participação do Itamaraty. Considerada motivo de rivalidade entre Jair Bolsonaro e o governador João Doria, a Coronavac imunizante é hoje a vacina mais usada na população brasileira dentro do Plano Nacional de Imunização. “As tratativas, entendo, são diretamente entre Butantan e institutos chineses. Pelo menos na minha gestão foi assim”, disse Araújo.

Questionado sobre o papel do Itamaraty na busca de outras vacinas que não apenas a Coronavac e a vacina da Astrazeneca/Oxford, ele respondeu: “Outras vacinas, não tenho conhecimento.”

Araújo também distorceu a realidade quando disse que não aproveitou um encontro que teve com o então vice-presidente dos EUA, Mike Pompeo, em setembro de 2020, para pedir apoio dos americanos na compra da vacina da Pfizer porque, segundo eles, não existia nenhum vacina àquela altura do campeonato. A vacina da Pfizer, naquele mês, já estava em fase 3 de estudos clínicos, inclusive sendo testada em brasileiros.

O CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, informou à CPI na semana passada que ao menos desde agosto de 2020 vem oferecendo a vacina desenvolvida com a BionTech ao governo brasileiro, sem ter obtido respostas até março de 2021, quando finalmente o Ministério da Saúde assinou o contrato com a Pfizer para compra de 100 milhões de doses.

O ex-chanceler também afirmou que sua demissão do Ministério das Relações Exteriores não teve nada a ver com o problema na importação de insumos e compra de vacinas e os entraves com a diplomacia chinesa. “O presidente me manifestou que surgiram dificuldades no relacionamento com Senado e, diante disso, me pediu que eu colocasse à disposição o cargo, o que o fiz.”

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