MPF denuncia ex-agente e legistas pelo assassinato de militante durante regime militar

Laudo sobre a morte de Neide Alves dos Santos foi forjado. Na época, militante integrava o setor de agitação e propaganda do PCB

Militante Neide Alves dos Santos, morta em 1976. | Foto: memoriasdaditadura.org.br

Jornal GGN – O Ministério Público Federal (MPF) denunciou nesta sexta-feira, 24 de janeiro, um ex-agente da ditadura e dois médicos legistas por envolvimento na morte da militante Neide Alves dos Santos, registrada em 7 de janeiro de 1976. 

Audir Santos Maciel, então comandante do Destacamento de Operações e Informações (DOI-Codi) do II Exército – órgão subordinado ao exército durante o regime militar -, em São Paulo, participou da operação que capturou e assassinou Neide. 

Já os médicos legistas Pérsio José Ribeiro Carneiro e Harry Shibata, este último diretor do Instituto Médico Legal de São Paulo, entre 1976 e 1983, forjaram um laudo necroscópico que omitia as verdadeiras circunstâncias da morte da militante. No documento, os legistas confirmaram a versão oficial da época: que as extensas queimaduras identificadas no corpo da vítima foram ocasionadas pelo “suicídio por ateamento de fogo”.

“O laudo é propositadamente sumário e tecnicamente insatisfatório, pois não esclarece como se espalharam as lesões e qual a origem das queimaduras. Não procurou vestígios de vestes queimadas nem fez o exame interior do cadáver”, disse o procurador da República e autor da denúncia do MPF,  Andrey Borges de Mendonça. 

“Em verdade, a versão do suposto suicídio foi forjada para justificar o homicídio da vítima. E mais: o laudo foi propositadamente omisso, visando dificultar as apurações das verdadeiras circunstâncias da morte e seus autores”, completou Mendonça.

Na época do crime que tirou sua vida, Neide integrava o setor de agitação e propaganda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), legenda contrária ao regime de torturas. A militante morava no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo, e estava na mira dos órgãos de repressão quando desapareceu em 30 de dezembro de 1975.

Neide foi uma das 19 vítimas da “Operação Radar”, coordenada pelo DOI-Codi do II Exército, entre 1973 e 1976, que tinha o objetivo de eliminar ativistas do PCB em todo o país. 

De acordo com o MPF, Audir Santos Maciel foi denunciado por homicídio qualificado, já os médicos legistas Harry Shibata e Pérsio Carneiro, por falsidade ideológica. O MPF destaca que “não cabe prescrição ou anistia nesse caso, pois a morte de Neide ocorreu em um contexto de ataque generalizado do Estado brasileiro contra a população civil e, por isso, constitui crime contra a humanidade.” 

Além das penas de prisão, o MPF também pediu à Justiça Federal o “cancelamento de aposentadorias” dos acusados, além da “perda de medalhas e condecorações eventualmente entregues a eles pelos serviços que prestaram à repressão política”. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Facebook anuncia manutenção de perfis bolsonaristas no exterior

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome