25 comentários

    • Ana, a holandesa, e Nat King Cole

      Vendo Emílio Santiago cantar para Nana Caymmi e ela toda feminina ao lado dele, parecendo até tímida, mas envolvida e amando o momento, lembrei-me de episódio de quando eu tinha cerca de 14 anos de idade. Aconteceu no meu primeiro emprego em uma empresa multinacional francesa. Trabalhavam lá pessoas de diversas nacionalidades, brasileira, francesa, alemã, portuguesa, holandesa. Muitas dessas pessoas eram poliglotas, especialmente as secretárias. Lá se vão muitos anos, não direi quantos, mas dou algumas dicas: era chique beber uísque misturado com guaraná, porém mais chique ainda era misturá-lo com água de coco; in, também, era melão com presunto…

      Uma dessas secretárias, Ana, se bem me lembro de seu nome, era uma holandesa, culta, alta, longilínea, muito clara, alourada, muito bonita. Morava na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, e escandalizava os  ilhéus quando ia à praia: ia à praia vestindo biquíni, como soube depois (na época, biquíni era ousadia, mormente na zona norte – socioeconomicamente falando).

      Pois bem, certa vez, quando Nat King Cole (o Emílio Santiago da época, embora Nat fosse americano) fazia grande sucesso no Brasil, uma das secretárias, esta brasileira, branca, morena, cabelos pretos, numa das conversas de escritório, criticou Nat King Cole por ser negro. Disse isto porque Ana elogiou a sensualidade da voz de Cole. A brasileira rejeitava-o como homem porque seria feio, ou algo assim, pois, para ela, ser negro era ser feio, era ser até mesmo repugnante.  Ana, a holandesa, porém, discordou, dizendo, mais ou menos, o seguinte: olha, cantando para mim com aquela voz, deixo que ele fazer o que quiser comigo.

      Acho que Nana Caymmi, enquanto ouvia Emílio Santiago, sentia o que Ana disse que sentiria se Nat King Cole cantasse para ela ao seu ouvido.

      Adiante, uma raridade: Nat King Cole e Sylvinha Telles cantando Dolores Duran

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=53BTc9WISRY%5D

        • Eu também

          Oi, querida, entendi perfeitamente. Você se referiu à ausência de preconceito racial da Ana, identificou-se com ela. Disse que, tal qual ela, não tem preconceito nenhum contra negros, e que cogitaria até de se envolver emocionalmente com um negro, desde que fosse o Nat King Cole, pela bela voz dele. Num país pleno de discriminações contra negros e nesse momento de emergência aguda de intolerância contra negro, pobre, nordestino, petista etc., tenho é de louvar, admirar e ficar cativado por sua declaração.

          Entendo, também, a dificuldade que todos temos quando revelamos, mesmo que tangencialmente, nossas possibilidades emocionais, e as eventuais dificuldades que as interpretações de nossas declarações sobre tais questões possam ter. Mas, cá pra nós, se houvesse segundas intenções no seu texto, tudo bem. Qual o problema?  Imagine o que seria dos poetas se lhes fosse negada a possibilidade dos leitores interpretarem livremente seus subtextos, ou mesmo textos? Onde ficaria a poesia? E o romance? Por exemplo, Vinícius de Moraes, espero que aprecie a poesia dele, não teria existido. E tal negação de nada adiantaria por inviável, pois a interpretação do texto pertence ao espaço do leitor, não do autor. Foge do domínio deste.

          Sua declaração, minha cara, me fez admirá-la mais ainda porque, na contramão das tendências regressivas de nosso tempo, admite que poderia ser “essa holandesa reencarnada”, e que, da mesma forma que ela, gosta da voz de Nat King Cole independentemente de sua cor.

          Um beijo, sem intenções, ou com…

          PS: nessa nova versão de seu comentário, você suprimiu o vídeo do Nat, muito bom, que postou anteriormente. Seria possível enviá-lo de novo?

          PS1: a vida é muito curta para se beber cerveja barata, como dizem; e é, também, muito curta para se ter vergonha da própria sensibilidade.

  1. Dois poemas de Eugênio Montale

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=segnm7DAkCQ%5D

     

    A ENGUIA

    A enguia, a sereiados mares frios que deixa o Bálticopara alcançar nossos mares,nossos estuários, os riosque sobe pelas profundezas, contra a enxurrada,de braço em braço e depoisde veio em veio, cada vez mais delgados,sempre mais dentro, sempre mais perto do coraçãoda rocha, filtrando-sepor regos de lama até que um diauma luz desfechada dos castanheirosacende sua chispa num poço de água parada,nas valas que se despejamdos flancos do Apenino, na Romagna;a enguia, torcha, açoite,flecha de Amor na terraque só as nossas ravinas ou os ressecadosregatos pirenaicos reconduzema paraísos de fecundação;a verde alma que procuraa vida onde sóreina a aridez e a desolação,a centelha que diztudo começa quando tudo parececarbonizar-se, galho enterrado;breve arco-íris, íris gêmeadaquela que teus cílios encastoae que fazes brilhar intacta entre os filhosdo homem, afundados no teu lamaçal, podes tunão crê-la irmã? Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti [video:https://www.youtube.com/watch?v=YqZ59n0ZQ-k%5D 

    OS LIMÕES

     

    Escuta-me, os poetas laureados 

    circulam apenas entre plantas 

    de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.

    Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas 

    cheias de mato onde em lamaçais

    já meio secos meninos apanham 

    alguma esquálida enguia:

    as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços

    e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

     

    Tanto melhor se a algazarra dos pássaros 

    se dissipa engolida pelo azul: 

    mais claro se escuta o sussurro 

    dos galhos amigos no ar que mal se move, 

    e as sensações deste cheiro

    que não se larga da terra

    e faz chover no peito uma doçura inquieta. 

    Aqui se cala por milagre

    a guerra das desencontradas paixões, 

    aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza 

    e é o cheiro dos limões.

     

    Vê, neste silêncio no qual as coisas

    se entregam e parecem prestes

    a trair o seu último segredo,

    às vezes esperamos

    descobrir um defeito da Natureza,

    o ponto morto do mundo, o elo que não prende,

    o fio a desenredar que enfim nos leve

    ao centro de uma verdade. 

    O olhar perscruta em volta, 

    a mente indaga concerta desune 

    em meio ao perfume que se espalha 

    enquanto o dia enlanguesce. 

    São os silêncios em que se vê 

    em cada sombra humana que se afasta 

    alguma Divindade surpreendida.

     

    Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve 

    à cidade ruidosa onde o azul mostra-se 

    apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas. 

    Castiga a chuva a terra, então; se espessa 

    o tédio do inverno sobre as casas, 

    a luz torna-se avara — a alma, amarga. 

    Quando um dia de um portão malfechado 

    entre as árvores de um pátio

    nos surge o amarelo dos limões; 

    e no coração o gelo se dissolve, 

    e no peito estalam 

    suas canções

    as trombetas de ouro da solaridade.

     

    Trad. de Geraldo H. Cavalcanti

     

     

    • Because , lacking just a

      Because , lacking just a little , and that is to come will come and will not delay . My righteous live by faith ; but if he comes back, I do not find it any more satisfaction. But we ‘re not like those who turn back to get lost, but we are men of faith , to save our lives .

      Debido a que , a falta de sólo un poco, y que ha de venir vendrá, y no tardará. Mi justo vivirá por la fe ; pero si regresa , no me parece que es más satisfacción. Pero nosotros no somos como los que se vuelven de nuevo a perderse, pero somos hombres de fe , para salvar nuestras vidas.

      (Hb 10,37-39)

      • Meire, postei pela beleza em si, não como proselitismo religioso

        arte independe de religiões, fé, ateismo, sexo, etc. Claro que podem ter ligações, e inspirações por um artista (Bach fez lindíssimas músicas sacras, que adoro) e  acho que todos temos algum tipo de apreciação da beleza, e de algum tipo de fé, esperança, caridade. Fé na humanidade, por exemplo. Por sinal, sou ateu, mas não faço divulgação, pregação de minha convicção, e sabemos que o que importam são os atos, por vezes uma atéia ou ateu é mais coerente e mais humano do que um religioso, infelizmente o ser humano temos limitações e preconceitos que levam a incompreensões reciprocas, ou não. Respeito teu post. Grato.

  2. Nobody knows the trouble I’ve seen (sessão reprise)

    de “Louis and the Good Book” (como tb. se chama a Bíblia – Good Book): disco só de músicas religiosas, “Spirituals” – apesar de num youtube haver nesta imagem dizendo Gospel que é diferente, catequisadora e empobrecida. Inspirados no povo negro, escravo americanos, e do racismo persistente em parte da população. 

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=MTQJhnA46UA align:center]

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