Neymar e a arte do imprevisível

Thiago Arantes, de Barcelona, para o ESPN.com.br

 
Neymar comemora após gol antológico: um artista do imprevisível
Neymar comemora após gol antológico: um artista do imprevisível

Barcelona, tribuna de imprensa do Camp Nou, 17 de outubro de 2015.

Era ali que eu estava quando, aos 41 minutos do primeiro tempo do duelo contra o Rayo Vallecano, Daniel Alves virou o jogo da direita para a esquerda, buscando Neymar. Os três segundos em que a bola viajou pelos céus de um dos estádios mais míticos do mundo me deram tempo de pensar.

“Ele vai aprontar alguma coisa”, foi o que passou pela minha cabeça. Não havia tempo pra elaborar muito mais. Poderia ter sido um passe de costas, como Ronaldinho, uma matada no peito – também como Ronaldinho! – ou com o lado externo do pé (adivinhem como quem…).

Neymar fez mais: de letra, matou a bola e, sem que o público conseguisse compreender exatamente o que acontecia, partiu em direção ao gol.

Nos dias seguintes, estufei o peito para, nas conversas com companheiros da imprensa local, falar que “quando a bola estava voando, eu sabia que ele faria alguma coisa”.

Olhavam-me com espanto, como se eu tivesse decifrado o indecifrável arsenal de estripulias de Neymar. O Barcelona venceu aquele jogo por 5 a 2, com quatro gols do brasileiro; nenhum tão espetacular quanto aquele domínio de bola.

Três semanas depois, voltemos ao mesmo cenário.

Barcelona, tribuna de imprensa do Camp Nou, 8 de novembro de 2015.

O Barcelona vencia um duelo complicado contra o Villarreal por 2 a 0, quando o Camp Nou passou a gritar por Lionel Messi, seu ídolo maior, que ainda não sabe se volta contra o Real Madrid, daqui duas semanas.

Enquanto o estádio fazia coro por quem não estava em campo, Suárez recebeu pela esquerda, avançou colado à lateral, enquanto Neymar corria pelo meio.

O passe do uruguaio saiu um pouco mais lento que a corrida do brasileiro, mas Neymar conseguiu reequilibrar a distância entre tempo e espaço com o primeiro toque. No segundo, jogou a bola pra cima, enquanto o corpo girava sobre o próprio eixo, diante de um rival estático.

“Que diabos ele está fazendo?”, foi a única coisa que consegui pensar.

E, com a conclusão que morreu no fundo da rede, veio também uma outra conclusão.

Depois de quase 100 jogos do Barcelona que assisto com o camisa 11 em campo, senti-me no direito de admitir minha derrota: ter imaginado o lance contra o Rayo foi pura sorte, e não vou mais me gabar por isso. Mais fácil é apenas enxergar o óbvio: é impossível prever as imprevisibilidades de Neymar.

 

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