No dia das mulheres, as mulheres do meu coração, por Luis Nassif

Eles não passarão! Serão contidos com golpes de doçura, com as clavas do diálogo, com as bigas da solidariedade, tendo como hinos as cantigas passadas para nossa mãe e que chegam aos nossos netos

Tereza, Deca, tia Mariana, vó Matha, Sentada, vó Mariquinha, Luis Nassif e Mirthes

Dona Tereza, minha mãe, era espírito inquieto. Quando casou com seu Oscar, deixou claro que não queria frequentar as aulas de tênis do Country Club, local em que a pequeníssima elite poços-caldense pretendia emular os símbolos de status do Rio de Janeiro. Fez ver ao meu pai – em cartas que recuperei após sua morte – que sua intenção não era ser esposa para eventos sociais ou receber convidados em casa, mas acompanhar o marido no trabalho. Dito assim, pode parecer fausto e riqueza. Que nada! Poços é que era cidade pequena, mas pretendendo emular os símbolos de status da capital, pelo efeito-demonstração das temporadas turísticas e dos cassinos.

Cinco filhos, uma saúde frágil e uma sociedade machista impediram que a vocação de dona Teresa se completasse. Mas incutiu em cada filha a importância de ser independente, de empenhar-se nos estudos e nas leituras, de ser uma companheira dos futuros maridos, mas de igual para igual, sempre solidárias, nunca submissas, nunca se nunca baixar a cabeça para os mais fortes. E abrir-se para o mundo, na leitura, na solidariedade com os mais fracos, no combate às injustiças do dia a dia. Não eram posturas ideológicas, mas princípios éticos.

Criou quatro filhas excepcionais, Regina, Fátima, Inês e Lourdes, cada qual levando para seus filhos os valores que vinham de nossos avós.

Dona Tereza era uma influência tão forte, que marcou toda a família, as primas do lado Mesquita, as irmãs e sobrinhas do lado Sarraf e as gerações que vieram depois. Mas a base de tudo era vó Mariquinha, mãe da minha avó Martha que, viúva muito jovem, soube criar mulheres fortes. E, dentre elas, a mais enganadoramente frágil era a vó Martha.

Pequena, permanentemente se queixando da saúde frágil,  em parte pela asma, em parte por estilo, parecia ser o elo fraco na relação com meu avô Issa, um apaixonado por ela, mas o patriarca da família, um espírito udenista indomável. Morei um tempo com os dois e pude aprender a inigualável sabedoria das mulheres supostamente submissas, de comandar o marido sem que ele se desse conta.

Depois da morte do vô Issa, em uma das visitas que fiz a ela, vó Martha me contou da terrível campanha do meu avô contra o doutor Martinho Mourão, que foi prefeito de Poços.

Martinho não era apenas o melhor amigo do meu pai, mas literalmente um santo. Era pediatra e em seu consultório revezava nas consultas: uma para quem podia pagar, outra para quem não podia.

A campanha do vô Issa foi tão pesada que as amigas de Igreja da vó Martha resolveram fazer uma vaquinha para publicar uma nota nos jornais da cidade, protestando contra meu avô.

– Nossa, vó! Como a senhora fez nessa situação?, indaguei dela

– Ah, meu neto, eu tinha um dinheirinho guardado e ajudei.

Vó Martha criou nove filhas fortes (e um filho), bem fora do padrão de submissão dos anos 40 e 50.

Vejo um pouco da dona Tereza em cada uma das minhas meninas.

A mais velha, a Mariana, com dez anos foi a Brasília visitar um amigo e incorporada a um grupo de meninos do Iate Clube, que o recém-eleito Fernando Collor convidou para subir a rampa. Ao descerem do ônibus, Collor imediatamente chamou-a. Era a mais bonita, disseram as tias corujas. Fui a primeira a sair, esclareceu a Maricota, que também era a mais bonita.

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Quem é você?, indagou o Super Homem. Mariana, respondeu era a Mariana, sem sobrenome. De que família?, insistiu Collor, sem imaginar que era filha do jornalista que ele mais detestava. E Maricota: Sou de São Paulo. Collor, o poderoso, abriu um sorriso largo: então veio a Brasília só para me visitar? E Mariana, com ar de “quem é esse convencido?”: claro que não, vim para visitar meu amigo Pedro. Durante toda a visita Collor não a largou um minuto, “ele e aquele perua da mulher dele”. Respeito, menina, não fale assim da primeira dama!

A segunda, Luizinha, era a alma do time de futebol de salão e basquete feminino do Colégio Pacaembu. Dias desses, achou nos seus guardados o planejamento do time. Tinha as instruções sobre como conduzir a bola, as recomendações para sempre ouvir as orientações dos técnicos, o hino, criado por ela para estimular a torcida, a maneira de se comportar quando estivesse em desvantagem. No jogo, ia imediatamente consolar a goleira, a cada frango levado. Para encantamento da Zizi Possi, cuja filha Luiza também jogava.

Tempos depois, mudou para o Colégio Galileu. Dia de jogo, enquanto a levava ela me falava de seu alivio. Como havia boas jogadoras no colégio, ela era apenas uma a mais, sem o peso da responsabilidade nas costas.

Naquela temporada, o colégio recebeu uma professora de Matemática visivelmente desequilibrada. Ofendia alunos, gritava, humilhava. Jamais a Luizinha, que sempre foi quieta e concentrada. Até que um dia, Luizinha levantou da cadeira, pediu a palavra à professora e, com firmeza, fez-lhe ver que estava abusando, desrespeitando os alunos com sua truculência. Imediatamente foi expulsa da sala e nós, os pais, convocados pela orientadora.

Na sala, a orientadora explicou que a Luizinha estava coberta de razão. Mas não podia conviver na sala brigada com a professora. E indagou se ela topava fazer as pazes. Luizinha imediatamente concordou, a professora não. Um mês depois, a professora deixou a escola, derrubada por uma crise nervosa que explicava suas atitudes.

A terceira, Beatriz, chegou na idade em que eu podia ser avô. Foi estudar em uma escola bilíngue com a irmã Dora. Chegou sem dominar o inglês, como as colegas, e passou os primeiros meses extremamente tensa. Uma das professoras, a da metade das aulas em inglês, perdera completamente o controle da classe e as colegas subiam nas carteiras, aprontavam o escambau na classe.

No final do semestre, fomos assistir à avaliação das alunas. Quando chegou a vez da Bibi, a professora de português a chamou de “bombom”. Ficamos encantados, especialmente porque as qualidades da BIbi só eram percebidas quando ela abria a guarda de sua timidez nassifiana. Depois da avaliação pública, perguntamos a razão do elogio. E a professora contou que Bibi passou os primeiros meses se aclimatando ao novo ambiente. Quando já estava mais familiarizada, chamou uma a uma as colegas mais rebeldes e conversou calmamente, cartesianamente, perguntando se achavam bonito o que estavam fazendo. E ajudou a civilizar a classe.

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Tempos depois, fui a uma avaliação da Dodó (que estava um ano atrás) e a professora, depois da avaliação, me disse que iria falar comigo na condição mãe. A filha era colega da Bibi. Como professora, conseguiu que a filha ganhasse uma bolsa da escola. Entrando, foi rejeitada pela classe, liderada pelas chamadas “populares”.

Lembrava-me da história, com a Bibi contando o episódio em casa e a mãe, indignada, dizendo que ela precisava fazer alguma coisa pela colega. E a Bibi fez. Durante um mês mudou o comportamento – contava-me a mãe da coleguinha. Passou a usar o linguajar das “populares”, os trejeitos até assumir a liderança da sala.Aí reuniu as alunas e perguntou se a fulana (a filha da professora) era chata. Todas disseram que sim. E a Bibi liquidou com a discussão. Vocês não acham que vinte pessoas sendo chatas com ela é pior ainda? Dissolveu–se a implicância e a Bibi voltou ao seu padrão natural.

Clarinha, a Cacá, a neta, nasceu um ano depois da Bibi, seis meses antes da Dodó. Tornou-se um furacãozinho, apaixonada pela vida, pelas ideias, pela política. Participou das passeatas contra o impeachment, foi cercada por rascunhos de bolsominions e defendida pelos colegas. E me mandou uma mensagem por WhatsApp, em pleno tiroteio, dizendo do conforto que era ter amigos solidários.

É de uma generosidade ímpar. Um dia, as três menores no carro, ela, com 8, 9 anos, vê meninos de rua, pequenos, vendendo balas no semáforo. Virou-se para mim e disse: Vô, nós temos uma família unida, né? Sim. Mas a família desses meninos deve ser mais unida ainda, porque eles, desde pequenos, ajudam os pais.

No auge dos discursos de ódio, juntou trinta colegas do Colégio Pentágono em meu apartamento para uma discussão franca e aberta sobre o feminismo. E com discursos empolgantes ajudou a convencer os meninos sobre as formas disfarçadas de desrespeito às meninas. Hoje em dia, não há roda ou sarau em que as pessoas não saiam maravilhadas com a exuberância e o entusiasmo da Cacá.

Dodó, a Dora, rainha do frevo e do maracatu, sempre foi o docinho da família. Até o dia em que resolveu organizar uma greve dos shortinhos no Colégio Rio Branco.

Estava eu posto em sossego, com as duas caçulas dormindo no meu apartamento, devido à viagem da mãe, quando leio no Facebook da Dodó o manifesto do shortinho escrito com argumentos cristalinos. A diretora não queria que as meninas usassem shortinhos, porque os meninos ficavam assanhados. Ora, seu papel deveria ser conter os meninos e não impedir as meninas, em um verão quente, de usarem shorts.

Fui até o site de manifestos e havia 800 assinaturas.

Chamei a Dodó para saber daquilo. Me explicou, pediu a aprovação do pai, respondi-lhe que o manifesto estava bem escrito, firme e respeitoso. Ela havia montado um grupo restrito no Facebook para organizar o evento. Pouco depois, me procurou:

– Papai, esse tal Monica Bergamo é confiável?

– Bérgamo, corrigi. É sim, porque?

– Ela está nos procurando para dar entrevistas.

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200 meninas foram de shorts na escola. O SBT entrevistou-a para o jornal da noite – obviamente escondendo o rosto e a voz. No dia seguinte, estava sozinho em casa quando o porteiro diz que havia um fotógrafo do G1 procurando a Dora. Desci, disse-lhe que a Dora estava na casa da mãe. Telefonei para ela, que, com a segurança das pessoas maduras, pediu para fotografar outra colega, porque já tinha aparecido demais.

Foi chamada pela diretora para negociar. Perguntei o resultado. E ela: a diretora só falou groselha. Aprendi outro termo da moçada.

Nos meses seguintes, Dodó tornou-se a pequena musa de um grupo de feministas. Descobriram que era uma boa polemista e passavam para ela textos contrários, para serem desconstruídos. Entrei no seu perfil, e havia até advogadas estudando em Barcelona e outras partes. Até que, um dia, Dodó saiu do grupo e restringiu suas amizades.

Perguntei a razão. Reagiu quando o grupo investiu contra uma colega, massacrando-a, na típica atitude de movimento de turma. E não ficava à vontade com o clima de luta de box. Era um tal de lacrou aqui e lacrou ali sem sentido. Papai, me disse ela, as discussões têm que ser um processo de aprendizado, um lado aprendendo com o outro, não uma lacração. E abriu mão das dezenas de likes que, em ambientes muito mais austeros, tornaram deslumbradas até senhoras veneráveis, como a Ministra Carmen Lúcia.

Mas nenhum capítulo foi mais confortador do que a mocinha negra, que servia café no condomínio em que nos hospedamos, perguntando se eu era o pai e avô das meninas. E desabafou: são as únicas, por aqui, que me tratam como gente.

Enfim, essas são algumas das mulheres da minha vida. Por essas características de caráter, não foi surpresa o acolhimento que deram e a admiração com que acolheram minha companheira Eugenia, feita da mesma têmpera e dos mesmos valores, e seus dois novos meio-irmãos, Vinicius e Gabriela.

Vejo nessa família ampliada, nos Nassif, Mesquita, Sarraf, Pasquini, Aguirre, Sanchez e, agora, Gonzaga, a verdadeira família brasileira, a resistência contra a truculência dos machos ensandecidos. Nesses tempos de ódio, rancor, preconceito, nenhuma pessoa da família, mulheres e homens, embarcou no clima de ódio criado.

Todos se escandalizaram com o ódio que se espalhou, reagiram contra o fator Bolsonaro, nos demos as mãos e trouxemos de volta as lembranças familiares, de uma autêntica família brasileira, como reconforto nesses tempos de cólera.

Em cada disputa contra o terror, vejo na linha de frente o rosto sorridente de minha mãe, a doçura e a falsa fragilidade de minha avó, o carinho intenso das tias, a solidariedade das irmãs, os exemplos das menininhas do meu coração e, agora, o rosto sorridente de Catarina, que acaba de nascer.

Eles não passarão! Serão contidos com golpes de doçura, com as clavas do diálogo, com as bigas da solidariedade, tendo como hinos as cantigas passadas para nossa mãe e que chegam aos nossos netos. E com o imenso amor pelo Brasil real, não esse simulacro, essa cloaca irrespirável que emergiu com os Bolsonaro, mas o Brasil da dona Tereza, da dona Martha, e das Mairas,Mahins, Marielles, Malês de todos os tempos.

9 comentários

  1. Nassif, que maravilha essa história…. parece um pouco com a história de cada um de nós… parece eu lendo minha história…. apesar que sou de São Roque -SP…. quanta história, quanta luta, com uma riqueza de informações, sempre enriquecido de relacionamentos, de pessoas maravilhosas que passaram e passam pela nossa vida. A vida é linda. Tudo passa. Isso que está aí no cenário nacional, já passa daqui a pouco. O bem sempre vence. Como dizia meu pai nos seus 100 anos , o melhor está sempre nos esperando. Vamos a luta. Parabéns pela familia, pela esperança, pela honestidade, pela simplicidade , pelo seu jornalismo que não perco um dia sequer. Estamos juntos.

  2. Nassif, que maravilha essa história…. parece um pouco com a história de cada um de nós… parece eu lendo minha história…. apesar que sou de São Roque -SP…. quanta história, quanta luta, com uma riqueza de informações, sempre enriquecido de relacionamentos, de pessoas maravilhosas que passaram e passam pela nossa vida. A vida é linda. Tudo passa. Isso que está aí no cenário nacional, já passa daqui a pouco. O bem sempre vence. Como dizia meu pai nos seus 100 anos , o melhor está sempre nos esperando. Vamos a luta. Parabéns pela familia, pela esperança, pela honestidade, pela simplicidade , pelo seu jornalismo que não perco um dia sequer. Estamos juntos.

  3. Brilhante família. Me conforta saber que ainda existe gente assim. O ser humano não está de todo perdido, apesar dos Bolsonaros e afins. Fico feliz em saber e conhecer um pouco se sua história e te agradeço por isso.

  4. Que bom Nassif que D.Tereza existiu e forjou para nós o excepcional jornalísta. Nós brasileiros agradecemos esse grande feito.

  5. Prezado Luis Nassif, boa noite. Quero reiterar os cumprimentos meus e das mulheres de minha vida, esposa e filha, dados por nós ao final da apresentação de Toninho Horta e demais músicos no Sesc Pinheiros dias atrás. Obrigado por compartilhar essa experiência maravilhosa em família, que nos anima para seguir adiante e enfrentar tantos desafios que virão. Eles não passarão!

  6. Nassif, belo e emocionante texto, também me ví ali. Belas e generosos seres humanos são as mulheres. Elas não passarão. Elas passarinho.

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