Emeric Kann e os húngaros no Brasil

Um dos personagens mais enigmáticos, na biografia sobre Walther Moreira Salles – prestes a ser lançada – é o financista húngaro Emeric Kann. Foi ele quem ensinou ao jovem Walther os segredos dos mercados de câmbio internacionais, montados no pós-Breton Woods, controlados, em sua maioria, por judeus-católicos de origem húngara. E que o aproximou do banqueiro francês Andrés Rueff, personagem relevante nas relações europeias de Walther.

Aqui, parte da história de Kann, que não coube na edição original da biografia.

Os imigrantes húngaros

Emeric Kann fez parte de uma brilhante geração de imigrantes judeus húngaros que chegou ao Brasil nos anos 40. Em geral, eram pessoas de forte formação técnica e que dominavam no mínimo três idiomas. E tinham como característica quase geral não terem abraçado a fé judaica. Ou eram agnósticos – como Kann – ou converteram-se ao catolicismo. Quando os exércitos de Hitler invadiram a Hungria, a religião não fazia diferença: todos foram perseguidos.

Emeric Kann chegou ao Brasil entre 1940 e 1941. Junto, veio seu irmão Francis Kann e sua esposa Claude Kann. Entre outros imigrantes de origem húngara, vieram também a família Racz que chegou em 1944, assim como os Janos Justus e outros húngaros brilhantes.

Os Racz tinham dois filhos, Joszef e Elizabeth. Os pais se conheceram no vagão que os conduzia a Auschewitz. A mãe conseguiu um passaporte português e, com ele, conseguiu tirar o pai de dentro do vagão.

Emeric ficou no Rio; os Racz, em S Paulo.

Em vez da comunidade judaica, Emeric preferiu montar sua rede de relações sociais com a sociedade carioca.  Tornou-se amigo dos Soares Sampaio, apelidado no grupo de “boi leão”, depois de ter alardeado que em sua fazenda tinha boi e leão. Na época, muitos julgavam que o pai tivesse sido presidente do Banco Central Austro-Húngaro. Não foi. Mas representava a casa Rostchild na Hungria.

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Com a ascensão do nazismo, os filhos imigraram. Emeric morou por algum tempo em Londres, fazendo a ponte entre capitais ingleses e o Brasil.

Francis era uma espécie de playboy, muito sarcástico e inteligente, mas pendurado no irmão.

À medida que foi enriquecendo, Emeric montou um escritório na Avenida Rio Branco e construiu uma casa em São Conrado, na rua do Golf Club. Era generoso. Deu casas a todos os empregados.

O início da Segre & Racz

Já no Brasil Emeric Kann casou-se com Elizabeth, mulher de uma beleza exuberante.  Interpretava o papel de socialite, bonita e burra. Mas só por fora. Era uma mulher sagaz, inteligentíssima e cumpria adequadamente o papel na anfitriã. Recebia muitíssimo bem e ajudava nas relações sociais de Emeric.

Joszef era engenheiro formado na Universidade de Viena e frequentava os círculos intelectuais. Um dos seus amigos mais próximos era Nicolas Boer, editorialista do Estadão. Elizabeth preferia frequentar os salões do poder.

Emeric arrumou o primeiro trabalho para o cunhado na “Construtora Moderna” ou Segre & Calabi, formada por Daniele Calabi e seu primo Silvio Segre, ambos italianos. A empresa havia se especializado na construção de edifícios que precisavam de grandes vãos, unindo experimentação tecnológica e procedimentos já superados, possibilitados pelo baixo custo da mão-de-obra (https://goo.gl/c1sJy9). Construiu vários edifícios projetados pelo arquiteto italiano Giancarlo Palanti.

Depois de um ano de trabalho, o dono entregou metade da empresa para ele. Segre estava casado e a esposa era rica. Resolveram voltar para a Itália, onde ficou multimilionário, graças ao aprendizado que teve, por aqui, sobre o fenômeno da inflação.

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Assim que assumiu a sociedade na empresa, Emeric conseguiu para o cunhado o contrato de construção da fábrica dos colchões Cititex e do Lanifício do Vale do Paraíba.

O salto com a Volkswagen

Junto com Jozsef veio o pai de Roberto Justus, Ianus Justus. Apresentava-se como engenheiro embora fosse encanador. Mas era uma pessoa brilhante. Graças à amizade que fez com o governador paulista Lucas Nogueira Garcez conquistou parte das obras de Brasília.

Peter Racz não quis Brasília. Preferiu ficar por São Paulo.

Seu grande salto foi em 1956, quando conseguiu o contrato para a construção da fábrica da Volkswagen. Foi uma empreitada de vários anos em que a Racz foi a única construtora graças a uma licitação com cartas marcadas[i].

Heinz Nordhoff e Schultz Wenk

O primeiro presidente da Volkswagen Brasileira, Schultz Wenk, estava entre o Brasil e a Argentina para destino da fábrica latino-americano. Acabou escolhendo o Brasil.

Conseguiu o cargo por ter sido colega de cela do “Mister Volks”, Heinz Nordhoff, presidente mundial da organização Volkswagen.

Em 1956, a Volkswagen iniciou a construção de sua fábrica, localizada no Km 23,5 da Via Anchieta, em São Bernardo do Campo – SP. Shultz-Wenk seguiu a exigência da matriz alemã: fabricou a Kombi antes do Fusca.

Schultz era um play-boy que gostava de frequentar boates

No Brasil, Joszef conheceu Tatiana, uma senhora russa amante de Schultz desde a Europa. Logo, Tatiana percebeu que Racz era uma pessoa confiável e fez a proposta: garantiria o contrato para a fabricação da Volks, repassando metade do lucro para ela. Da metade dela, provavelmente a outra metade seria de Schultz.

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A partir da Volks, Racz conseguiu muitas obras grandes, como da sede da Kodak.

Desse grupo de empresários húngaros saíram vários empreendimentos, como Pneus General e Cimento Tupy.

Quando Emeric morreu, o sobrinho Peter Racz tinha 18 anos. O tio Emeric queria introduzi-lo no seu círculo de relações sociais. Levou-o até a Suíça, para conhecer o banqueiro amigo Andrés Rueff em Avian. Pegaram um barco em Lausanne. Emeric estava muito feliz:

– Você não sabe onde vou te colocar!

Emeric morreu em 1964. A tia acabou se casando com Korolovska, polonês, e morreu em 1998.

 

[i] Peter Racz, filho de Jozsef

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