Notas sobre a Nova Teoria Econômica, por Rogério Mattos

O erro comum é o seguinte: associar a tradição de economia política que deu autonomia aos EUA no século XIX ao chamado "protecionismo", se não é um erro crasso, é no mínimo uma imprecisão.

UNSPECIFIED - CIRCA 1806: Portrait of founding father Alexander Hamilton by John Trumbull, ca. 1806. (Photo by National Gallery Of Art/The LIFE Images Collection/Getty Images)

Notas sobre a Nova Teoria Econômica, por Rogério Mattos

Luis Nassif fez uma entrevista interessante com André Roncaglia, da UNIFESP [aqui], onde ele explica em linhas gerais os pressupostos da chamada Nova Teoria Econômica. Mesmo como leigo (não sou economista), gostaria de escrever algumas observações sobre o que foi explicado.

O professor André procura mostrar que essa teoria existe pelo menos desde a década de 1920, e teve como um de seus pontos marcantes a mobilização do governo de Franklin Roosevelt para a criação de empregos após a crise financeira de 1929. Os EUA, pelo menos desde que Truman e Churchill criaram o sistema das “relações especiais” entre americanos e britânicos bem no início da Guerra Fria, paulatinamente foi recolonizado pelo imperialismo britânico, comandado através da City de Londres depois da perda de seus territórios colonias.

Ora, a tradição de soberania monetária é pré-keynesiana, para dizer o mínimo. Como leigo (repito), lembro um livro de Jorge Caldeira, A nação mercantilista, onde ele mostra com dados como o Brasil, mesmo com muito mais dinheiro (ouro) do que os EUA, não conseguiram iniciar um amplo processo de industrialização.

O erro comum é o seguinte: associar a tradição de economia política que deu autonomia aos EUA no século XIX ao chamado “protecionismo”, se não é um erro crasso, é no mínimo uma imprecisão. Por princípio, o protecionismo não era só a construção de barreiras fiscais para impedir a importação de manufaturados estrangeiros, mas também um dispositivo que restringia ao máximo a exportação de bens norte-americanos. O objetivo era escapar do que era considerado dinheiro, isto é, o ouro (fundamentalmente britânico).

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No entanto, o foco não deve ser em enxergar a história econômica do século XIX nos EUA como baseada no protecionismo. O que Alexander Hamilton e depois dele Nicolas Biddle, no Segundo Banco Nacional, criaram, foi um sistema de crédito. Eram emitidas cartas de crédito para financiar a indústria, obras de infraestrutura e, como se sabe, os devedores poderiam, em alguns casos, pagar ao Estado com os bens que produziam.

O objetivo do sistema de crédito era impedir ou restringir os pagamentos em ouro e fortalecer a moeda nacional, ancorada no crédito e voltada para a economia física. Não há risco inflacionário se o montante de recursos gerados for integralmente canalizado para a produção física, não especulativa, da economia. O desenvolvimento exponencial da produtividade mitiga o risco inflacionário.

O endividamento do governo, assim, era visto com bons olhos, porque tinha em vista o futuro do país, o desenvolvimento a contento dos projetos nacionais, e não na base monetarista, imediatista, de finalizar as dívidas e trabalhar com um orçamento diminuído.

O sistema monetarista era chamado pelos republicanos, na época, de “máquina simples”: você tinha somente que produzir a riqueza necessária para quitar as dívidas o quanto antes. No “projeto nacional”, se assim se pudesse chamar essa “máquina”, usava os excedentes, se houvessem, para investir na economia física e não na especulativa, na economia dos povos e não na dos banqueiros.

O que Roosevelt fez e é pouco citado por aqui no Brasil, foi a criação da lei de separação bancária Glass-Steagall. Com ela, os bancos voltados para a especulação financeira ficaram separados dos bancos de depósito. Essa lei foi sendo desmontada desde a década de 1970 e finalmente abolida durante a presidência de Bill Clinton. Com ela em vigor, dificilmente uma avalanche financeira como a de 2008 ocorreria.

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Não adianta, contudo, criar um sistema de crédito sem ferir de morte o monetarismo. Ao lado da Glass-Steagall, Roosevelt criou a Comissão Pecora, que investigou e puniu os crimes financeiros. No caso do Brasil, ao lado de um movimento amplo de emissão de crédito se deve cancelar todos os débitos criados pelo sistema da dívida. Um sistema é incompatível com o outro. Não se pode implantar de maneira bem sucedida uma “nova teoria econômica” sem debelar concomitantemente com o o velho sistema da dívida.

Para um debate um pouco mais aprofundado, leia:

A função típica de colapso e a entropia do sistema financeiro internacional

As quatros leis econômicas de Lyndon LaRouche

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

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