Nova biografia reinterpreta visões de mundo de Hitler

Em "Hitler: A Global Biography", historiador afirma que relação de amor e ódio com britânicos e americanos e medo do capitalismo internacional serviram de força motriz para o ditador nazista.

Da DW Brasil

Adolf Hitler é tema de inúmeros livros. Especialmente nos últimos anos, muitas biografias do ditador nazista foram publicadas por historiadores renomados. A tentativa mais recente é Hitler: A Global Biography (Hitler: uma biografia global), do irlandês Brendan Simms, professor de História das Relações Internacionais na Universidade de Cambridge. Com mais de mil páginas, seu livro foi lançado em inglês no fim do ano passado. A versão alemã chega às livrarias da Alemanha nesta segunda-feira (09/03).

Na Alemanha, o lançamento de uma nova biografia de Hitler costuma ser um acontecimento. Uma semana antes da publicação, a revista semanal Der Spiegel fez uma entrevista com Simms, na qual ele reforçou sua tese principal: a de que a força motriz de Hitler, tanto na política interna quanto na externa, surgiu de uma relação de amor e ódio que ele tinha com o mundo anglo-americano. Segundo Simms, não foi o medo do bolchevismo e da União Soviética que impulsionou a guerra e a destruição, mas sim a queda de braço com o Reino Unido e os Estados Unidos e o medo do capitalismo internacional.

O historiador diz que o que mais marcou Hitler nesse contexto foram suas experiências entre 1914 e 1918: “Admiração e respeito surgiram de suas vivências na Primeira Guerra Mundial. Hitler sempre voltava a falar da resistência dos britânicos porque os tinha visto no front”, relata.

Até mesmo o antissemitismo, segundo Simms, não teria surgido primeiramente de um ódio profundo aos judeus, mas sim de forma secundária, a partir da concorrência com o “capitalismo mundial” sediado nos EUA. Lá seriam judeus os que dominavam as alavancas do poder. É preciso, então, reavaliar o olhar sobre Hitler e suas motivações?

Nos últimos anos, várias biografias do ditador nazista apresentaram perspectivas diferentes sobre ele. A principal obra de referência continua sendo a de autoria do britânico Ian Kershaw, lançada entre 1998 e 2000. Nos dois volumes, o historiador se concentrou principalmente na relação entre Hitler e o povo alemão.

Segundo a tese de Kershaw, Hitler pôde agir porque os alemães “foram ao seu encontro”, ou seja: prepararam o terreno para a ideologia nazista por si mesmos.

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Historiadores debatem sobre Hitler até hoje

Durante um longo período, dois grupos de historiadores disputaram como se deveria interpretar Hitler e sua política. Os chamados “internacionalistas” viam em Hitler uma figura de liderança forte e decisiva, cuja lógica e ideologia marcaram fundamentalmente os acontecimentos entre 1933 e 1945.

Do outro lado, estão os chamados “estruturalistas”, que se concentraram mais na ação coletiva e antagônica de grupos concorrentes dentro do sistema nazista e menos no peso político de Hitler.

Também houve outras interpretações controversas sobre como o nazismo pôde funcionar sob Hitler e companhia em primeiro lugar: alguns cientistas questionaram se Hitler agia de forma racional. Há igualmente várias publicações sobre o estado mental do ditador nazista.

O novo livro de Simms dividiu opiniões. O diário The Guardian apontou como exagero o encaminhamento para a tese principal de que Hitler agiu somente motivado por sua fixação no Reino Unido e nos EUA.

Na plataforma History News Network, um historiador criticou o fato de o irlandês partir do pressuposto de que Hitler era “mentalmente estável” e ter retratado o ditador nazista como uma pessoa “racional”: “Simms o aceita como pessoa impulsionada por uma ideologia que tem uma superestrutura intelectual, e não como um sociopata inseguro e narcisista.”

A publicação conservadora National Review foi mais condescendente e julgou que Simms vai longe demais descrevendo a perspectiva americana de Hitler, mas que, mesmo com defeitos, a obra é digna de leitura. Por outro lado, a National Review avalia que a biografia é mais uma contribuição para um debate do que uma interpretação conclusiva da figura de  Hitler. Ou seja: não é, como admite o próprio Simms, “o Hitler completo”.

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De fato, o próprio Simms escreve no prólogo que “o livro a seguir (…), em muitos aspectos, não pode concorrer com seus antecessores”. Segundo ele, “obviamente, não é a primeira obra significativa sobre o assunto, nem será a última”. Uma avaliação modesta.

Pouco depois, porém, o autor afirma, autoconfiante: “Se suas [da biografia] afirmações se revelarem sustentáveis, a biografia de Hitler e talvez a história completa do Terceiro Reich precisarão ser basicamente repensadas.”

Capa da versão em inglês de Hitler: uma biografia global, de Brendan SimmsVersão em inglês de “Hitler: uma biografia global”, de Brendan Simms

Além da fixação de Hitler pela política, a sociedade e a cultura anglo-saxã – Simms volta a Hitler e suas reflexões sobre britânicos e americanos quase como numa oração recorrente –, outros focos na interpretação histórica do irlandês chamam atenção. Entre eles o de que a França e a União Soviética desempenharam papel apenas secundário para Hitler – até porque o alemão não via esses países como concorrentes e, no caso da União Soviética, passou muito tempo sem vê-los como ameaça.

Olhar crítico de Hitler sobre o povo alemão

Simms aponta ainda que Hitler teria pensado de forma bastante negativa sobre o próprio povo, também após 1933: “Ele continuou não tendo uma opinião muito boa sobre a população alemã e sua composição. Tinha uma consciência dolorida da pobreza e da ignorância do povo”, escreve o historiador.

Dois anos após o início da guerra, Hitler já teria dado como perdida a concorrência com o mundo anglo-americano, do ponto de vista do padrão de vida dos países. “Em maio de 1937, basicamente, Hitler admitiu a derrota”, escreve Simms.

O autor também interpreta que Hitler era antissemita especialmente por causa de sua profunda aversão contra a potência mundial capitalista dos EUA: “De fato, em grande parte, ele se tornou antissemita por causa de seu ódio aos poderes capitalistas anglo-americanos.”

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De acordo com Simms, a relação de Hitler com o mundo anglo-americano era cheia de contradições. Anos antes da guerra, o alemão já teria demonstrado inveja: “Um dos principais objetos de seu interesse eram os Estados Unidos, que ele, talvez até mais que o Império britânico, começou a enxergar como Estado-modelo”, escreve Simms.

Para o autor, essa visão teria relação principalmente com o olhar de Hitler sobre supostas vantagens geográficas dos americanos – e também porque os Estados Unidos seriam uma nação cuja existência devia a imigrantes alemães.

Por muito tempo, Hitler teria “apenas” tido a ambição de estabelecer uma potência alemã na Europa – sem maiores aspirações. Para Simms, o ditador queria fazer um contrapeso à potência mundial dos EUA: “O objetivo de Hitler não era a supremacia mundial, mas sim a sobrevivência nacional.”

“Até o final, a estratégia completa de Hitler consistia em utilizar a ameaça do bolchevismo para influenciar politicamente a Alemanha, a Europa e, especialmente, o mundo anglo-americano”, conclui Simms. A tese é ousada e deverá ocupar historiadores pelo mundo a partir de agora – e não só na Alemanha.

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