O cataclismo dos insetos, por Gustavo Gollo

Quando virem um belo besouro, ou borboleta, contemplem-no com atenção, existe uma grande chance de nunca mais encontrar outro igual

Meses atrás, comecei a sentir falta de algo. A descrição
da sensação parece absurda, não a sensação: eu estava sentindo
falta de insetos!

Descrita assim, a sensação parece revelar algum tipo de loucura,
ou de característica repulsiva e asquerosa: como pode alguém sentir
falta de insetos? A sensação ganhou consistência durante uma
viagem de carro por Goiás, espantosa devido à desolação da
paisagem manifestada na sinistra ausência de árvores. Quase não
existem mais árvores em Goiás, em um contraste gritante com a
paisagem de poucas décadas atrás, coberta pelo cerrado. A
destruição foi abrupta. Quantos pássaros terão sobrado, por lá?

Também tenho percebido a morte dos mares, de maneira indireta,
através do sumiço dos seres marinhos que costumavam chegar às
areias da praia. Hoje as águas trazem plástico, em lugar das
criaturas marinhas que antes vinham parar ali. Agora, poucas metades
de conchas chegam à praia inteiras, um pedaço identificável de
bolacha-do-mar é bem raro, um núcleo de água-viva encontrado na
areia vira atração, uma tristeza. O mundo está empobrecendo muito
drasticamente.

Desde criança, sou muito ligado a bichos e plantas; sempre me
encantei com as pequenas criaturas do jardim, além dos pássaros,
bichos e plantas dos mais variados tipos. A palavra “encantamento”
descreve minha relação com os seres vivos de forma bem apropriada,
desde sempre. Minhas lembranças infantis das praias estão repletas
de caranguejos, siris, peixes, ostras; a variedade de vida nas areias
era extasiante.

De qualquer forma, embora eu me sinta muito mais ligado a essas
criaturas que as pessoas comuns, nasci e vivi em cidades, tendo
passado poucos dias de minha vida em fazendas, e poucas horas de
minha existência no meio do mato. Como somos, em vasta medida,
talhados por tais experiências, sei que os que foram criados no
interior, em contato direto e frequente com o mato, trazem essa
vivência gravada em suas lembranças e, ainda mais profundamente, em
toda a sua conformação. Os que tiveram contato com o mato durante a
infância costumam ter grande orgulho e saudade desse passado,
recordando-se saudosamente de tais tempos, e de tais lembranças.

Assim, é natural que tais pessoas, as que passaram a infância em
contato direto com o mato, sejam as mais saudosas das plantas e
bichos que já não existem mais, que sejam elas as que mais se
ressentem com as mudanças, com a destruição avassaladora causada
em todas as paisagens rurais. Eles sabem, com mais clareza que
outros, que o mundo está mais feio, empobrecido e sujo. Deveriam ser
eles, pois, os principais defensores do ambiente, seus guardiães,
conclusão que a mim parece óbvia.

Leia também:  Multimídia do dia

E, no entanto, tão paradoxal quanto frequentemente, costumam ser
eles – os que, verdadeiramente têm sofrido com tal empobrecimento
–, defensores ferrenhos da destruição de seu próprio mundo.
Percebam que já não estou tratando da destruição do ambiente, mas
salientando o fato de que seus defensores mais óbvios, seus
guardiães naturais, de algum modo, foram engolidos e cooptados pelo
inimigo.

Podemos encontrar fazendeiros advogando ferrenhamente a destruição
de seu próprio mundo com o mesmo empenho com que torcedores
fanáticos defendem a bandeira de seu time.

Quantas discussões, hoje, aliás, que embora devessem consistir
em disputas racionais, transcorrem entre 2 grupos que apenas marcam
posições antagônicas e se opõem um ao outro, pura, simples, e
absurdamente, como torcidas incondicionais? Tendo vestido a camisa
contrária à dos que defendem o ambiente, quantos fazendeiros passam
a defender a destruição do próprio mundo, sem perceber o absurdo
em que se estão metendo. Obviamente, lamentarão em breve.

Também penso que nessa questão – de defesa do ambiente, do
planeta, do mundo –, nem existam, verdadeiramente, 2 lados, mas
apenas 1. Penso que o que está em jogo é, simplesmente, a
destruição do mundo, seu empobrecimento brutal, seu
emporcalhamento, consistindo, tudo isso, em um problema a ser
resolvido por todos, e não em um campo de batalha onde 2 lados se
digladiam.

Em uma casa, ou, em uma cidade, cabe a todos os que a habitam
gerenciar o lixo, cuidando para a manutenção da limpeza. Caso surja
alguém empenhado em manter e espalhar a sujeira, será visto como um
louco. A manutenção da limpeza é tão obviamente salutar e
desejável, que se alguém propuser a disseminação da sujeira
parecerá insano.

Quando se trata do mundo, no entanto, muitos incorrem em tal
desvario – acredito serem menos do que parecem, mas são poderosos
e têm suas vozes amplificadas. Estranhamente, mesmo entre os que não
abocanharão lucros com tal destruição, há quem defenda a
continuidade das emissões de CO2 e poluentes em geral, o
desmatamento, a morte de rios e mares, a aplicação indiscriminada
dos venenos conhecidos como agrotóxicos e de antibióticos
profiláticos às criações, gerando bactérias super-resistentes.

Leia também:  O engano de acalentar esperanças nos ciclos do capitalismo, por Álvaro Miranda

E ainda mais estranhamente, as principais vítimas do
empobrecimento do mundo, de sua destruição, têm sido levadas a
defender a absurda bandeira do emporcalhamento, da destruição do
mundo, posicionando-se na linha de frente dos insanos. Muitos
agricultores foram e continuam sendo enganados pelos poderosos que
compraram suas terras e devastaram paisagens e bichos. Ingenuamente,
fazem coro com os que destruíram seu mundo, e dizem defender seus
interesses, quando só têm olhos para os lucros. Os que os enganam
dizem “nós os agricultores”, mesmo sem nunca terem pisado numa
fazenda; e muitos agricultores os seguem com o propósito de mostrar
importância e serem ouvidos, e assim vão sendo enganados, enquanto
levados a participar da torcida insana pela destruição de seu
próprio mundo. Pelo país inteiro, aliás, parece que temos andado
desvairados, tendo sido levados a jogar e torcer contra nós mesmos.

Os insetos estão desaparecendo – excetuando, talvez, as
baratas, mosquitos, moscas e pragas urbanas, em geral. Não se sabem,
com exatidão, as causas da redução das populações de insetos no
mundo inteiro, mas eles estão sumindo e se constata que a situação
é catastrófica (O aumento do uso de venenos chamados agrotóxicos é
fortíssimo candidato). Com eles vão-se pássaros, lagartos e todos
os outros, caindo como dominós. A devastação das árvores em Goiás
me impressionou muitíssimo, dizimaram os pássaros. Se você ainda
possui algum restinho de mata, um pedacinho de cerrado, conserve-o
como relíquia valiosíssima, esse bem não tem preço, logo seu
valor será reconhecido. Todos terão saudade e apreciarão
imensamente qualquer pedacinho de mata que houver sobrado.

Leia também:  O fetiche do PIB como indicador de desenvolvimento e o fiasco da notícia, por Álvaro Miranda

A maioria de nós nunca mais verá um mamífero silvestre maior
que um rato, livre na natureza. A sinfonia natural composta pelos
pássaros, insetos e todos os outros, está empobrecida e monótona,
piorará. Quando virem um belo besouro, ou borboleta, contemplem-no
com atenção, existe uma grande chance de nunca mais encontrar outro
igual. Nosso legado será pobreza e feiura.

Veja também:

Por que os insetos são atraídos pela luz, explicação e análises
Por que os insetos são atraídos pela luz? Por Gustavo Gollo

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora