O coração da travesti, por Beatrice Papillon

    O coração da travesti

    por Beatrice Papillon

    “O que deve haver no coração de uma pessoa que ousou ser o que é? Que mistério não revelado se esconde nas artérias de uma travesti?”, pergunta-se o assassino.

    É possível que a muitos dentre as senhoras e os senhores cause espanto o crime ocorrido em Campinas nesta semana. Um homem assassinou uma travesti, arrebentou-lhe a caixa torácica e arrancou o coração. Em seguida pousou uma imagem de uma santa sobre o cadáver e foi-se embora levando consigo o órgão embrulhado em um pano. Guardou-o em casa. Mais tarde, já sob custódia da polícia, declarou sorrindo à imprensa: “Era um demônio”.

    A nós LGBTIs, entretanto, a brutalidade do crime, infelizmente, não surpreende. E esta é uma de nossas grandes tragédias: conhecemos o horror. Devasta-nos as almas cada notícia de assassinato em nossa comunidade, mas diariamente enfrentamos a crueldade com que se aniquila nossos corpos. A quase totalidade dos crimes contra nós envolvem torturas, mutilações, esquartejamentos, carbonização. No caso de travestis e transsexuais a barbárie é ainda mais intensa. Não raro, os restos mortais são encontrados em condições de difícil identificação. Os crimes nos chocam, mas a desumanidade de seus autores não.

    Se considerarmos o fator simbólico no ato de arrancar o coração de uma pessoa e guardá-lo para si, temos possíveis pistas das motivações do crime. E me refiro às motivações reais para o crime, visto que acusar um eventual latrocínio é desviar o foco do ódio que habita o assassino. Eu me pergunto se o homem que vê em alguém um demônio já não terá ele próprio perdido seu coração antes. Se a sociedade que o convence pelo ódio e a intolerância a matar essa pessoa já não o terá arrancado violentamente de seu peito. Talvez explique sua cobiça pelo coração de uma pessoa livre.

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    Nós LGBTIs nos sabemos cercadas de legiões de criaturas vagando pelo mundo com buracos vazios no peito. E digo “cercadas” porque não falo somente da mulher que, ao proibir uma criança de usar rosa ou azul, arranca-lhe o coração de dentro do corpinho ainda miúdo. Falo também de amigos meus que ao dizerem que essa mulher é “só uma cortina de fumaça a atrapalhar os debates sérios da vida nacional”, arrancam também o meu próprio coração.

    Uma das primeiras medidas do presidente eleito, antes mesmo de decretar a liberação do porte de arma, foi retirar a comunidade LGBTI da lista de grupos atendidos por políticas de direitos humanos. A partir daquele momento, para o Estado brasileiro, nós não somos seres humanos dignos de direitos. Conclui-se com isso, que talvez não sejamos sequer humanos diante da República. (Aproveito a deixa para propor à comunidade LGBTI uma resposta ao ato recusando-nos a pagar impostos coletados pelo Estado. Vamos ver com quantos dinheiros esse mundo reconhece uma cidadania!)

    O Estado brasileiro arrancou milhões de corações com essa medida. A apatia da opinião pública diante do fato arrancou outros milhões. Mas não os nossos corações, que estes insistirão em bater! E sim os dos nossos assassinos, que agora estão por aí soltos na selva do mundo à nossa procura, oficialmente autorizados e estimulados para o nosso abate. Seguem a despedaçar nossos corpos pela ausência absoluta de afeto e compaixão que lhes habitem, pelo coração que lhes falte.

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    Aquela travesti, cujo nome social foi ocultado na imprensa sob uma identidade masculina que não lhe definia, ela sim, tinha um coração. Tanto que seu algoz o ambicionou. E embora assassinada muito precocemente, estou certa que aquele coração não bateu em vão sobre essa terra.

    Sempre viva! Mulher de coração!

    Salvador, 22/01/19

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    4 comentários

    1. louvar a via e não essa morte

      louvar a via e não essa morte loucada por essa direita mentirosa e desumana…

    2. o fator simbólico no ato de arrancar o coração

      As palavras faltam.
      Importa porém prevenir, ampliar a consciência da situação.

      ¬

      How US Flooded the World with Psyops

      O Feitiço de Nova Era ou 1960s Deep-State PsyOp Neutralize Anti-War Movement

      – O ‘feitiço de nova era’ conectado ao cristianismo

       

      – Atípico… Pelosi’s Daughter Says Her Mom Will ‘Cut Your Head Off And You Won’t Even Know You’re Bleeding’

      – Atípico… MK Ultra & Adrenochrome (vdo)

      – Atípico…

      ¬

      Tempos atípicos, envoltos em ‘Justinian Deception’, e ‘nova era’ em alta frequência. Será preciso talvez reconhecer que para certas pessoas o Diabo é uma criança.
       

    3. lindas palavras. vejo talvez essa violencia seja uma repressao interna de desejos conflitivos, afinal a lavagem cerebral da tv e midia paternalista, provinciana e retrograda, aliada com a religiosidade hereditaria e preconceito disseminado criam esses seres abominaveis que explodem toda sua carga de culpa, repressao, conflitos e frustracoes em atos surreais de violencia animalesca. abram os coracoes e as mentes, deixe o amor e carinho vingar em cima da ignorante e bestial violencia.

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