O Corvo e o Amerikanischdammerung

A semana curta começou quente. Após ter enviado tanques, aviões e soldados para a fronteira da Ucrânia com a Rússia, despachar bombas nucleares para suas bases na Alemanha e de embarcar soldados para a Síria (para supostamente combater o terrorismo, muito embora não seja segredo que a Casa Branca apóia terroristas contra Assad), Barack Obama decidiu enviar uma frota para ameaçar a supremacia Chinesa em seu próprio litoral. Ontem um general dos EUA afirmou que a Rússia é a principal ameaça contra aos EUA https://www.rt.com/usa/320572-general-milley-russia-threat/ .

O império global faz suas apostas. E eu só posso fazer uma pergunta: quem deu aos EUA soberania planetária? Toda hegemonia é fruto de uma história. Vejamos, portanto, o que a mesma nos diz.

As relações internacionais tal como se encontram organizadas na atualidade (Estados soberanos, que fazem parte da Organização das Nações Unidas em que apenas 5 países tem poder de veto no Conselho de Segurança) foi construída após a II Guerra Mundial. O simples fato de existirem Estados soberanos e de se reconhecer 5 países com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU (Rússia, EUA, França, Inglaterra e China) deveria ser suficiente para garantir unanimidade acerca de uma verdade factual: nenhum país tem hegemonia global ou legitimidade para tentar submeter todos os outros países. A coexistência pacífica só é possível com o respeito às regras internacionais e não há nenhuma regra que garanta aos EUA dominar o planeta.

Mas é exatamente esta dominação planetária que os militares dos EUA estão a defender na Europa, na Ásia e no Oriente Médio. Quem foi que atribuiu aos norte-americanos o direito de se impor aos outros países? Desde quando vivemos num planeta americanizado?

Leia também:  Para ampliar rede privada, PEC de Guedes desobriga construção de escolas públicas

A imagem que os norte-americanos fazem de si mesmo não é condicionada pela história. Eles raramente conhecem profundamente sua própria história. O que os norte-americanos fazem, e bem, é utilizar sua história para americanizar tudo em todos os lugares. Isto explica porque os filmes “made in USA” projetam o poder e a soberania dos EUA onde quer que haja um personagem norte-americano atuando. A colonização do passado, do presente, do futuro, dos outros países e até dos outros planetas, é visível em qualquer roteiro de filme feito nos EUA. Nos últimos anos os American movie makers colonizaram culturalmente até a Rússia, não sem retratar os russos como mafiosos, bêbados, inimigos irredutíveis e assassinos em dezenas de filmes.

A Rússia, contudo, continua profundamente russa. Orgulhosamente mergulhados em sua própria história, os russos comemoraram os 70 anos de vitória sobre o III Reich sem autorização da Casa Branca. E não foram poucos os norte-americanos que consideraram isto ultrajante, como se eles tivessem direito de dizer o que os russos podem ou não fazer dentro do seu território. A evidente agressão simbólica contida neste sentimento de ultraje (que pressupõe uma soberania dos EUA dentro da Rússia) é evidente. A cegueira imperial, contudo, quase sempre impede os imperialistas de verem o que estão fazendo.

A rápida destruição do Estado Islâmico pela Força Aérea da Rússia também causou ultraje nos EUA. Os norte-americanos se tornaram amigos dos terroristas que diziam combater? Algumas vezes as ações dos EUA criam contradições. Outras vezes quem cria embaraços para as pretensões da Casa Branca é a própria linguagem. O que podemos dizer da presença da marinha dos EUA no Mar da China? Desde quando o Mar da China se transformou no “Mar dos EUA na China”?

Leia também:  Clipping do dia

As contradições evidentes na política externa dos EUA (os norte-americanos combatem  o terrorismo, mas defendem seus terroristas na Síria; o Mar da China pertence à US Navy) são percebidas por qualquer pessoa inteligente. Vários jornalistas, contudo, continuam se esforçando para justificar tudo o que é decidido em Washington. A confusão entre jornalismo e propaganda é evidente. E certamente beneficia as pessoas que definiram o “curso de ação” dos EUA e estes, como bons imperialistas, sempre pressupões que os EUA devem prevalecer onde quer que tenha interesse. Isto certeza exclui a possibilidade de uma predominância russa e chinesa em qualquer lugar.

E no Brasil? No Brasil a guerra pela hegemonia norte-americana é mais fácil. Para cá o caesar Obama nem precisa enviar tropas. Os únicos inimigos dos EUA no Brasil são o monopólio do petróleo (combatido diariamente pela imprensa), a soberania sobre o Pré-Sal (a ser limitada com a revisão da Lei de exploração e partilha proposta por José Serra) e a natureza pública da Petrobras (que se pretende privatizar em razão da Lava Jato).

Os brasileiros que fazem o serviço sujo dos EUA no Brasil são muitos e eles nem precisam ser pagos pelo Tio Sam. Eles estão no Congresso, no Ministério Público, no Judiciário e na Polícia Federal e, portanto, são pagos pelos próprios brasileiros. Brasileiros? Não, os serviçais do império norte-americano no Brasil não são brasileiros. Eles acreditam que são americanos (pois o Brasil está no continente Americano). Alguns certamente sonham ser norte-americanos de segunda classe e até compram apartamentos em Miami e Orlando. O grande trabalho da imprensa neste momento é transformar traição em patriotismo, golpismo contra a democracia em “defesa da moralização” do Estado. O petróleo nosso é deles…

Leia também:  Como fica o cenário político após a soltura de Lula?

A partida, contudo, não será disputada no Brasil, tampouco pode ser ganha pelos brasileiros que vergonhosamente ostentam sentimentos norte-americanizados. Felizmente estamos na periferia do mundo. Russos, chineses e norte-americanos estão prestes a travar a guerra total e global desejada pelos mestres da realidade (ou da ilusão) nos EUA. A queda do IV Reich norte-americano será ruidosa e na sua lápide poderemos escrever o fragmento de um poema de Edgar Allan Poe:

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

O Amerikanischdammerung será ainda mais triste para aqueles que sustentaram até o fim o império dos EUA no Brasil. Afinal, eles terão que, uma vez mais, se contentar apenas com seu país, muito embora o país deles já pertença aos “outros brasileiros” (aqueles que continuarão rindo dos traidores do Brasil).  

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome