O desembarque de Conselheiro Acácio

Do Valor

Semelhanças entre 1994 e 2010

Por Alberto Carlos Almeida, de São Paulo
06/08/2010

Dilma é a franca favorita para vencer a eleição de 2010 já no primeiro turno. Apesar disso, onde há disputa há imprevisibilidade. É o caso de uma Copa do Mundo e é o caso de uma eleição. Uma eleição só é totalmente previsível quando há apenas um candidato. Em tal situação rara esse único candidato tem 100% de chances de vencer. É nesse sentido que podemos afirmar que o resultado da eleição presidencial deste ano é imprevisível. O mundo da disputa é um mundo probabilístico. O mundo do candidato único, da seleção única, do partido único é um mundo determinístico: está determinado que, enquanto houver partido único na China, apenas o partido comunista a governará. Quando há dois ou mais partidos há probabilidades. Cada partido tem uma chance de vencer a eleição presidencial. De um modo geral, há sempre um lado com mais chances e outro com menos chances.

Quem gosta de estatística gosta de história. Foi isso que aprendi com meu professor de estatística da época de mestrado e doutorado, Nelson do Valle e Silva. Sempre foi e é um excelente estatístico e um grande apreciador de livros de história. Quanto a isso, vale mencionar aqui, textualmente, o que está escrito na página 31 do meu livro “A Cabeça do Eleitor”: em 1994, o governo Itamar Franco estava bem-avaliado e foi eleito o seu ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso; em 1998, o governo Fernando Henrique estava bem-avaliado e o próprio presidente foi reeleito; em 2002, o governo Fernando Henrique estava mal-avaliado e foi eleito o seu principal opositor; em 2006, o governo Lula estava bem-avaliado e o presidente foi reeleito. Para o bom entendedor basta: o governo Lula está muito bem-avaliado e por isso o grande favorito a ser eleito é a candidata do governo. Estamos falando isso, é claro, probabilisticamente, mas com uma probabilidade muito alta.

MarcMarconi Perillo foi duas vezes governador de Goiás. No fim de seu segundo mandato ele estava muito bem-avaliado. Ele fez campanha para Alcides Rodrigues, que foi eleito. O mesmo aconteceu no Pará quando Almir Gabriel completou o seu segundo mandato. A população queria continuidade e elegeu Simão Jatene. O mesmo acontecia antes de haver reeleição. Foi assim entre Quércia e Fleury, com Maluf e Pitta, com César Maia e Conde. Em todos esses exemplos a avaliação positiva dos respectivos governos era bem menor do que acontece com o governo Lula hoje.

Vamos tratar sempre como sinônimo de avaliação positiva a soma dos percentuais de ótimo e bom, o que para o governo Lula fica entre 75% e 80%. O raciocínio é muito simples. Quem avalia o governo como ótimo e bom tende a votar no candidato do governo. Foi assim que, em 1994, aproximadamente 60% dos eleitores que avaliavam o governo Itamar como ótimo e bom votaram em Fernando Henrique. Itamar tinha 37% de avaliação positiva. Multiplicando-se 60 por 37 tem-se 22. Isto é, 22 pontos percentuais dos votos que Fernando Henrique teve em 1994 vieram de quem avaliava Itamar como ótimo ou bom.

Se o mesmo acontecer agora em 2010, significa que a Dilma terá dentre os que avaliam positivamente o governo Lula 45 pontos percentuais de votos, o que, somado aos votos junto a quem avalia Lula como regular, daria vitória a Dilma no primeiro turno. Quarenta e cinco pontos percentuais de votos é o resultado que se obtém quando se multiplica 60 por 75%, que é a soma do ótimo e bom de Lula. Não há nada que indique que Dilma não obtenha a mesma proporção de votos junto a esse eleitorado que Fernando Henrique teve com os admiradores de Itamar. Posto de outra forma, se Fernando Henrique teve 60% de votos junto à avaliação positiva de Itamar, por que Dilma não teria o mesmo junto àqueles que têm a mesma avaliação de Lula?

Itamar não fez campanha para Fernando Henrique, Lula fará, faz e já vem fazendo campanha para Dilma. Fernando Henrique é sem dúvida alguma muito melhor do que Dilma. Diria que é covardia compará-los. Em 1994, porém, Fernando Henrique, então senador por São Paulo, não era ainda nacionalmente conhecido. Era muito conhecido em São Paulo, mas muito desconhecido no resto do país. O voto em Fernando Henrique foi o voto naquele que baixou a inflação, naquele que fez o Plano Real. O raciocínio do eleitor foi muito simples: ele votou no portador do Plano Real, daí a vitória já no primeiro turno. Em 2010, o Plano Real tem outro nome, chama-se governo Lula. Votar no portador do Plano Real de 2010 é votar em Dilma. Isso torna provável a vitória de Dilma já no primeiro turno. Aliás, minha previsão é a de que é muito elevada a chance de que Dilma derrote Serra no primeiro turno. Ela tende a terminar a disputa eleitoral com uma vantagem de 15 a 20 pontos percentuais sobre Serra. Na recém-divulgada pesquisa do Ibope, a candidata do governo abre cinco pontos percentuais de vantagem, ao passo que Marina tem 7%. Ou seja, Dilma já está bem próxima de ganhar no primeiro turno.

Dunga foi demitido tão logo a seleção foi eliminada da Copa do Mundo. Outros técnicos tiveram o mesmo destino e nunca mais voltaram a treinar a seleção: foram os casos de Coutinho em 1978 e de Lazaroni em 1990. Telê Santana é uma grande exceção: perdeu em 1982 e voltou em 1986, para perder novamente. Nos Estados Unidos, o último derrotado que disputou uma segunda eleição foi Nixon, nos anos 1960. Depois disso, derrotado é derrotado e vencedor é vencedor. O futebol é extremamente competitivo. A eleição dos Estados Unidos é extremamente competitiva, ou ao menos se tornou assim a partir dos anos 1960. É curioso que o Serra derrotado de 2002 e o marqueteiro derrotado de 2006 agora estejam juntos para tentar vencer Lula, o governo bem-avaliado e sua candidata. Isso é o mesmo que manter Dunga no comando da seleção em um campeonato no qual o adversário já venceu duas Copas do Mundo consecutivas.

Em entrevista à revista “Veja” na edição de 21 de abril, Serra, pedindo desculpas se parecia pretensioso, afirmou que aos 14 anos de idade o seu professor de latim disse que ele seria presidente, que ainda iria mandar em todos os seus amigos de classe. Novamente pedindo desculpas se parecia pretensioso, na entrevista à CBN em que entrou em discussão com Miriam Leitão, Serra disse que ele tinha dado o nome “tripé” para a política econômica de Fernando Henrique. Para Sabrina Sato, declarou, quando perguntado se estava preparado para os debates, que já tinha nascido preparado. Tudo isso indica que a decisão de ser candidato não foi baseada em probabilidade de vitória, mas nesta propensão psicológica: a de parecer pretensioso.

É mínima a probabilidade de vitória de Serra caso a avaliação de Lula se mantenha no atual nível. É preciso que aconteça algo completamente fora do previsível para que Serra derrote Dilma, algo como um total impedimento de Lula de fazer campanha, a necessidade de substituição do candidato governista muito próximo do dia da eleição, um escândalo semelhante em simbologia dos vídeos ao que abateu Arruda no DF atingindo a candidata Dilma, coisas desse tipo. Em condições normais, em que a probabilidade de votar no candidato do governo aumenta quando melhora a avaliação do governo, trata-se de uma eleição na qual Dilma é a franca favorita.

A imagem de Serra ao final da campanha de 2010 tenderá a ficar muito parecida com a imagem de Geraldo Alckmin em 2006: o eleitorado vai achar Serra o mais preparado, o mais comprometido com melhorias na saúde e na segurança pública, mas achará que Dilma será a mais comprometida com melhorar o consumo dos mais pobres. Isso não será surpreendente, uma vez que a equipe de marketing derrotada em 2006 está na campanha de 2010. Tenderá a ser repetida a fórmula da derrota de quatro anos atrás.

O Brasil ainda não é um país completamente competitivo. Competitividade significa fazer a fila andar mais rápido. Se alguém perde, há alguém na fila atrás, esperando a vez. Isso é benéfico para o nosso futebol. É por isso que somos tão bons no esporte. Da mesma maneira, em política as eleições ficarão mais competitivas e mais apertadas se equipes e candidatos derrotados de eleições pretéritas forem renovados.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: menos Imposto, mais Consumo”. 

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