O fiasco econômico de Augusto Pinochet

    Por Luiz Alberto Marques Vieira Filho*

    A política econômica do sanguinário ditador Augusto Pinochet (1973-1989) ainda hoje é considerada um exemplo de sucesso no Brasil. Consumo desenfreado de bens de luxo, financiado por abundante crédito externo, e baixos salários fizeram a fama dos economistas chilenos. 

    Causa espécie que economistas brasileiros pouco citem dados econômicos como PIB, PIB per capita, produção industrial, dívida externa e salário real e sequer analisem os resultados de Pinochet na estrutura produtiva do Chile. De fato, o ditador chileno logrou reduzir o deficit público, mas qualquer análise econômica minimamente séria pode prescindir daqueles indicadores básicos.

    A estratégia econômica da ditadura chilena consistiu na rápida e violenta redução das excessivas tarifas alfandegárias e não-alfandegárias às importações e abertura financeira para capitais externos. A tarifa média de importação caiu de 94% em 1973 para apenas 10% em 1979. As brutais rodadas de redução da proteção industrial ocorreram sem anúncio de qualquer cronograma para que as empresas pudessem se planejar. Os patamares de tarifas externas no Chile na época eram substancialmente mais baixos que na maioria dos países subdesenvolvidos, incluindo a Coréia do Sul, que praticava tarifas de proteção aos produtos locais que variavam de 30% a 60%. Mesmo em países como EUA, Japão e os membros da União Europeia as  tarifass de proteção chegavam a 40% para artigos de vestuário, alimentos processados e manufatoras leves.

    O resultado foi um verdadeiro desastre econômico com o PIB caindo 17% em 1975 e a produção industrial desabando 26%. Apesar da recuperação do preço nominal em dólar do cobre ao longo da década de 70, o aumento da produção do metal com a maturação dos investimentos iniciados pela Democracia Cristã no final da década de 60 e a maior apropriação dos rendimentos com a nacionalização das minas com Allende (que jamais foi revertida), o Chile registrou crescentes desequilíbrios externos. Esses desequilíbrios externos foram compensados com a abertura aos fluxos de capitais externos, que resultaram na explosão da dívida externa privada, com bancos captando em dólares para aproveitar o enorme diferencial de juros para financiar a farra do consumo de bens importados. O financiamento externo chegou a impressionante 20,7% do PIB em 1981, enquanto a dívida externa estava próxima de 50% do PIB.

    Esses fluxos de capitais permitiram uma expressiva valorização cambial no Chile. Por um lado, ampliou ainda mais a dificuldade da indústria nacional em concorrer com bens importados. Mas por outro lado permitiu uma explosão do consumo de bens de luxo importados pela elite chilena e pela alta classe média. Entre 1970 e 1981, o consumo de perfumes e cosméticos importados cresceu inacreditáveis 9.500%. Não menos importantes foram os aumentos na importação de bebidas e cigarros (2.400%), roupas de luxo (5.150%), automóveis (1.249%) e aparelhos de televisão (9.357%).

    Como o consumo de luxo da elite chilena era financiado pela dívida externa, um dia a conta chegou. O 2º Choque do Petróleo e o aumento dos juros americanos tiveram efeitos devastadores na economia do Chile, que ao lado da Argentina registraram as maiores recessões de toda América Latina.

    A resposta à crise da farra de consumo de bens luxo foi bem típica dos países latino-americanos. Quem pagou a conta foi o pobre! O arrocho fiscal reduziu drasticamente o dinheiro reservado às escolas e hospitais do povo. Ainda em 1989, após 15 anos de ditadura Pinochet, os gastos por habitante em educação eram 37,4% menores do que em 1970. Na saúde, o tombo foi 30,4%.

    A combinação de recessão e fechamento dos sindicatos foi péssima para os trabalhadores. Entre 1970 e 1989, a queda real do salário médio foi de 8,4%. O desemprego médio no período foi de 18%, mas ultrapassou 31% em 1983. O índice de GINI, que mede desigualdade de renda, chegou a 56,6 e fez do Chile um dos países mais injustos do mundo. Na verdade, essas duas décadas não foram apenas perdidas, mas de significativo retrocesso para quem vivia do seu trabalho.

    O suposto bom desempenho econômico de Augusto Pinochet justificaria a barbárie que deixou mais de 40.000 mortos políticos, 316 estupros e 28 mil pessoas torturadas reconhecidas oficialmente, das quais mais mil eram crianças. No entanto, os dados econômicos desmentem aqueles que justificam tal barbárie, mesmo que o dinheiro pudesse de alguma forma justificar assassinatos pelo estado.

    Augusto Pinochet teve um dos piores desempenhos econômicos da história do Chile, com o PIB per capita crescendo apenas 1,3% ao ano no período. Ffrench-Davis, um economista chileno oriundo da Escola de Chicago, estimou para o período um desempenho muito abaixo do PIB potencial e do patrão histórico chileno, conforme gráfico abaixo:

     

    Qualquer economista que olhe os dados e a história, não pode deixar de concluir que o legado de Pinochet foi um dos mais bárbaros do mundo. Mortes e tortura, enquanto a economia sofreu com enorme desindustrialização, crescimento econômico anêmico, desemprego, baixos salários, desigualdade brutal de renda e desmonte dos serviços públicos de saúde e educação. 

    *Luiz Alberto Marques Vieira Filho é economista (USP), mestre e doutorando em Economia (Unicamp)

    Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

    Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

    Apoie agora