O Globo ligando Wellington aos extremistas

(Atualizado às 11h50)

1 – Matéria publicada hoje pelo O Globo:

“Nos textos, revelados neste domingo pelo “Fantástico”, da Rede Globo, ele escreve que fazia parte de um grupo, cita o atentado de 11 de setembro e destaca que há sites na internet que ensinam como fazer bombas e como conseguir recursos para comprar munição e explosivos.”

“Em alguns trechos do manuscrito, ele afirma passar quatro horas por dia lendo o Alcorão: “Não o livro, porque ficou com o grupo, mas partes que eu copiei para mim”, escreveu Wellington. No mesmo texto ele menciona o atentado terrorista de 11 de setembro 2001, em Nova York e Washington: “Tenho meditado muito sobre o 11/09”.

“Ele cita ainda o nome de alguém que teria vindo do estrangeiro: Abdul. “Tenho certeza q foi o meu pai quem os mandou aqui no Brasil ele reconheceu o Abdul e mandou que ele viec (sic) com os outros precisamente ao Rio… pq qdo eu os conheci e revelei tudo a eles eu fui muito bem recebido e houve uma grande comemoração” Mais adiante, surge um novo nome no manuscrito, Phillip, que teria sido um dos motivos de um desentendimento entre ele e Abdul. “Tive uma briga com o Abdul e descobri que o Phillip usava meu PC para ver pornografia.”

“Wellington também manifesta vontade em conhecer países islâmicos: “…pretendo trabalhar pra sair desse estado ou talvez irei direto ao Egito.”

“O texto estava em um caderno, junto a outros manuscritos: um exercício de inglês e anotações soltas com referências à Malásia, um país de maioria islâmica. Ele anota que é preciso verificar as condições climáticas da Malásia em setembro, mês dos ataques de 2001 em Nova York.”

“No local, um bilhete deixado na porta da geladeira pelo atirador dizia que havia destruído seu patrimônio para impedir a “identificação do fornecedor”.

EM BUSCA DO ‘GRUPO’

Polícia investiga ligação de Wellington com extremistas, revelada pelo ‘Fantástico’

Publicada em 10/04/2011 às 23h16m

Natanael Damasceno e Sérgio Ramalho

RIO – A rotina de Wellington Menezes de Oliveira nos oito meses que antecederam o ataque a estudantes da Escola Municipal Tasso da Silveira está sendo devassada por uma força-tarefa da Polícia Civil. A identificação dos integrantes de um suposto grupo extremista do qual o atirador teria feito parte, como sugerem textos encontrados num caderno e numa carta que estava em sua casa, em Sepetiba, é considerada prioridade. Nos textos, revelados neste domingo pelo “Fantástico”, da Rede Globo, ele escreve que fazia parte de um grupo, cita o atentado de 11 de setembro e destaca que há sites na internet que ensinam como fazer bombas e como conseguir recursos para comprar munição e explosivos. A polícia, entretanto, trabalha também com a possibilidade de as informações nos escritos de Wellington, com muitos erros de português, serem delírios resultantes de problemas mentais.

O material recolhido na casa do assassino mostra ainda que Wellington tentou se inscrever num curso de tiro, pedindo informações específicas sobre o uso de revólver calibre 38. Entre os escritos, numa carta aparentemente dirigida a uma mulher, há muitas referências religiosas e sinais de tendência suicida. Em alguns trechos do manuscrito, ele afirma passar quatro horas por dia lendo o Alcorão: “Não o livro, porque ficou com o grupo, mas partes que eu copiei para mim”, escreveu Wellington. No mesmo texto ele menciona o atentado terrorista de 11 de setembro 2001, em Nova York e Washington: “Tenho meditado muito sobre o 11/09”.

Documentos trazem nomes estrangeiros

Ele cita ainda o nome de alguém que teria vindo do estrangeiro: Abdul. “Tenho certeza q foi o meu pai quem os mandou aqui no Brasil ele reconheceu o Abdul e mandou que ele viec (sic) com os outros precisamente ao Rio… pq qdo eu os conheci e revelei tudo a eles eu fui muito bem recebido e houve uma grande comemoração” Mais adiante, surge um novo nome no manuscrito, Phillip, que teria sido um dos motivos de um desentendimento entre ele e Abdul. “Tive uma briga com o Abdul e descobri que o Phillip usava meu PC para ver pornografia.”

Wellington também manifesta vontade em conhecer países islâmicos: “…pretendo trabalhar pra sair desse estado ou talvez irei direto ao Egito.”

O texto estava em um caderno, junto a outros manuscritos: um exercício de inglês e anotações soltas com referências à Malásia, um país de maioria islâmica. Ele anota que é preciso verificar as condições climáticas da Malásia em setembro, mês dos ataques de 2001 em Nova York.

Os policiais também apreenderam na casa de Sepetiba três CPUs de computadores e diversos CDs. De acordo com a delegada Helen Sardenberg, da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), Wellington havia desmontado, quebrado e queimado os equipamentos. No local, um bilhete deixado na porta da geladeira pelo atirador dizia que havia destruído seu patrimônio para impedir a “identificação do fornecedor”. Técnicos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) tentam recuperar a memória dos computadores. O principal objetivo é identificar os interlocutores do atirador na Internet e determinar se eles usavam a rede para disseminar a ideia de novos ataques.

Um psiquiatra forense do Instituto Médico Legal (IML) foi designado para elaborar um perfil psicológico do atirador com base no material recolhido pela Divisão de Homicídios (DH) e pela DRCI. A partir da análise, a polícia poderá saber se Wellington tinha as meninas como principal alvo. Dos 12 mortos, dez eram do sexo feminino. Na carta encontrada em sua bolsa, o assassino diz que nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem.

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/04/10/policia-investiga-ligacao-de-…

2 – Telegrama de 2009 da embaixada dos EUA no Brasil e vazado pelo WikiLeaks:

“WikiLeaks: a difamação de religiões como estratégia diplomática

Enviado por luisnassif, dom, 03/04/2011 – 19:07

Do Vila Vudu

Estratégia dos EUA para engajar o Brasil na difamação de religiões

Viewing cable 09BRASILIA1435 –http://213.251.145.96/cable/2009/12/09BRASILIA1435.html

CONFIDENTIAL – Embassy Brasilia

Excerto do item CONFIDENCIAL do telegrama 09BRASILIA1435

A íntegra do telegrama não está disponível.

Tradução de trabalho, não oficial, para finalidades didáticas.

ASSUNTO:

Estratégia para Engajar o Brasil na “Difamação de Religiões”[1]

1. (C) RESUMO: A posição do Brasil na questão da “difamação de religiões” na comissão de Direitos Humanos da ONU reflete a conciliação entre as objeções do país à ideia (objeções baseadas num conceito do que sejam Direitos Humanos) e o desejo de não antagonizar os países da Organisation of the Islamic Conference (OIC) com os quais tenta construir relações e que o Brasil vê como importante conjunto de votos a favor de o Brasil conseguir assento permanente no CSONU. À luz da argumentação a favor da abstenção do Brasil, proponho abordagem de quatro braços, envolvendo aproximação com os altos escalões do Ministério de Relações Exteriores; uma visita a Brasília, para pesquisar meios de trabalhar com o governo do Brasil, nessa e noutras questões de direitos humanos; outros governos que possam conversar com o governo do Brasil; e uma campanha mais intensa pela mídia e mobilizando comunidades religiosas a favor de não se punir quem difame religiões . FIM DO RESUMO.

(…)

Aumentar a atividade pela mídia e o alcance das comunidades religiosas parceiras: Até agora, nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões. Mas o Brasil é sociedade multirreligiosa e multiétnica, que valoriza a liberdade de religião. Um esforço para difundir a consciência sobre os danos que podem advir de se proibir a difamação das religiões pode render bons dividendos. Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país.

Essa embaixada tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados. Visitas ao Brasil, de altos funcionários do governo dos EUA seriam excelente oportunidade para pautar a questão para a imprensa brasileira. Outra vez, especialistas e funcionários de outros governos e países que apóiem nossa posição a favor de não se punir quem difame religiões garantiriam importante ímpeto aos nossos esforços.

Essa campanha também deve ser orientada às comunidades religiosas que parecem ter influência sobre o governo do Brasil, quando se opuseram à visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad do Irã, em novembro. Particularmente os Bahab e a comunidade judaica, expandidos para incluir católicos e evangélicos e até grupos indígenas e muçulmanos moderados interessados em proteger quem difame religiões [sic]. [assina] KUBISKE

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

[1] Há matéria da Reuters sobre o assunto, de seis meses antes desse telegrama, em http://www.reuters.com/article/2009/03/26/us-religion-defamation-idUSTRE52P60220090326, em que se lê: “Um fórum da ONU aprovou ontem resolução que condena a “difamação de religiões” como violação de direitos humanos, apesar das muitas preocupações de que a condenação possa ajudar a defesa da livre expressão em países muçulmanos (sic)” [NTs].

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/wikileaks-a-difamacao-de-religi…

Por Jotavê

Nassif,

A tradução desse documento apresenta problemas graves. Em nenhum momento, por exemplo, o texto original fala que “é essencial persuadir o Brasil a mudar seu voto e a trabalhar conosco a favor da “Difamação de Religiões”, até chegarmos a uma solução de conciliação”. O original diz que conversações de alto nível entre os dois governos (americano e brasileiro) são essenciais para persuadir o Brasil “to change its vote on “Defamation of Religions” and to work with us toward a compromise solution”, isto é –mudar seu voto a respeito de “Difamação de Religiões” [isto é, a respeito deste TEMA], e trabalhar conosco na direção de uma solução conciliatória

Outro trecho cuja tradução teria que ser revista, pois DISTORCE COMPLETAMENTE o sentido da mensagem original:

“Aumentar a atividade pela mídia e o alcance das comunidades religiosas parceiras: Até agora, nenhum grupo religioso no Brasil assumiu a defesa da difamação de religiões. Mas o Brasil é sociedade multirreligiosa e multiétnica, que valoriza a liberdade de religião. Um esforço para difundir a consciência sobre os danos que podem advir de se proibir a difamação das religiões pode render bons dividendos. Grandes veículos de imprensa, como O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem dedicar-se a informar sobre os riscos que podem advir de punir-se quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país.”

Eis o texto original:

INCREASED MEADIA AND RELIGIOUS COMMUNITY OUTREACH

There are currently no groups within Brazil that have taken up this issue. However Brazil is a multireligious, multiethnic society that values freedom of religion, and an effort to increase understanding of the dangers of the “Defamation of Religions” approach may well yeld dividends. Large media outlets such as O Estado de São Paulo, the O Globo media outlets, and Veja magazine, were they to focus on this issue, could raise the public concern, particularly among the elite.

O texto não fala na ausência de “grupos religiosos’ que assumam a “defesa da difamação de religiões”. Diz apenas que nenhum grupo se propôs a discutir o assunto. O texto não fala a respeito dos “danos que podem advir de se proibir a difamação de religiões”, mas apenas dos perigos da abordagem [centrada no conceito de] ‘Difamação de Religiões’, isto é, do risco para os direitos humanos representado pela defesa (feita por muitos países muçulmanos) de PUNIÇÃO (prisão, forca, apedrejamento, e por aí vai) de indivíduos pelo fato de estarem “difamando a religião”. 

Se você, leitor, acabou a leitura do texto convencido de que existe uma política oficial dos EUA voltada para a difamação das religiões, você caiu na armadilha dessa tradução capciosa. Não há nada – NADA – nesse texto que se aproxime REMOTAMENTE que seja desse tipo de postura. A questão é mais simples. Os EUA condenaram, no Conselho de Direitos Humanos, a punição de pessoas condenadas por “difamarem a religião”. O Brasil, apesar de TAMBÉM SER CONTRA esse tipo de punição, absteve-se, por razões políticas. Nâo queria comprar briga com os países muçulmanos, seus aliados potenciais na conquista de um assento no Conselho de Segurança. É só isso.

Não tem nada – ABSOLUTAMENTE NADA, pelo amor de Deus! – a ver com essa história do atirador de Realengo. O que muitos leitores podem ser levado a raciocinar da seguinte forma:

1. O Globo está acusando o atirador do Realengo de ter ligações com o islamismo. 

2. O Globo faz parte daquele grupo de órgãos de imprensa que estariam sendo incentivados pelo governo dos Estados Unidos a “difamarem religiões” hostis – no caso, o islamismo.

3. Portanto, essa acusação do Globo deve ser vista como parte desse esforço norte-americano para “difamar religiões”.

Vamos conservar a sanidade mental. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A reportagem baseia-se em manuscritos apreendidos na casa de Wellington. Parecem mencionar algum tipo de ligação com grupos islâmicos amalucados. (Eles existem, assim como existem grupos umbandistas amalucados, grupos católicos amalucados, grupos protestantes amalucados e grupos budistas amalucados. Fazer o quê?) É preciso investigar para saber se existe mesmo algo por trás disso – essa é UMA das hipóteses com que a polícia trabalha. A outra é que os papeis sejam simplesmente o produto da mente amalucada do próprio Wellington.

Não existe nada indicando uma ação do governo dos Estados Unidos no sentido de “difamar religiões”, ou coisa que o valha. A questão no Conselho de Direitos Humanos da ONU era outra. A confusão é tão grande, nesse caso, que é difícil saber por onde começar a desmontagem dessa farsa. Se quiser, o leitor pode se pôr na pele do representante brasileiro no Conselho. Você votaria contra ou a favor de uma resolução que condena a PUNIÇÃO de pessoas sob a acusação de que estão “difamando a religião”? Os EUA votaram a favor dessa condenação. O Brasil se absteve, por razões políticas e estratégicas.

Ninguém nunca em nenhum momento apresentou moções ao Conselho de Direitos Humanos defendendo a difamação de religiões. Qualquer leitor que tenha ficado com essa impressão a partir da leitura do texto deve se corrigir.

A relação entre o caso de Realengo e essa questão discutida na ONU é a seguinte: NENHUMA.

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