O ídolo que passou e o ídolo que ficou

Por Nicolau Frederico de Souza

 

Reservo este “Espaço MPB” para um texto do jornalista conterrâneo araxaense Ronan Soares Ferreira, que tem passagens por grandes veículos da mídia brasileira, como a rádio Nacional de Brasília, o Correio da Manhã, O Estado de S. Paulo, O Globo, Rede Globo de Televisão e GloboNews e assessorias de Imprensa.

Ronan foi o inspirador de minha profissão de jornalista. Em minha infância e adolescência, lia e acompanhava seus textos publicados no Correio de Araxá, editado há mais de 50 anos pelo dedicado jornalista Atanagildo Cortes. Mais tarde, em Brasília, quando iniciava meus primeiros passos, ainda como “foca”, foi Ronan quem me indicou para um estágio na sucursal do Estadão em Brasília. Eis o seu texto sobre dois grandes brasileiros de nossa história; um, na MPB e o outro na política:

Em 1961, vivi como repórter uma nova fase da história do Brasil. Estava no jornalismo da rádio Nacional de Brasília, e já era respeitado porque escrevia fácil e fiz muitos amigos. Jânio Quadros, que eu detestava, como contei aqui em outro capítulo, foi eleito presidente.

Nessa época, reencontrei, na rádio, uma pessoa de quem eu gostava muito: Luiz Gonzaga, o ‘Lua’, o Rei do Baião. Empolgado com Jânio, ele ajudou a mulher dele, dona Eloá, a fazer a campanha do marido para a presidência, sucesso absoluto.

Quando Jânio foi eleito, Gonzagão ficou eufórico e convidou a mim e ao Miudinho, que tinha sido zabumba dele no baião, funcionário da rádio, para tomar umas e outras na Cidade Livre e comemorar a vitória de Jânio numa boate de lá. Idolatrado pelo povo, ele foi recebido como uma grande estrela. Começamos a beber e ele se mostrava empolgado pela veia esquerdista de Jânio, embora fosse um nordestino dos mais conservadores (meses depois, Jânio condecoraria Che Guevara, mas, já nesta época, dava recados de simpatia para a esquerda internacional).

Depois de umas e outras, os admiradores não se conformavam com seu silêncio, porque ele estava ali com a cabeça na vitória do Jânio, como cidadão, e nem se importava se era o ‘Rei Luiz Gonzaga’, e começaram a pedir que ele cantasse. Naquela época, tinha uma expressão popular no país inteiro que era: “Qual é o pó?”, que eu acho que não tinha nada a ver com cocaína, era uma maneira de perguntar o que estava acontecendo.

O fã clube ali presente começou a pressionar, perguntando: “Gonzaga, qual é o pó?”, e ele fez de conta que não estava ouvindo, mas como insistiram, ele já com umas e outras na cabeça e contrariado, virou-se para eles com o dedo polegar em forma de ‘0’, e falou: “O pó, gente, é o tal cuzinho!”. E ali ficamos mais um bom tempo, e eu pensando na fria que ele tinha entrado com o Jânio. Em meses, ele e o resto do Brasil saberiam qual era o pó.”

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