O Maior Momento de Jacob

Foi em 1969, quando passei uma temporada na casa do meu tio João, em São Paulo, me preparando para o vestibular na USP, que ouvi pela primeira vez o primeiro dos três LPs do show do teatro João Caetano, que juntou Jacob do Bandolim, Época de Ouro, Elizeth Cardoso e o Zimbo Trio. Jacob havia morrido em agosto daquele ano. A emoção daquele LP me tirou a concentração do vestibular. Passava o dia inteiro ouvindo, entrava à noite com aquele som de Deus nos ouvidos.

Foi o maior show ao vivo da história.

Jacob comçou a carreira em meados dos anos 30, nos anos 50, incorporou recursos desenvolvidos por Garoto. Depois, seguiu as recomendações de Radamés Gnatalli e resolveu aprender teoria.

Especialmente a partir do LP “Primas e Bordões” de 1962, até sua morte, transformou-se no maior instrumentista de seu tempo, em um dos maiores da história. A releitura que fez de “Lamentos”, de Pixinguinha, de “Murmurando”, de Fon-Fon, de “Brejeiro”, de Nazareth em tudo fugia ao padrão de improviso do chorão tradicional. Jacob juntava o grupo, e ensaiavam exaustivamente cada música. Todos tinham liberdade para criar. Depois, Jacob ia selecionando as melhores sacadas de cada músico e, aí sim, fechava a obra em um arranjo irrepreensível.

Eram gravações de estúdio, e nelas Jacob colocava sua maior característica, a de não desperdiçar uma nota, a de sempre surpreender com a nota no contraponto, com os desenhos na hora certa, com a mudança de andamento. Alberto Helena Jr. me contou que Jacob lhe disse ter aprendido esse modo de tocar nos tempos fracos com Nonô, o grande pianista tio de Ciro Monteiro. Tenho para mim que foi com Garoto, de quem Jacob assimilou todo o repertório de sons e acrescentou o rigor de suas interpretações.

Mas foi nas poucas gravações ao vivo que o gênio de Jacob explodiria de forma ainda mais esplendorosa.

Nada superou o show do Teatro João Caetano. Nem se diga os solos, irrepreensíveis, juntando seu rigor com a emoção provocada pela resposta do público. Seu grande momento é quando o bandolim se recolhe para um segundo plano impossível e passa a acompanhar os solos de Elizeth Cardoso. Há acompanhamentos magistrais em “Mulata Assanhada”, em “Jamais”, “Até Amanhã”, “Feitiço da Vila”. Mas seu maior momento é “Barracão”, de Luiz Antonio, música simples, bonita, excessivamente curta para permitir interpretações magistrais para qualquer outro músico, que não se chamasse Jacob do Bandolim.

O bandolim começa humilde, centrando um cu-tchan-tchan-tchan, como um cavaquinho quadrado. Elizeth solta a voz e o violão de sete cordas de Dino ensaia as primeiras evoluções. Quando Elizeth repete o refrão, o bandolim solta pequenos trinados preparando a repetição. Em um determinado momento, se comporta como uma cadeira de balanço, balançando pra lá e pra cá até se desvencilhar e sair voando, espalhando notas de luz pelo caminho.

Quando Elizeth dá a senha “vai Jacob”, tem-se o mais belo improviso que o choro já conheceu.

É noite de sexta-feira, as menininhas foram para a cama e me chamam para colocar o “anjinho do bom sonho” que protege seu sono e as livra dos sonhos ruins. Vou com os ecos de Jacob nos ouvidos. E me dou conta que nada melhor para nos aproximar de Deus do que os gorjeios das filhas e os sons de Jacob.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora