O menor dos males: Chomsky x Greenwald … e o fator ignorado, por Bruce E. Levine

   © Lord Jim – CC BY 2.0

COUNTERPUNCH

Noam Chomsky acredita que é indiscutível a derrota de Trump que votará em Biden, enquanto Glenn Greenwald desafia  a estratégia politica do ditado “o menor dos males”.  É difícil imaginar alguém mais intelectualmente elevado que Chomsky, mas Greenwald não é inferior. Chomsky e Greenwald são íntegros, guerreiros racionais aplicam a logica contrastante do tabuleiro de xadrez para essa questão. No meu trabalho diário como psicólogo, como pessoas com relacionamento abusivo podem focar em certos tipos de raciocínio que eles perdem a sua integridade e se tornam muito frágeis para se libertarem.

Noam Chomsky

Em uma entrevista do Intercept, “Mehdi Hasan and Noam Chomsky on Biden vs. Trump” (17/04/20), vemos Noam Chomsky, aos 91 anos, continua ter  o seu intelecto avassalador e agora – com sua abundante barba branca e avisos apocalípticos – se assemelha a um profeta bíblico, e por isso ele me deixa preocupado que, se eu o desconsiderar , eu irei para o inferno.

Chomsky nos conta que os comícios MAGA (Make America Great Again) de Trump nos remete as memórias da infância dos comícios de Hitler. Ele chama Trump de “malignidade” diversas vezes: “A questão maior urgência é se livrar da malignidade da Casa Branca…Manter isso por mais quatro anos significa uma corrida para o abismo do aquecimento global alcançando ao ponto de inflexão irreversível…aumentando drasticamente a ameaça de guerra nuclear…Abarrotando o judiciário com jovens advogados de extrema-direita, na maioria não qualificados.

As pessoas “Never Biden” faz Chomsky pensar no início dos anos 30 na Alemanha quando o Partido Comunista assumiu a posição de que não havia uma real diferença entre os Sociais Democratas e os nazistas, e recusou a se juntar com eles para barrar os nazistas. “Nós sabemos aonde isso levou”, avisa Chomsky.

Para assegurar que a turma da”Never Biden” não possa se iludir, Chomsky reduz isso a  uma aritmética fácil, “Não votar em Biden nessa eleição nos estados onde a disputa é acirrada, significa votar em Trump. Deixar de votar na oposição, é o mesmo que acrescentar um voto a Trump. Então se você decidir que quer votar pela destruição da vida humana organizada na Terra, pelo aumento drástico na ameaça de uma guerra nuclear, por encher o judiciário…então faça isso abertamente, diga ‘Sim, é isso o que eu quero’ mas esse é o significado do Never Biden.

Eu estou em Ohio, um estado onde as eleições são muito disputadas, e Chomsky me faz pensar se eu não me mexer e não votar em Biden, eu terei que responder a Deus por concordar que Trump construa a sua própria ala paramilitar dos Camisas Marrons (SA nazista).
Para Chomsky, “o futuro da humanidade está em jogo, esse é um momento único”, e isso é muito ingênuo pensar que não votar, irá de alguma forma mudar o DNC (Comitê Nacional do Partido Democrata). Para Chomsky, o menor dos males não é o caminho certo de enquadrar essa questão – é sobre prevenir uma catástrofe devastadora.

Hasan conta a Chomsky que Greenwald assinala que Biden, um falcão da guerra no Iraque, tem mais probabilidade de iniciar uma guerra no exterior e matar pessoas inocentes, mas Chomsky declara que isso é ” uma especulação vazia…Trump está rasgando em pedaços os acordos de controle de armas.” Com Biden na Casa Branca, Chomsky vê a oportunidade dos movimentos de base ter influencia, mas não com Trump, que nem mesmo é um “ser quase humano” e não responderá aos movimentos populares.

É difícil discordar de Chomsky que teremos um judiciário ainda mais horrível com a reeleição de Trump, embora seja também difícil de esquecer que Joe Biden, com presidente da Comissão Judiciária do Senado, enquanto definitivamente votava contra Clarence Thomas, permitiu Anita Hill ser biblicamente apedrejada pelos republicanos na comissão, pavimentando o caminho para Thomas conseguir ir para Suprema Corte.

Que tal votar em Biden como um antídoto contra o aquecimento global? Desculpe, mas ele não está indo exatamente para evitar a catástrofe ambiental. Mesmo o duas caras Biden mantenha de verdade uma ou duas promessas ambientais, o simples Capitalismo Verde não vai nos salvar do consumismo cancerígeno que está devorando o planeta.

Biden é um “quase ser humano” ou apenas mais uma escória? Biden, como Trump, é um mentiroso cronico sem hesitar em mentir terrivelmente. A respeito à sua história politica, além de ser fundamental para o lançamento da Guerra no Iraque, ele deu às corporações americanas quase tudo o que elas pediram: apoiar a revogação da Lei Glass-Steagall; apoiar a NAFTA, apoiar o corte de impostos de Reagan, apoiar a Lei de Falências de 2005 que, entre outros agrados aos credores, ampliou os tipos de empréstimos estudantis que não podem ser quitados pela falência, exacerbando a crise do débito estudantil e frequentemente pedindo pelos cortes da Seguridade Social e do Medicare.

Glenn Greenwald

Isso nos leva a crítica de Glenn Greenwald ao ditado do menor dos males na sua entrevista no acTVism com Zain Raza: “Glenn Greenwald em Noam Chomsky Favorecendo Biden sobre Trump e Votando pelo menor dos males” (16/04/20). Greenwald é um advogado e jornalista vencedor do Premio Pulitzer que ajudou Edward Snowden revelar as verdades sobre a vigilância em massa do governo americano. Greenwald aparece para mim como um menino que talvez aos 4 anos perdeu uma discussão com seus pais na hora de ir dormir, mas desde então não perdeu nenhuma discussão com ninguém. Talvez isso não seja verdade, mas se no futuro eu tiver que responder a deus por não “votar em Azul não importa quem”, eu quero Glenn como meu advogado de defesa.

Greenwald começa nos dizendo que ele é “um grande fã de Noam Chomsky quanto possível” e que ele tem “nada além que a mais alta admiração por ele”, mas ele rejeita a ideia que é a responsabilidade moral votar pelo menor dos males Democrata.

Esse pensamento do menor dos males, para Greenwald, foi muito mais defensável em 1980, quando havia uma diferença mais clara entre Democratas e Republicanos. Naquela época, os Republicanos eram o partido de Ronald Reagan, economia do livre mercado, poder corporativo, eliminação dos programas sociais de governo de ajuda aos pobres, e ataque aos sindicatos. Apesar do Partido Democrata estivesse apoiando o imperialismo, era ainda o partido da classe trabalhadora e dos sindicatos. Para Greenwald, naquela época, havia uma clara diferença entre os Republicanos, e dessa forma votar pelo menor dos males fazia sentido.

Todavia, Greenwald nos faz recordar que depois dos anos 90, Bill Clinton transformou o Partido Democrata de “um partido da classe trabalhadora em um partido de Wall Street, Vale do Silício, bancos, companhias de cartão de crédito, e o complexo industrial militar”, e a diferença entre os partidos consideravelmente diminuída.

Greenwald admite que ainda permanece algumas diferenças entre os partidos, mas o problema é: “Nós seguimos esse conselho por décadas que diz apesar de não suportarmos a liderança do Partido Democratico, mesmo que eles acreditem em coisas completamente anátema para o que acreditamos, é ainda nosso dever no final do dia garantir nosso apoio incondicional a eles”. Para Greenwald, existem dois problemas com essa visão.

Primeiro, argumenta que quando você compromete o seu apoio incondicional aos políticos, você não tem influência: “Eles não tem motivo para fazer qualquer coisa, mas ignoram você com desprezo porque você tem que se colocar numa posição subserviente…onde você diz, ‘ Eu não ligo o quanto você passe por cima dos meus valores, ainda vou votar em você.’ Porque alguém ouviria um grupo de pessoas que dissesse isso?” Políticos não vão fazer concessões às pessoas que, no final do dia, já se comprometeram em votar neles de qualquer maneira. Essa estratégia, para Greenwald, garante a sua impotência. Os políticos vão privilegiar às pessoas que acreditam que eles ainda precisam conquistar.

Segundo, qual é a saída estratégica? Greenwald:”Se você continuar a empoderar e apoiar e fortificar essa ala neoliberal, corporativista, militarista de um partido, outra vez, e outra… e outra…  Gore… Kerry… Obama… Hillary Clinton… Agora estamos apoiando Joe Biden. Qual é o sentido da política se é isso o que você está fazendo?”

A Campanha de Bernie Sanders

Chomsky oferece sua visão do porque Sanders não ganhou a indicação do Partido Democrata em 2020, “Não é apenas as manipulações do DNC…. é também algo mais. A esquerda não apareceu.. Sanders esperava uma onda no voto popular, especialmente entre os jovens que o apoiavam fortemente. Isso não aconteceu. Não foi o suficiente importante para levar alguns minutos para ir às urnas.

Deveríamos envergonhar os jovens que acreditavam firmemente nas idéias de Bernie Sanders mas não compareceram em grande número para ele em 2020? Ou deveríamos perguntar a eles se ficaram desapontados quando Bernie lhes disse em 2016 para votar no menor dos males Hillary Clinton, e depois se desmotivaram ainda mais quando Bernie prestou seu apoio a quem os democratas indicaram em 2020?

As pessoas apoiaram Bernie Sanders, destaca Greenwald, porque elas acreditavam que ele apoiava uma revolução politica contra o establishment, e ” agora, para dizer a essas mesmas pessoas para apoiar o próprio establishment que você pensou que estava lançando uma revolução é uma mensagem que não está caindo bem para milhões de pessoas.

Quando Bernie era um jovem, sua inspiração era Eugene Debs o legítimo socialista e cinco vezes candidato presidencial. Debs, diferente de Bernnie, recusou a pedir aos seus eleitores para apoiarem os candidatos democratas. Debs sabia que não apenas seus eleitores se sentiriam traídos por tal pedido, mas que isso podia destruir o movimento socialista. Ele não somente se opôs ao Partido Democrata, mas também se opôs à Primeira Guerra Mundial, que acabou o levando a prisão; e devido a isso, Gene Debs permanece até hoje uma figura inspiradora de integridade.

Nessa mesma época da Primeira Guerra Mundial, uma figura reverenciada por muitos anarquistas era Peter Kropotkin. Mas quando Kropotkin, durante essa guerra de gangues européia, se colocou ao lado dos “menor dos males” países aliados, isso foi devastadoramente desmoralizante para os anarquistas anti-estado como Alexander Berkmen que respondeu, “Nós lamentamos profundamente, profundamente, a mudança de atitude de Kropotkin”. Embora certamente o movimento de Berkmen, Emma Goldman, e outros anarquistas foi esmagado principalmente pelo autoritarismo cruel de Woodrow Wilson (que incluia prisões, deportações e censura à imprensa), a escolha do menor dos males de Kropotkin foi desenergizante.

Sanders, acredita Greenwald, é um ser humano admirável que dedicou a sua vida a classe trabalhadora, mas Bernie é amigo das pessoas com quem ele deveria estar travando uma guerra, inclusive ser amigo de Biden. Para Greenwald, a campanha de Sanders “tinha um leque de ataques que poderia ter sido lançados e deveria ter sido lançados contra Biden”, mas ao invés disso Sanders deu socos. Isso contrasta com Trump em 2016, que atacou agressivamente o establishment republicano – e venceu a indicação.

Muito fraco, sem movimentos populares

Além da estratégia política, existe uma questão psicológica sobre a fraqueza e a força.

Existem poucas oportunidades na vida para uma perfeita escolha, e assim  fazemos muitos compromissos, mas compromissos são muito diferente de violações de integridade. Compromissos são parte da vida. Violações de integridade são morte lenta.

Se por medo, escolhemos constantemente alguém que é abominável, nós estamos escolhendo o medo mais do que quem nós pensamos que estamos escolhendo. O medo nos torna fracos, e dessa forma estamos escolhendo a fraqueza mais que qualquer outra coisa.

A História nos informa que são os movimentos populares que movem os movimentos políticos é o que precisamos, e Chomsky é claro que a construção desses movimentos é o que precisamos focar o tempo todo, ao invés de apenas focar nas eleições. É claro que ele está certo. Todavia, é preciso energia e força para participar na construção um movimento popular; e quando ficamos tão frustrados por tomar decisões baseadas no medo, nós estamos muito enfraquecidos para construir movimentos populares bem organizados, sustentados e poderosos.

Enquanto o maior de dois males é um risco, também é uma vida inteira tomando decisões baseados no medo. Se nós repetidamente nos enganarmos que estamos comprometidos quando estamos de fato ofuscando a nossa integridade, há consequências. Nós podemos ficar tão frágeis que quando esses Camisas Marrons começar a marchar, não teremos forças para enfrentá-los.

Noam Chomsky tem razão em nos advertir do apocalipse fascista, mas isso pode ser pior que Trump. A eleição de Trump em 2016 resultou, em grande parte, do abandono dos 99% do Partido Democrata corporativista. Bill Clinton parceiro das empresas, criou condições para Bush-Cheney, Barak Obama e Hillary Clinton também aliados das corporações criaram condições para Trump. Que tipo de pesadelo dos infernos ficamos com as condições criadas pelo governo lambe-botas de empresas Biden?

Por mais horrível que Trump seja, e se o universo nos parar no tempo, dando a nós um último aviso com Trump – um palhaço fascista? E se o abandono constante dos 99% do Partido Democrata corporativista resultar na próxima vez num assassino totalitário que não é um idiota, alguém com a inteligência de Hitler e Stalin?

Depois que Bernie desistiu e endossou Biden, sua porta-voz Briahna Joy Gray – avaliando sua integridade mais que a sua carreira política – tuitou: Com o máximo respeito por Bernie Sanders, que é um ser humano incrível e uma verdadeira inspiração, eu não aprovo Joe Biden. Eu apoiei Bernie Sanders porque ele apoiou idéias como #MedicareForAll, cancelar TODAS dívidas estudantis e um imposto sobre a riqueza. Biden não apoia nada disso.”

Houve momentos na história americana quando os militantes nos sindicatos foram comunicados pela liderança covarde ou corrupta para ceder às exigências da direção, mas eles se recusaram a cumprir, desafiando a liderança e as direções sindicais. É chamada de “greve selvagem” (wildcat strike). É isso que meu pai e milhares de outros funcionários do correio fizeram em 1970, como um funcionário do correio disse,” de pé 3 metros de altura em vez de rastejar na poeira”. E eles venceram.

Gene Dubs, Ralph Nader e Briahna Joy Gray, não estavam prontos para se rastejarem na poeira. e aqueles de nós que tem alguma energia deve considerar gastá-lo apoiando pessoas corajosas como elas, como também manter a nossa própria integridade ajudar um ao outro de ficar muito fraco para lutar.

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Bruce E. Levine, psicólogo clínico praticante, muitas vezes em desacordo com a corrente principal de sua profissão, escreve e fala sobre como a sociedade, a cultura, a política e a psicologia se cruzam. Seu livro mais recente é  Resisting Illegitimate Authority: A Thinking Person’s Guide to Being an Anti-Authoritarian―Strategies, Tools, and Models (AK Press, setembro de 2018). O site dele é brucelevine.net


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