O mistério Exu: devo escutar mais a intuição ou a razão?, por Marcos de Aguiar Villas-Bôas

    O mistério Exu: devo escutar mais a intuição ou a razão?

    por Marcos de Aguiar Villas-Bôas

    De certa forma, já tecemos algumas palavras sobre este tema no texto intitulado “É melhor sentir a vida ou compreendê-la?”. Dentre as infinitas dualidades que deverão ser superadas pela racionalidade humana estão “coração e cérebro”, “sentir e pensar”, “intuir e racionalizar”. O que é melhor?

    Como todos os opostos são apenas graus de uma mesma coisa, é importante buscar os graus ótimos para cada pessoa, em cada espaço e em cada momento, de intuição versus racionalização. Ainda que inconscientemente, o ser humano costuma trocar um pelo outro, em vez de calibrar graus. 

    Pelo fato de a maioria das pessoas hoje racionalizar demais em vista do recente período eminentemente científico, lógico-formal e racional, a carência maior é, de fato, de sentir. Isso não significa que não haja também uma carência de qualidade no conhecimento e no racionalizar, no questionar, no refletir.  

    Os guias espirituais dizem que amor (ou sentir), ação (ou vontade) e conhecimento (ou razão) são três aspectos dos espíritos e que temos mais peso em um do que em outro, porém a busca espiritual é pelo desenvolvimento máximo de todos eles e de sua integração. Em cada ciclo da vida, estaremos focando no desenvolvimento de um aspecto e na sua integração equilibrada com os demais. 

    Enquanto aqueles alheios ao meio espiritualista, aos estudos de consciência, estão muito mais preocupados com o material, com o imediato, com o racional, aqueles que enveredam pelo caminho espiritual podem se tornar focados demais no fim de sentir, amar e intuir, o que não é algo ruim em si, mas que pode se tornar muito pernicioso pelo fato de que o foco excessivo termina gerando armadilhas do ego.

    Também já tivemos a oportunidade de dizer que o espiritualista tende fortemente a apenas trocar os seus desejos de materiais para espirituais, ou seja, antes ele queria ser rico, famoso por uma profissão, poderoso economicamente, agora ele quer ser o mais amoroso, o mais intuitivo, famoso por um trabalho espiritual, ter poder sobre os demais que trabalham e que são ajudados. A história humana religiosa e espiritual prova isso. 

    A ilusão de que se é especial por se trabalhar em uma casa espiritual, tão analisada neste blog, é o início dessa história. Os guias espirituais falam muito sobre isso no programa Diálogo com os Espíritos. O crescimento do movimento espiritualista após 2012, quando se iniciou uma nova fase na transição do planeta, deixou mais clara a busca egóica de muitos por serem “os” chamados, “os” escolhidos, aqueles que despertarão o planeta.

    A permanência das buscas no ego leva a todo tipo de foco espiritual externo, como a repetição da palavra “gratidão” 100 vezes ao dia, como se fosse isso necessariamente uma representação do sentir-se grato, do vibrar a gratidão. O primeiro aspecto a ser notado é que gratidão é um substantivo e soa estranho na Língua Portuguesa falar “gratidão” como um agradecimento, a menos que se tenha consciência de estar dizendo “sinto gratidão neste momento”, “a gratidão me inunda por você existir” etc.

    Apenas pode-se estar grato por algo: “fico grato”, “estou grato pelo que fez”. E por que não dizer: “tornei-me mais feliz pelo que diz”, “fico agraciado”? A utilização repetida de uma palavra que se tem por identificação com a espiritualização superior pode ser um sintoma de falta de naturalidade, de uma busca do ego por uma identificação com um arquétipo que se criou de “ser elevado”, quando o sentir ainda está em um estado precário.

    É claro que, como ensina o Conde de Saint Germain e a Programação Neurolinguística (PNL), a palavra tem força e, se bem utilizada, pode gerar reconstruções cerebrais. Uma vez que se fale repetidamente gratidão e se busque sentir isso quando se fala, pode haver um aumento do sentir-se grato.

    Interessante lembrar também que a gratidão de que mais se fala na espiritualidade é aquela natural, é a felicidade pela existência, sentida ao longo de todo o caminho. A gratidão sentida apenas quando alguém faz algo que agrada ainda está presa ao ego, à satisfação dos desejos. A gratidão profunda é aquela que torna a pessoa serena, que dá uma imensa paz por saber que está sempre no caminho, pois só existe o caminho, ainda que com suas ramificações.

    Alguém que fala “gratidão” o dia todo e que desaba em choro quando acontece o primeiro percalço não é grato(a) e está com a fé, aquela ligação divina geradora de coragem, fragilizada.

    O que isso tudo tem a ver com intuir ou com racionalizar? Há uma relação profunda, pois o “novo” movimento espiritualista ainda confunde muito o sentir-se grato com o ficar grato por receber algo, e a intuição é o sentir, é buscar aquilo que flui do âmago, mesmo que contra as regras socioculturais ou contra as regras científicas, todas elas, aliás, sempre em constante mutação.

    Tem-se repetido aqui que “a única constante no cosmo é que ele está em constante transformação”. No budismo e em outras tradições, isso é chamado de princípio da impermanência. Estamos sempre sendo intuídos acerca do que devemos fazer, para onde ir, qual trabalho escolher, como aplicar os esforços etc. A zona de conforto tem menos a ensinar. O problema é que os desejos, as crenças, as ilusões não deixam a intuição ser escutada ou geram distorções nas mensagens transmitidas pelos guias. 

    Por outro lado, o canal da intuição, a depender da conexão que se faça, pode ser preenchido com mensagens dentro e fora da Lei, dos guias ou de irmãos em ignorância que não querem nos ajudar, mas que terminam nos ajudando por nos causar as provas de que precisamos. Em suma, amigos obsessores, até querendo prejudicar vocês ajudam e nada pode impedir o processo evolutivo traçado pela consciência suprema. 

    É preciso estar atento. Daí surge mais uma dualidade a ser superada que leva o tema a uma profundidade muito grande: devemos escutar mais a intuição do que a razão, pois uma vem mais do Eu superior (self) e a outra vem mais da personalidade cheia de desejos, crenças e ilusões; contudo, aquilo que se pensa ser intuição pode revelar muitas vezes o próprio ego travestido de sentir ou um irmão chamado de obsessor soprando algo que pensamos vir dos guias.

    Na página 36 do brilhante livro Terapeutas do Deserto, que deve ser lido por qualquer um que se pretenda terapeuta ou que esteja realizando sua autoterapia em busca de um autodesenvolvimento, Jean-Yves Leloup afirma o seguinte:

    “Então Tomás de Aquino quer dizer: ‘Escute sua própria ciência. Você pode se enganar mas você não mente si mesmo. Faça no momento que lhe parece certo no mais íntimo do seu ser. Mas procure esclarecer sua consciência.

    Porque o que lhe parece certo pode ser uma fantasia, pode ser a ilusão. Procure esclarecer sua consciência.

    Não se contente com a certeza interior que você tem, mas interrogue-a, questione-a e descubra o que diz a tradição sobre esse assunto. Ou o que os homens e mulheres sábios podem dizer a esse respeito. Você talvez descubra que o que dizia aquela autoridade estava certo. Mas no momento isto não lhe parece claro. De início seja fiel à sua consciência e a esclareça.

    Eu creio que esta palavra pode nos ajudar em certos momentos de nossa vida. Porque nós não sabemos se o que fazemos é certo. E aí fica como que um buraco em nosso interior. Nestes momentos trata-se de ser fiel à nossa consciência profunda e permanecer centrado. Mas não ficar satisfeito e procurar compreender melhor o que nos ocorre. Não é porque escutamos uma voz que nos diz para casarmos com uma prostitua que esta voz será, obrigatoriamente, proveniente de Deus. Pode ser simplesmente um impulso bem animal que nós temos que discernir.”     

    Em suma, Leloup diz mais ou menos o que afirmamos no já referido texto sobre sentir ou racionalizar: o sentir deve prevalecer, mas é preciso questioná-lo e, para tanto, é importante buscar sabedoria e buscar os sábios. Os próprios conhecer e saber facilitam que as intuições enviadas por consciências muito mais libertas e lúcidas sejam bem compreendidas. Assim, quanto mais se sabe, mais se pode sentir e, quanto mais se sente, mais se pode saber. Num plano de consciência mais profundo, não há dualidade, mas constante inter-relação e mútua causalidade de benefícios ou prejuízos pelos dois aspectos. São frequentes as confusões geradas por decisões tomadas supostamente com base na intuição que decorreram de mensagens dos guias mal interpretadas pelo médium por ter inserido ali seus desejos, crenças ou ilusões.

    Some-se a isso o fato de que todos podemos ser testados pelos nossos próprios guias. Para entender isso, é fundamental compreender o “mistério Exu”. Mesmo pessoas que trabalham com espiritualidade há muito tempo, sejam ou não elas de culto afro, não compreendem bem a função dos Exus e Pombogiras, e não sabem que eles próprios têm algum ou alguns desses guardiões ligados a eles.

    Alguns acham inocentemente que os Exus os protegem de uma forma que os torna invencíveis, alheios à Lei, que é a base da própria existência dessa função de guaridão. Por outro lado, é uma ignorância achar que um Exu é inferior a qualquer outro espírito, até porque a base do conhecimento espiritualista é ver todos como iguais, mas apenas com diferentes graus de lucidez que levam a distintos padrões vibratórios. Um amigo que se acha muito espiritualizado, que volta e meia aparece nos nossos textos como exemplo do que não deve ser sentido, pensado, dito ou feito, afirmou outro dia que os Exus são espíritos menos evoluídos.

    Esse tipo de visão é normal em quem não conhece o assunto. Nós mesmos já pensamos assim no passado, pois o ignorante não pode fazer nada diferente de ignorar. Para saber, é preciso aprender, conhecer, estudar, questionar. Nada que deva gerar culpa em quem assim pensa ou que deva provocar reprovação em quem está de fora. Há Exus e Pombogiras ascensionados, santos, iluminados e que poderiam ser inseridos em todas as demais categorias bobas criadas pelos humanos para estabelecer onde seu ego quer chegar e quais os tipos de espíritos que serão idolatrados por eles.

    Como a maioria dos espíritos está frequentemente indo do positivo para o negativo, e vice-versa, até para que seu aprendizado seja mais completo e para que um lado possa esclarecer melhor sobre o outro, Exus e Pombogiras são funções de espíritos que conseguem andar pelo positivo e pelo negativo. Muitas vezes são aqueles que tiveram quedas e que se acostumaram a acessar as dimensões mais profundas, porém já estão lúcidos, decidiram trabalhar pela luz. 

    Exus e Pombogiras costumam passar por longas preparações em universidades espirituais. Eles estudam as sombras humanas, estratégia, treinam lutas, o uso de armas astrais etc. Esses guardiões são como o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) espiritual. Este autor orgulha-se imensamente de ter como seu mentor, como aquele que lhe acompanha desde o seu nascimento, um dos espíritos da falange Exu das 7 Encruzilhadas.

    O produtor do programa Diálogo com os Espíritos, Jefferson Viscardi, também tem como mentor um Exu, um dos espíritos da falange Exu Tiriri, por quem também tenho profunda admiração. No Diálogo com os Espíritos (n. 700 e n. 701) realizado entre o mentor e seu pupilo (veja aqui a primeira parte), é explicado muito sobre o mistério Exu e sobre como ele pode se apresentar de várias formas diferentes, dando, inclusive, palestras nas colônias espirituais.  

    As encarnações recentes e os feitos no astral estabelecem um padrão vibratório para os Exus e Pombogiras, não significando que não tenham sabedoria e que não possam amar com alta intensidade. Os guardiões servem à luz com mais proximidade em relação aos humanos e, a depender da sua vibração, que é muito variada, podem acessar desde planos elevados da luz a planos profundos das sombras. Por isso, são também chamados de guardiões das sombras.

    Se as pessoas com preconceitos soubessem de algumas encarnações célebres, na religião, na educação e em outros meios, de muitos Exus e Pombogiras que existem por aí, ficariam espantadas. Toda essa explicação sobre eles serve para dizer que, ao aplicar a Lei, esses guardiões, não raro, nos intuem de uma forma que poderemos realizar comportamentos dos quais iremos nos arrepender, reprováveis até mesmos pela própria Lei, geradores de carmas. 

    Eles não fazem isso porque são maus. Essa dualidade de bom ou mau dos humanos não precisa ser apenas superada, mas reconfigurada, pois distorce em muito a visão espiritual de lucidez e sombra, de consciência e inconsciência. Exus e Pombogiras são apolares, trabalham no negativo e no positivo do ser humano para que ele tenha lapsos de consciência, para que siga caminhos traçados por ele mesmo antes de encarnar, para que siga os caminhos do comando evolutivo do planeta, para que cause provas aos outros, para que viva seus carmas; então, de certo modo não é ruim cometer um ato inspirado por um Exu do qual nos arrependamos depois.

    Esse tipo de ato gerará aprendizado, levará para novos caminhos, o que não significa que não se precisará depois purgar isso. Observe, leitor, a complexidade do funcionamento do trabalho espiritual, impossível de ser compreendido segundo a categoria “bom ou mau” e sob as definições que se tem por esses dois conceitos normalmente na humanidade.

    Deixando agora mais claro, há muitos por aí que abominam Exus, mas que estão agindo intuídos por eles e realizando os fins da luz, ainda que ferindo os outros. Idealmente, a pessoa deveria estar num nível de lucidez que não lhe pusesse em posição de precisar ser uma geradora de provas que ferem a Lei, como sair soltando para as pessoas mensagens que vêm supostamente à sua intuição, recheadas por desejos, crenças e ilusões do ego, que irão machucá-las e que não necessariamente lhes ajudarão a evoluir nos seus pontos de atenção.  

    Há aqueles que racionalizam demais e que estão tendo dificuldades de ouvir os guias. Há aqueles que estão agindo com racionalização e estudo de menos, cometendo gafes frequentes por distorcerem as intuições ou por seguirem intuições de cunho mais negativo sem uma devida reflexão. O caminho é sempre a superação das dualidades em busca do equilíbrio ótimo para cada pessoa, em cada espaço e em cada momento. 

    Marcos de Aguiar Villas-Bôas é terapeuta holístico, consultor jurídico e político, espiritualista universalista, reikiano usui, reikiano xamânico, estudante de psicanálise e de Programação Neurolinguística (PNL), praticante de meditação e amante do todo e de todos. Deixou a sociedade de um dos cinco maiores escritórios de advocacia do país, sediado em São Paulo/SP, para seguir seu sonho de realizar pesquisas em Harvard e em outras universidades estrangeiras, mas, após atingir muitos dos seus objetivos materiais, percebeu, por meio da Yoga, de estudos e práticas espiritualistas sem restrições religiosas, que seus sonhos e suas missões iam muito além das vaidades acadêmica e profissional. Hoje busca despertar a consciência, o mestre dentro de si, e ajudar os outros a fazerem o mesmo, unindo o material e o espiritual e superando todas as demais dualidades. 

    2 comentários

    1. já eu considero que Exu já nasce Exu…

      e não é por já ter ído pra esquerda ou pra direita

      e nem pro negativo ou pro positivo

      ou pro bem ou pro mal

      é Exu por não vê nada disso ao pé da letra

      é Exu por gargalhar pelos quês de fantasia e de realidade serem os mesmos

      é Exu por ser a Criança dessas bases de estudos

      ou seja, é Exu pela simples razão de ver todas as coisas e todos iguais

       

      em tempo: se é que existe

       

       

    2. Rosa Weber não escuta nem a intuição nem a razão, mas a maioria

      Rosa Weber não escuta nem a razão nem a intuição, mas o Maioral

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