O mito no lugar do real e a importância na queda dos impérios.

O mito no lugar do real e a importância na queda dos impérios.

Muitas pessoas procuram descobrir nas aparências do enfraquecimento do imperialismo norte-americano pelos seus sintomas econômicos e sociais, com isto procuram no efeito a causa.

Todo o império tem seu período de crescimento apogeu e decadência, e historiadores, sociólogos, economistas e dezenas de outros profissionais da ciência tentam para outros impérios que já decaíram achar causas comuns para explicar a decadência dos impérios.

Várias interpretações são dadas, como por exemplo a invasão de outros povos, as perdas de safras por mudanças climáticas, a deterioração da sociedade por motivos religiosos ou morais e daí por diante. Mas se olharmos com cuidado um império durante o período de crescimento e apogeu sofre todos estes problemas, porém estes todos são resolvidos ou por ampliação e pilhagem e/ou exploração de outros povos, que compensarão os diversos fatos adversos surgidos durante a sua história, ou seja, se a desgraça cai por algum motivo na capital do império se transfere esta desgraça para outros.

Motivos religiosos ou morais também podem ser classificados também mais um sintoma de já uma decadência da sociedade existente do que um motivo para a própria decadência. Algumas pessoas atribuem ao cristianismo a queda do Império Romano, porém antes da introdução do cristianismo várias outras religiões e deuses eram introduzidos em Roma e nem por isto o Império Romano era abalado. No Egito, por volta de 1350 a.C. Amenófis IV, introduz o monoteísmo pela adoração do deus Aton (sol) como uma divindade suprema e única, entretanto com a morte de Akhenaton (o nome que Amenófis adotou) tudo voltou ao normal e a derrocada do Império Egípcio foi ocorrer séculos depois. Pode-se concluir que os impérios em situações anteriores ao seu período de declínio e decadência tem resiliência a fortes fatores externos que não os permitem entrar em decadência.

Agora há um fator que nunca é levado em conta para a decadência dos impérios, a confiança dos seus governantes de súditos no seu próprio poder e sem a percepção que este poder já não é algo real, mas sim um verdadeiro mito do passado.

Os britânicos na segunda guerra tinham uma imensa confiança na sua invencível Marinha Real Britânica, e a fantástica armada parecia que transformava os mares em torno das ilhas britânicas como um domínio desta. Com a ação dos U-Boats alemães e com uma armada sem barcos de defesa dos comboios de suprimento se não tivesse um apoio norte-americano, que também sofreu muito no início da sua intervenção, as ilhas ficariam sem suprimentos para a sua população e indústria. Nem vou falar da “impenetrável” Linha Maginot francesa que dava garantia ao mais poderoso exército da época, que se a ideia desta linha de defesa não tivesse falhado teria dado tempo para uma mobilização geral que teria mudado o curso da guerra.

Se olharmos para os processos de decadência dos impérios o que há de comum é o mito criado nas suas entranhas dos impérios, de sua invencibilidade e/ou não vulnerabilidade contra as mais diversas causas que os derrubam. Quanto mais rápido se criam os mitos, quanto mais rápido se modifica o mundo mais rápido se verifica que o mito está encobrindo o real que levarão a derrocada do império. Note-se que em estudos posteriores se verifica que pessoas com maior capacidade de antecipação dos eventos se dão conta do mito criado e não são levados em conta pelos governantes e pelo próprio povo do país. Instituído e internalizado o mito, por maiores as evidências das fragilidades, os que as questionam são deixados de lado devido as suas inconvenientes e desagradáveis observações.

Os mitos de supremacia técnica, cultural, social e racial embalam as civilizações a milhares de anos. Além da invencível Marinha Real Britânica, a impenetrável Linha Maginot, fato mais recente pode-se ver na história antiga o mito da supremacia dos egípcios que terminou sendo vencido por um povo bem menos conhecido, os Hicsos, que dominavam técnicas de guerra que simplesmente eram ignoradas pelo poderoso império egípcio. Também é possível se falar no mito racial criado pelos nazistas que achavam os eslavos povos sem a mínima capacidade de fazer frente aos “arianos”.

O processo de construção do mito, é extremamente conveniente para as oligarquias que dominam os povos, pois construído o mito da invencibilidade, da supremacia técnica, cultural ou social, estas mesmas elites não necessitam se preocupar tanto na manutenção destas supremacias (não introduzi a racial, pois esta se desfaz ainda mais facilmente) através de investimentos e da manutenção de infraestruturas caras para mantê-las.

Passando para o grande império da atualidade, os sintomas do mito prevalecendo sobre o real estão sendo detectados por vários experts em diversas áreas, o mito de uma moeda forte e indispensável para a movimentação do mundo, o mito de um exército e uma armada sem rival que defenderá o império, o mito de um desenvolvimento tecnológico baseado em vários centros de pesquisa que através das métricas criadas por eles mesmo se colocam no topo de qualquer outra inteligência de outros países e enfim o mito que sua organização política, que acham a mais perfeita do mundo, queira ser copiada por todas as pessoas brilhantes e líderes internacionais estão cada vez mais longe da realidade e próximo ao mito.

Quem por acaso de dedica a assistir os filmes e as séries norte-americanas que basicamente mostram os grandes homens do norte ou seus descendentes do futuro baseando-se nos princípios imutáveis e perfeitos que alguma vezes no mesmo filme, por mais paradoxo que seja, foram motivo da “destruição” da velha ordem, vê claramente que quanto pior for a qualidade do enredo mais os grandes princípios são endeusados.

O mais interessante na observação de filmes de pura ficção de segunda linha, ou mesmo de não ficção de melhor enredo, sempre há uma verdadeira subestimação de toda a capacidade tecnológica real para vencer inimigos ou obstáculos que nos leva a impressão que as tribos dos países em que os USA se encontram em guerra há décadas e não conseguem vencê-las, são alienígenas ou seres supernaturais, pois com toda a fantástica parafernália criada pelo mito da supremacia tecnológica não os consegue vencê-los.

A visão mitológica norte-americana é reforçada por homens que saindo das fileiras empresariais superam desafios através de esforços, inteligência e criatividade incalculáveis. Um Steve Jobs é beatificado por uma comunidade de adoradores beirando a religiosidade fanática por ter comprado a baixo preço um sistema de interface gráfica e ter após isto lançado alguns equipamentos tipo telefone e tabletes que são melhores do que os da concorrência mais devido ao custo que tiveram para ser desenvolvido e o preço também maior causado exatamente pelo custo. Essa visão triunfante de um mudo do futuro em que a tecnologia digital resolverá tudo, mesmo que seja impossível de sobreviver comendo smartphones ou usar um tablete, como tapete mágico, para se deslocar.

O mito que foi criado pela informática e com a evolução espantosa desta nas últimas décadas sem a mínima equivalência no aumento da riqueza e no conforto dos cidadãos normais, transforma muitos em neo-ludistas, pois verificam que a tecnologia anda na maior parte do mundo no sentido inverso da felicidade dos povos. A rejeição a tecnologia informática é causada mais pelo mito da onipotência desta do que nos reais e claros benefícios que ela traz.

O mito é desmistificado a medida em que ele confronta outras forças reais que mostram as suas fragilidades, e o mais interessante que geralmente o que forma o mito não é uma ausência do fato real que o criou, mas sim a magnificação do mesmo ultrapassando em muito a sua própria capacidade.

Podemos claramente dizer que o nosso império da atualidade ainda produz, evolui e cria, porém numa velocidade muito menor do que o mito faz aparentar. Desde o homem das cavernas o mito criado pelo desenho dos animais capturados pelos caçadores aumentou o estímulo a caça e provavelmente em várias situações permitiu maiores resultados, mas os desenhos na parede não evitaram que num inverno ou verão mais frio ou mais quente os caçadores tenham morrido de fome.

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