O modelo alemão de distribuição de livros, por Peter Naumann

Na Alemanha, você consegue mais de 50% do enorme sortimento de livros em qualquer livraria. Em todo o território alemão há alguns atacadistas, que mantêm grandes depósitos com estoques

Por Peter Naumann

Caro Nassif,

Acabo de ver a entrevista concedida ao Leonardo Attuch no 247. Trepidante! Como há quase quarenta anos já não consigo mais ouvir sem traduzir mentalmente – é a “déformation professionelle” do intérprete de conferências – pilhei-me várias vezes imaginando fazer a tradução simultânea para a minha língua materna, o alemão. Acho que não teria resistido muito tempo à sua velocidade, e isso apesar de ser hoje o mais antigo intérprete de conferências do mundo entre os idiomas alemão e português.

De qualquer modo, gostei muito.

Espero ler o livro logo. Ao procurá-lo na Cultura de Porto Alegre, fiquei sabendo que ele ainda não está disponível e só pode ser encomendado, com perspectiva de entrega em cinco semanas!  A distribuição de livros é péssima no Brasil. Não sei por que a Câmara Brasileira do Livro não se empenha para melhorar a distribuição.

Na Alemanha, para citar um exemplo solitário, você consegue mais de 50% do enorme sortimento de livros em qualquer livraria. As livrarias com sortimento variado desapareceram como entre nós e em outros países. Predominam os supermercados de livros, que vendem basicamente os best sellers, livros de auto-ajuda, subliteratura, “introduções a…” etc. Quando estou na Alemanha, nunca deixo de entrar ao menos uma vez nas livrarias das grandes estações ferroviárias para não esquecer a realidade e ver o que a república lê. É terrível.

Por outro lado, você consegue encomendar da noite para o dia mais de 50% do sortimento. Funciona assim: em todo o território alemão há alguns atacadistas, que mantêm grandes depósitos com estoques. As editoras enviam contingentes volumosos de livros, provavelmente em consignação. Em qualquer livraria provinciana o vendedor vai no computador, insere o nome do autor e/ou o título do livro ou, se o cliente fornece, o código ISBN (International Standard Book Number) e pede o livro, pela internet. O pedido é enviado imediatamente ao atacadista mais próximo, que coloca o livro em uma caixa de livros destinada à livraria. A caixa é transportada de noite e o cliente retira o livro na manhã seguinte. Você só não consegue tão rapidamente livros muito especializados.

Se a Câmara Brasileira do Livro quisesse, poderia criar um sistema parecido. Todos se beneficiariam: os autores, os editores, os livros, os intermediários, e sobretudo os leitores. Fui à Alemanha em fins de março de 1974, aos 24 anos incompletos, depois de ser forçado a abandonar a carreira pianística, decidido a dar a volta por cima e me tornar historiador e estudar paralelamente Filosofia e Sociologia, o que efetivamente fiz nesses cinco anos de pós-graduação. Naquela época o sistema já existia. As encomendas eram feitas por telex ou pelo telefone até pouco antes das 18:00 hs. O livro podia ser retirado pouco antes do meio-dia do dia seguinte.-

Leia também:  Em 2016, Lava Jato já discutia acordo com EUA e "manter dinheiro no Brasil"

Quando poderei pedir a um amigo que me compre o livro em SP (e.g. na Cultura) e me envie a Porto Alegre?

Um grande abraço do

Peter Naumann

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1 comentário

  1. Como no texto do sr. Maestri não estou conseguindo comentar, vai aqui mesmo. Gosto dos textos dele, principalmente pelo seu pragmatismo, em estabelecer fatos e mostrar dados, como o Luis Nassif é máster em bem fazer. Hoje debruçado no excelente texto da Eliane Brum (no El Pais) vinha também percebendo o quanto muitos da ala de cidadãos mais sensatos estamos também um tanto perdidos no tiroteio louco e constante que parece ser a norma daqui por diante. Esqueçamo-nos da normalidade de antes, pois estamos na era da insanidade e ansiedade, e até por este imediatismo se está entrando no mesmo jogo emocional e assim vai-se aos poucos assimilando o ódio ao oposto. O ódio como a depressão e a ansiedade, de fato é até componente destas duas enfermidades psicológicas e se estabelece de modo paulatino e sub-reptício. O clã Bolsonaro, os promotores e juízes treinados pelos americanos e outros mais dos “soldados” deste esquema agora mundial que buscam se apossar da narrativa e com ela, do poder de um mundo entrando em colapso, eles sabem muito bem disto. Uns mais espertamente e outros menos, mas o sistema desta guerra estabelecida e provavelmente de longa duração é o de “comer pelas beiradas”, da repetição e quando observarmos estará tudo dominado, “com STF, com tudo”. Os ideólogos formadores destas estratégias foram percebendo conforme estudos e pesquisas de psicologia de massas, ideologização via filmes, seriados, propagandas etc. que a mente humana se torna mais facilmente “manipulável” sob o medo e o terror, dai que um dos melhores recursos é a mentira, o falsear da realidade. Sob o medo e a ansiedade, nos tornamos mais vorazes e assim melhores e mais ingênuos consumidores de produtos, mas principalmente de ideologias. Não é sem motivo que os principais jornais das Tvs e cada vez mais com matérias que estimulem as redes neurais do medo/ansiedade, se ocupam dos horários das refeições. Não nos enganemos, o fake news veio para ficar. É a atual e melhor ferramenta para enriquecer e manter o domínio dos ricos (ou deus mercado, rentismo etc.), não vão se desfazer delas. Está estabelecida a era da mentira e o antídoto é claro que é a verdade. A verdade tem de vir também de forma repetida, diária e ligeira, sob efeito de “memes” assim como as fake news se propagam nas redes sociais, só que estas com milícias digitais remuneradas. Os decentes não terão capital comparativo para o combate, mas a verdade é muito mais “impositiva” que a mentira. Refiro-me à verdade dos fatos e dos dados, a frieza dos números e melhor ainda de um gráfico. Ao invés do desgaste que alimenta em si e no outro o ódio, a intransigência e a intolerância, invistamos tempo e energia em aprender ou pedir a quem sabe fazer gráficos comparando as coisas “desenhadas” e isto toca a memória racional do outro. O ódio a aspereza toca a memória emocional do outro e esta batalha é perdida pois os mídias e as mídias estão em sua maioria do lado que busca o dinheiro e o apupo imediato. Os Bolsonaros não demoram a cair de onde estão, pois a falsidade aliada à mediocridade não tem força para muito se sustentar, mas eles já têm o know-how, os canais, os soldados odiosos e o caráter para continuar (e vão continuar) fazendo o que bem fazem. Se quisermos fazer o contra ponto, a batalha não é mais nas ruas, é nas mentes e corações que podem ser iluminados pela razão. O texto longo serve aqui, para os que querem dialogar, para a maioria não tem como se iludir, tem de desenhar. O portal do Nassif tem como poucos a credibilidade para algo assim e com financiamento coletivo modesto, mas regular pode manter um profissional sob a editoria do Nassif para diariamente colocar gráficos comparando períodos, ideias, governos etc. Já se sabe que a mentira se alastra muito mais rápido que a verdade, mas a verdade precisa ser colocada, ilustrada e compartilhada. Com o embate, o ódio, apenas nos fará perder as pessoas mais cedo, por desistência, impotência ou adoecimento. A mentira escraviza pelo medo, mas é a verdade ilustrada e iluminada que libertará a razão.

    Cem dias sob o domínio dos perversos – Eliane Brum
    A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeis.
    https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html

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