O ódio a jornalistas como estratégia política, por Denise Becker

O chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, usou o Instagram no dia 6 de outubro, para incentivar boicotes publicitários à imprensa

do ObjETHOS 

O ódio a jornalistas como estratégia política

por Denise Becker*

A presença ativa nas redes sociais é parte essencial da atividade de um jornalista na era digital e requer certas habilidades para manter a relevância social do seu trabalho, a segurança e o equilíbrio e, em última análise, não enlouquecer.

É estar sob pressão constante, na mira de pessoas mal-intencionadas, assediadores e de bots, num movimento de ódio (hate movements) impressionante e preocupante.  Jay Rosen, jornalista e autor do PressThink, um blog sobre jornalismo e suas provações, explica que estes movimentos de ódio são mobilizados contra um grupo específico de pessoas para fins políticos.

Mais preocupante ainda é quando jornalistas são o alvo deste movimento de odiadores (“haters”, do termo original em inglês), colocando em risco as liberdades de expressão e de imprensa, a integridade física, moral e psicológica destes profissionais. Rosen argumenta que objetos de ódio precisam de nomes e usa como exemplo a postura do presidente do Estados Unidos, Donald Trump e seu relacionamento permanentemente conflituoso com a imprensa. Curiosamente, aqui no Brasil, temos um presidente que faz da mídia o seu objeto de ataques, declarando publicamente que jornalistas e organizações que veiculam notícias, são mentirosos.

Em umas das mais recentes declarações, Jair Bolsonaro, acusou o jornal Folha de S. Paulo “de descer às profundezas do esgoto”. A reação foi provocada pelas séries de reportagens que o jornal tem feito desde o início do ano sobre suspeitas de fraude no Partido Social Liberal (PSL), desvios de verba com esquemas de “laranjas” e caixa dois para a campanha do atual ministro do Turismo, o deputado eleito por Minas Gerais, Marcelo Álvaro e o próprio Bolsonaro. Neste editorial, a Folha de S. Paulo problematiza a temática reforçando o papel da imprensa em informar, cobrando esclarecimentos do governo sobre as acusações ao jornal.

Estratégia do ódio

Acusações sem fundamentação, vazias e de uma retórica torpe, seguidas do apoio do própria Secretaria de Comunicação do governo, o chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, usou o Instagram no dia 6 de outubro, para incentivar boicotes publicitários à imprensa. Já o ex-juiz Sergio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública, mais uma vez usou sua conta no Twitter em defesa do seu chefe, deixando implícito que teve acesso ilegal aos dados sigilosos do inquérito, sob comando da Polícia Federal e Ministério Público Federal.

Jornalistas recebem feedback instantâneo e ao vivo nas redes sociais

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Em entrevista, o influente antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, definiu a atual conjuntura que o país vive assim: “A gente chegou numa situação no Brasil em que você tem que usar um vocabulário da psicopatologia”.

“Ministro entrega ônibus escolares comprados na gestão anterior e diz ‘fazer muito com pouco ‘”. Em repressão à essa reportagem assinada pela jornalista Isabela Palhares (7/10), do jornal O Estado de S. Paulo, o ministro da educação, Abraham Weitraub, tenta desqualificar seu trabalho, mobilizando explicitamente seus seguidores a ofender e ameaçar a profissional, nas redes sociais.

Odiar jornalistas como faz Bolsonaro e a maioria de sua equipe ministerial não é uma atitude crítica à imprensa. É uma estratégia planejada de fazer política, característica de populismo, que despreza profundamente o rito democrático. Segundo Rosen, no populismo os ganhos políticos se dão pela mobilização de emoções, sentimentos de ressentimento pelas pessoas, que são descritas como perigosas. “O líder promete lidar duramente com esse grupo desprezado e fazer justiça ao povo”.

No caso do Brasil, os “perigosos” para Bolsonaro e seu governo são os seus opositores e os jornalistas, que têm como dever principal, fiscalizar e denunciar aquilo que os poderosos geralmente querem sonegar da população.

Estes profissionais estão sob pressão constante tendo que equilibrar a onda de ódio em suas redes sociais, o estresse para ter uma presença efetiva neste ecossistema, na maioria das vezes, explicando aos seguidores e assediadores porque publicaram uma reportagem, denúncia etc.

No caso dos jornalistas, o feedback é instantâneo e ao vivo, pelo feed. Isso pode levar à exaustão. Mas nem por isso, jornalistas deixarão de fazer o seu trabalho, que hoje passa, mais do que nunca, pelas redes sociais. Algumas redações implementaram diretrizes para jornalistas no uso de redes sociais, visando não comprometer a percepção do público em geral de que jornalistas exercem a profissão com “isenção”.

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Uma das vozes dissonantes a essas questões de isenção, é a de Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas e professor da Universidade do Texas. Em entrevista recente, falou sobre a utilização de metodologias anteriores ao mundo digital para lidar com as notícias. Para ele, reproduzir numa manchete a falsidade que um poderoso disse, “é ajudar a espalhar a mentira” e, ainda, “o jornalismo feito simplesmente com a mesma neutralidade anterior torna-se um amplificador das mentiras, falsidades que os news makers (pessoas que a imprensa acompanha) tentam levar à população”.

62% dos brasileiros usam as redes sociais

Enquanto a linguagem do ódio é lançada num fluxo ininterrupto pela boca e pelo Twitter do presidente do Brasil, o jornalista deixar de ocupar estes espaços (as redes sociais), é ceder o controle ao regime autoritário do presidente, que se apropria da linguagem do ódio com intenção de controlar o que as pessoas pensam e como se comunicam.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 140 milhões de pessoas estão ativas nas redes sociais, destes, 130 milhões acessam pelo smartphone, o que representa 62% da população e a cada dez, sete fazem compras pela internet mensalmente. Já não existe sociedade sem internet. É com essa galáxia que jornalistas e a imprensa precisam se comunicar.

Só o presidente Jair Bolsonaro no Twitter tem 5, 2 milhões de seguidores; no Facebook, existem grupos organizados de apoio a ele, somente em um destes grupos são 50 mil membros. Bolsonaro se vale das redes sociais para fazer comunicados oficiais, na maioria das vezes, excluindo a imprensa, que tem de pautar as inserções do presidente nas redes, para depois publicar notícias na TV, rádio e jornais.

O presidente faz de suas redes uma mídia particular – ele é a mídia. Fala o que quer para um público gigantesco, cativo, alienado, que o segue feito gado rumo ao abatedouro. E na última eleição, teve algo diferente: a distribuição de fake news via WhatsApp. Esta reportagem da jornalista Patrícia Campos Melo à Folha de S. Paulo traz informações recentes que confirmam – pelo próprio WhatsApp, o uso de envios maciços de mensagens, com sistemas automatizados de empresas na eleição brasileira de 2018.

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Portanto, quando Bolsonaro faz acusações aos jornalistas e à imprensa em suas transmissões ao vivo nas redes sociais, ele está declarando o seu objeto de ódio aos seus seguidores e fãs. Não é uma atitude crítica, é um ato político simbólico, sem levar em conta quem são os jornalistas e as organizações que representam, nem o histórico, desempenho e trajetória profissional.

Está em funcionamento no Brasil, um sistema autoritário de censura ao trabalho da imprensa e de motivação do ódio aos jornalistas. Como a presença em redes sociais não é mais um luxo, é uma habilidade, cancelar contas não é uma opção, ainda mais quando Bolsonaro está lá, tuitando o tempo todo. Jornalistas, precisam e devem se posicionar em relação aos fatos apurados, influenciar seus públicos, seguidores, sempre pautados pelo compromisso ético profissional.

Eximir-se dessa tarefa é o mesmo que ir à guerra sem armas. A rede social é arena pública de informações e debate e os jornalistas precisam fazer o seu trabalho, deixando a sua assinatura por lá, pois aqueles que acreditam na liberdade da imprensa têm o dever de compreender o que está acontecendo e o direito de se preocupar com uma sociedade democrática.

Estamos perplexos, mas atentos.


*Denise Becker é mestranda no PPGJOR e pesquisadora do objETHOS

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