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O perigo da extrema direita, por Renato Janine Ribeiro

do Valor

O perigo da extrema direita

Por Renato Janine Ribeiro

Cresce a extrema direita no Brasil. Felizmente, tirando os deputados Feliciano e Bolsonaro, tem pouca presença institucional. Mas, de duas uma: ou criará um partido novo, ou continuará numa relação ambígua com o PSDB, que lhe dá votos mas perturba a identidade.

A extrema direita não elege quase ninguém aqui. Para cargos executivos, menos ainda. Mas se fortalece na expressão de suas ideias. É fraca em poder, mas avança no berro. Para usar a expressão de Gramsci, disputa a hegemonia. Degrada o debate no país.

Durante alguns anos, PSDB e PT, representando nossa centro-direita e centro-esquerda, viveram uma aproximação na prática - ainda que ela fosse negada no discurso de ambos. Mas nos últimos anos a retórica subiu em decibéis. Temos um paradoxo: candidato, Aécio Neves prometeu continuar a política social do PT; reeleita, Dilma Rousseff adotou medidas econômicas dos tucanos. Portanto, a realidade não os afasta tanto - mas, na aparência, eles parecem estar quase em guerra. O que vale, a realidade fria ou a aparência raivosa? As políticas econômicas e sociais, ou a retórica desenfreada? a razão ou a paixão? Porque guerras favorecem os extremos.

Extremistas têm muita voz mas poucos votos

Onde é mais fácil ver a extrema direita é na internet. Ela povoa os comentários das redes sociais e das edições online dos jornais. É incrível o ódio que destila. Há poucos dias, lendo as notícias sobre o fuzilamento de Marcos Archer na Indonésia, me surpreendeu a quantidade de comentários atacando o PT, que nada tinha a ver com o assunto. A maior parte era escrita por pessoas desinformadas da realidade e desacostumadas ao cultivo da língua. Mas são veementes. Felizmente, não vão muito além do Facebook e dos blogs.

Ou não iam. Saíram da internet e foram para as ruas nos últimos meses - numa paródia, em menor, das manifestações de 2013. Pediram que os militares rasgassem a Constituição e tomassem o poder. No diagnóstico, erram. Misturam em seu ódio homossexualidade, Hugo Chávez e programas sociais. Nas suas propostas, nem percebem que o mundo atual não está para golpes. O que fariam as Forças Armadas, se tomassem o poder? Meio século atrás, os golpistas tinham uma agenda inteira montada. Os militares não tinham afeição pela democracia. Os empresários receavam os movimentos sociais, que avançavam. A economia estava em grave crise. O governo norte-americano apoiava qualquer golpe de direita na América Latina. Hoje, nada disso existe. Os extremistas são, literalmente, reacionários. Querem que o mundo recue. Não têm projeto viável.

Esse público nas ruas e na Internet vai além de seus próprios pregadores na mídia. Alguns colunistas de jornal chegaram perto de declarar ilegítima a eleição de 2014, o que é uma afirmação bastante grave de se fazer numa democracia, mas não lembro nenhum que tenha pedido a derrubada do governo eleito. Entre os ideólogos e seus seguidores que foram às passeatas ou escrevem em blogs, há uma distância. Os primeiros são mais informados, mais inteligentes. Os segundos, não. Apenas radicalizam.

Mas um problema sério é que essa extrema direita, que tem votado no PSDB nos momentos decisivos, pressiona nosso partido que porta em seu nome a social-democracia - uma denominação típica da esquerda - a ir para a direita. E isso traz alguns resultados. Assim se entende o uso do aborto na campanha tucana em 2010 ou a ênfase de Alckmin numa política repressiva de segurança. Esse fato cria problemas de identidade no PSDB, reduzindo o peso do passado glorioso de Montoro, Covas, Ruth Cardoso. É óbvio que FHC não deve se sentir confortável com esse avanço dos extremismos.

Pode essa extrema direita, que é mais forte em São Paulo, mas cujo tamanho exato ninguém no Brasil é capaz de mensurar, alterar a natureza do PSDB? Não me parece provável. Ela deve manter seu papel de aliada subordinada. Presta o serviço de destruir imagens petistas e recebe alguma compensação midiática por isso. Mas é uma aliada incômoda. Não gosta dos direitos humanos, com os quais o PSDB histórico tem um forte compromisso. Não gosta dos programas sociais, dos quais os tucanos não querem ou não podem abrir mão.

Pior, a extrema direita carrega o risco de convencer demais. Ela ajuda o PSDB na medida em que reforça o antipetismo de parte razoável do eleitorado - mas, se crescer em votos, pode fazer os tucanos perderem os votos de seus eleitores iluministas e, pior, tornar-se dominante em algumas seções regionais do PSDB, o que poria o partido em sério risco.

Há outra possibilidade, para a qual me alertou o cientista político português Álvaro Vasconcelos, ora professor visitante no IRI da USP. Sem o PSDB, a extrema direita pode se tornar um partido próprio, e este pode ganhar força. É o que sucede na Europa. A Frente Nacional ameaça a política francesa há anos. Tem uma votação elevada, embora o sistema eleitoral francês traduza esses sufrágios em pouquíssimos cargos de efetiva significação.

Mas essa é uma possibilidade remota. Como a extrema direita brasileira, dado o seu exacerbado antipetismo, acaba apoiando o PSDB, ela não se organiza para tomar o poder. Prefere operar nas laterais. Sabe que - hoje - teria poucos votos, se disputasse as eleições para valer. Mas é preciso fazer constantemente o balanço do que é melhor para o país e para os tucanos - se é a extrema direita continuar subordinada, sem voz independente mas podendo minar um partido sério, com história e com futuro, ou se é ela adquirir voz e identidade próprias, com o risco de crescer mais. Porque o atual, talvez crescente, desencanto com os políticos favorece aventuras.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras

 

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24 comentários

Comentários

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PSDB e extrema direita

Bom o texto.

Eu só acrescentaria dizendo que a relação entre PSDB e extrema direita não é tão recente. Vale lembrar que Reinaldo Azevedo trabalhava para o PSDB bem antes de defender ideias iguais às do Olavo de Carvalho. Reinaldo Azevedo fazia textos pró-PSDB desde 1996 na Revista República, que viraria Primeira Leitura em 2002 e seria extinta em 2006. Só em 2003, quando Lula virou presidente, que Reinaldo Azevedo deu uma súbida guinada olavete. Antes, ele era tido como um colunista de centro. Continuou árduo defensor do PSDB mesmo depois de ter passado para a ultradireita. É possível que isto seja resultado do interesse do PSDB de ganhar simpatia do público fã do Olavo de Carvalho. Obviamente ganhou esta simpatia faz tempo.

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Fabio !

DIREITA FESTIVA

Nelson Rodrigues descobriu a esquerda festiva. 

E com esse texto do Janine chegou a vez da EXTREMA DIREITA FESTIVA : faz muito barulho mas não ganha eleicão.

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Esse janine é mesmo uma

Esse janine é mesmo uma piada, ele ainda acha que o psdb é centro direita, daqui a pouco ele vai chamar de centro avante! Prá mim o psdb já nasceu mais prá direita do que prá centro, covas iniciou o movimento mais a direita (lembrem que ele mandou a polícia meter o cassete nos professores), serra endireitou de vez o partido e o alquimista falta dágua é a essência da extrema direita,  o que o diferencia do bostonauro é que o alquimista é catatônico e o outro fala demais. O dr janine perdeu a referência, doutor, direita não é a mão do relógio!

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Carlos Garcia

Discordo quando ele fala que

Discordo quando ele fala que FHC fica desconfortável com a extrema direita. Ele fica confortável é estando no poder. Não interessa a matiz.

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Discordo

A extrema direita brasileira é costumbrista e não necessariamente econômica e globalizante.

Maior perigo está na colonização neoliberal com roupagem verde ou social-democrata.

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Discordo. A extrema direita

Discordo. A extrema direita não teria saído do esgoto sem o apoio ao golpismo manifestado por tucanos graúdos com ajuda da imprensa. O risco vem menos da extrema direita do que destes pseudo social-democratas que odeiam o povo e desdenham o resultado das eleições que perderam.

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Bruce Lee

Riscos de uma velha aproximação

Janine parece querer ser moderado demais. Alguns elementos precisam ser discutidos: 1º, o partido nasceu em gabinetes fechados com dissidentes do caldeirão peemedebista, não tendo capilaridade social, mas com bandeiras à social-democracia e atraindo quadros elitistas da sociedade; 2º, fez aliança com o DEM (ex-PFL que apoiou a ditadura) e com ele tem seu aliado de todas as horas; 3º, fez um governo de oito anos à direita com tímida vocação para implementar e aprofundar agendas de inclusão social; 4º, tem na mídia e justiça conservadoras dois de seus braços sustentadores. O partido tem uma visão elitista do Brasil e um passado com prática política neoliberal, mas futuro, a meu ver, é o que o próprio filósofo descreveu no texto inteiro: futuro extremista, a julgar que lideranças como Aécio continuem dando cartas - vejam o quanto o senador foi posto a nu durante a campanha, o que revelou sua face autoritária. Por que estranhar tanto e até lamentar os rumos do partido??? O novo aqui já é velho.

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Dificuldade de reconhecer o óbvio

"Pode essa extrema direita, que é mais forte em São Paulo, mas cujo tamanho exato ninguém no Brasil é capaz de mensurar, alterar a natureza do PSDB? Não me parece provável."

Renato Janine Ribeiro se parece com alguns amigos que tenho, e que são tucanos da velha guarda, do início do partido. Não querem reconhecer o que está evidente para todos que acompanham a política brasileira.

Incrível a dificuldade de reconhecerem que o PSDB vem sofrendo mudanças palpaveis há anos, e que hoje já pode ser considerado um partido de direita. Sua metamorfose foi grande, a partir do momento em que o PT ocupou a faixa da centro esquerda na conjuntura política brasileira.

Ao PSDB, a partir daí, não restou outra opção senão incluir em seu discurso (e em sua ação) atrativos aos eleitores de direita. Ficou refém deles, o que deixou pessoas como o Renato Janine Ribeiro incomodadas. Mas mesmo assim não reconhecem o óbvio. 

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Concordo.Porém pra mim o

Concordo.

Porém pra mim o momento da virada foi quando assumiram a presidência em coalizão com os "liberais" do PFL. Hoje quando acusam o PT de ter mudado no poder, não percebem a fidelidade ao estilo acusar nos outros o que faz.

Na década de 90 a social democracia ficou só no rótulo e limitou-se a aplicar a cartilha liberal, por mais que neguem. Os projetos piloto de programas sociais serviram só pra vitrine ee propaganda eleitoral.

Sobretudo no segundo mandato, tudo que fizeram foi "acalmar" o mercado.

E são esses os laços de lealdade que ainda preservam. Esses e uma classe média antissocial saudosa dos tempos de "paridade" real dólar e do consumo exclusivo.

Por isso que nas "carreiras de Estado"- como lembrou Daytona, na maior parte jurídicas (o que tornou patéticas as manifstações de alguns médicos implorando para terem o mesmo tratamento) -  cuja remuneração é altamente distorcida e desconectada da realidade social, ainda se percebe a alta frequencia de ressentidos com o atual governo, característica básica para serem arrebatadoss pela direita e pelo PSDB atual.

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Já era, é a Pós República! Nenhum regime, forma ou sistema de governo resiste a tão maciças doses de desinformação, manipulação e mentira.

 

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Marco Antonio Bergamaschi

Concordo que por enquanto a

Concordo que por enquanto a extrema direita tem poucos votos, a maioria deles canalizado para os candidatos tucanos. Ocorre que estes votos estão numa crescente e, o pior, as pautas da extrema direita ganha força como formadores de opinião, principalmente entre a classe média paulista. Estou assustado com a quantidade de amigos meus que incluiram nos seus discursos os termos bolivarianismo, ditadura petista, jornalismo chapa-branca (quando se referem a parte mais progressista da blogosfera), etc.

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Daytona

Claro que tem muita voz, eles

Claro que tem muita voz, eles tem a mídia. Eles têm o Judiciário também.

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Daytona

 "Felizmente, tirando os

 "Felizmente, tirando os deputados Feliciano e Bolsonaro, tem pouca presença institucional. "

Infezlimente, errado. Todo o Judiciário, com raríssimas exceções, é a encarnação da extrema direita, principalmente em sua sanha fascista de violar direitos e garantias fundamentais para promove ro justiciamento.

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Fernando Lopes

sanha fascista de violar direitos e garantias fundamentais!

Eu "tomei cano" em um jingle político que fiz para campanha do Sr. Luís Cláudio Chaves em su vitoriosa campanha para presidente da OAB MG. Enquanto tentava negociar uma forma de receber o pagamento tive o seguinte diálogo com um auxiliar do referido presidente da OAB MG:

(Eu) - Mas eu poderia entrar na justiça para receber este pagamento...

(O auxiliar) - Mas é aí que eles vão gostar (o pessoal do candidato) ! Porque para eles A JUSTIÇA É DELES !

E é assim meu caro Daytona, para os juízes, advogados, e etc a justiça do Brasil é um território particular onde eles podem fazer o que quiserem, não importam as leis! E aí de você se for discutir isso...

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Meire

E por falar em ética.

 

“É óbvio que FHC não deve se sentir confortável com esse avanço dos extremismos.”... Desconfortável?...Ele não ficou sabendo do véio gritando na passeata da direita, chamando a presidente de terrorista e escondendo (segundo sua lógica também velhaca) o passado do Aloisio Nunes, vice do Aécio.

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Conto do vigario

O PSDB esta agindo da mesma forma que o UMP age na França em relação aos extremistas: insufla-os, incentiva até certo ponto, engrossa a fala do moralismo, apoia leis racistas e conservadoras (UMP votou contra o casamentoo gay), tudo para ganhar esses votos. Depois, quando confrontados, se saem com essa, de que o partido foi empurrado para a extrema direita.  

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É isso. O Bresser Pereira  já

É isso.

O Bresser Pereira  já percebeu que não dava pra ficar nesse barco. Renato Janine ainda vai demorar mais.

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Já era, é a Pós República! Nenhum regime, forma ou sistema de governo resiste a tão maciças doses de desinformação, manipulação e mentira.

 

O R. Janine esta bastante atrasado!

A extrema-direita é muito ativa no Brasil:

1 - veja, globo, OESP e FSP tem claramente discursos de extrema direita. Só que a versão brasileira não é nacionalista, é entreguista.

2 - a maioria dos eleitores do PSDB (Aécio e Alkmin) que conheço em São Paulo, adotaram a retórica de extrema-direita, p.ex "mataram" o Youssef antes do 2º turno de 2014, e jogaram a culpa no PT. O fato do tal Youssef ter ressuscitado só prova que o PSDB é protegido de Deus...

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Yacov

Como a Marina, protegida pela

Como a Marina, protegida pela providen-CIA ...

 

"O BRASIL PARA TODOS não passa na REDE GLOBO DE SONEGAÇÂO & GOLPES - O que passa na REDE GLOBO DE SONEGAÇÃO & GOLPES é um braZil-Zil-Zil para TOLOS"

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Opção pragmática

O demotucanato tem feito a opção do pragmatismo político, acolhe a extrema direita para ganhar votos de uma faixa do eleitorado elitista que não consegue se representar com um candidato com chance real de vitória. Tentaram Caiado e não deu, de vez em quando ensaiam um bolsonaro, ou outro neonazista de pose e pouquíssimo estofo político que faz barulho, mas não emplaca. Então, para não perder esta faixa do eleitorado, "apoiam" medidas da extrema direita, mas não teriam coragem de defendê-las diretamente, fugiriam do pau, não tenho dúvidas.

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Luiz Machado

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Zanchetta

O perigo da extrema direita é

O perigo da extrema direita é o mesmo da extrema esquerda...

Ambos querem ganhar e manter o poder pela violência...

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Audrey Laiosa

e do jeito q a esquerda anda

e do jeito q a esquerda anda perdida, com a Dilma fazendo o contrário do q havia prometido na campanha, fica bem difícil contra-atacar os argumentos da direita.

Se a presidente não começar a dar um rumo pra esse governo urgente, um rumo q faça jus aos 54 milhões de votos q recebeu, ela vai conseguir unir o país em oposição à ela... aí sim, o país vai ser entregue de bandeja pra direita...

Q o panteão grego olhe por nós tb...

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altamiro souza

o discurso raivoso da direita

o discurso raivoso da direita é muito perigoso porque pega essa

faixa da população que se informa pela grande mídia golpísta

e que historicamente sempre fala com violencia contra o que supõe ser  suas crenças.... 

então basta um cara da direita falar emn pena de morte,

que logo esse pessoal é capaz de corroborar,sem

raciocinar as consequencias contra si mesmo.

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Extrema direita é mais perigosa - Exemplos

Nassif, a extrema direita tem votos, elege mais pessoas do que pensamos e possui cargos no executivo.É muito mais perigosa do que podemos imaginar e precisa ser combatida.

Vejam exemplo, pai e filho, do Paraná. Gustavo Cherubina. http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2015/01/secretario-de-seguranca-fracischini-ostenta-arma-na-cintura-em-programa-de-tv-9128.htmlBLOG DA HELENA

MAU EXEMPLO

Secretário de Segurança do Paraná ostenta arma na cintura em programa de TVSecretário de Segurança Pública do Paraná, deputado Fernando Francischini (SD), que recebeu verba de indústria de armas em campanha eleitoral, deu entrevista à TV Tribuna com um saliente revólver na cinturapor Helena Sthephanowitz publicado 23/01/2015 17:42 REPRODUÇÃOfrancischini

Secretário responde questões ao vivo em programa da TV Tribuna portanto arma de fogo

No estilo do velho oeste, o secretário de Segurança Pública do Paraná, deputado Fernando Francischini (SD), deu entrevista à TV Tribuna com um saliente revólver na cintura, dando péssimo exemplo jogando contra campanhas de desarmamento para reduzir crimes violentos e letais nas ruas.

Nem o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) chegou a este ponto. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, também deputado, foi armado a uma manifestação com pessoas que pediam a ditadura militar, mas o revólver estava em baixo da camisa, pelo menos.

Nesta semana mesmo, um policial de Santa Catarina alcoolizado discutiu com um surfista desarmado e o matou com dois tiros. Um tragédia decorrente de abuso e irresponsabilidade no porte de arma.

Apesar de policiais poderem andar armados em várias situações – e Francischini é delegado licenciado da Polícia Federal –, nada justifica a ostentação do revólver em um estúdio de TV cercado de toda a segurança e exibido para o grande público, inclusive para crianças, às 13h. A não ser o populismo barato de querer aparecer como um "xerifão", além do "merchandising" para a indústria de armas que já financiou sua campanha eleitoral.

Francischini recebeu da Taurus, grupo fabricante de armas, R$ 50 mil para sua campanha em 2010. Durante seu mandato de deputado era apontado como um dos membros da chamada "bancada da bala".

Com a reeleição de Beto Richa (PSDB/PR), o governador tucano nomeou Francischini secretário de Segurança Pública. Se os problemas com a criminalidade já eram graves antes, depois da nomeação do secretário, as dores de cabeça aumentaram, inclusive com um escândalo político e sexual envolvendo a secretaria.

Mal foi eleito, um membro do seu partido, o Solidariedade, Josimar Távora, foi preso no dia 12 de dezembro passado na cidade de Medianeira, por uma policial civil. O motivo foi assédio sexual. Uma gravação feita por ela mostra Josimar propondo uma ida ao motel em troca de ele intervir junto à Secretaria de Segurança para ela não ser transferida.

Como prova de sua influência, na gravação Josimar mostra diálogos como o deputado estadual Felipe Francischini, filho do secretário, de quem foi um dos coordenadores de campanha na região de Foz do Iguaçu.

Josimar fala que "recuperou" 300 mil da campanha, aparentemente enviados para vereadores e secretários municipais que não cumpriram a meta de votação combinada em suas cidades. Falta explicar se e como este dinheiro foi declarado à Justiça Eleitoral e se retornou ao fundo partidário como determina a lei. Afinal, se eram despesas de campanha, ganhando ou perdendo o dinheiro estaria gasto e não faz sentido "recuperar".

Na gravação, a policial simula acabar concordando com um encontro sexual, mas quando os dois se encontraram em um posto de gasolina, ela deu voz de prisão e Josimar ainda tentou tomar a arma dela, mas acabou preso.

As gravações são reveladoras e estão também publicadas em vídeo no Youtube:

Josimar Távora: Até quando o Francischini for secretário, mesmo se ele não fosse, durante os quatro anos do Beto, você vai estar sobre minha proteção...

Josimar: Viu, só 20 minutos o que eu tenho que fazer, eu faço. Tá?

Policial civil: ‘Tá’, eu vou.  [...] Vinte minutos de sexo vai valer a minha portaria?

Josimar: Vinte minutos! Vamos aqui pertinho.

Policial: É que agora eu não posso mesmo. Você sabe que eu iria...

Josimar: Vinte minutinhos... Nem vinte minutos? [...] Entendeu? A gente está aqui, já está resolvido...

Josimar: Qual é a pessoa mais próxima que organizou tudo nessa campanha? Fui eu. Se a doutora Tani (delegada) tivesse feito o que ela tinha prometido para nós, eu nem ia conversar com você, eu ia conversar direto com ela. Entendeu? Eu queria falar tudo para você, só que eu não vou falar tudo para você, resolver o seu problema e depois - aquilo que você falou - você não olha mais para minha cara. Só que você sabe que eu sei de tudo, entendeu? Toda a situação, tudo o que ocorreu, não sei a metade, eu sei tudo. Só para você ter uma ideia do naipe da conversa dos ‘cara’. Só para você ter uma ideia eu vou mostrar aqui umas gravações. Só para você ter uma ideia dos naipes das conversas. Nós recuperamos 300 mil da campanha, muitos ‘passou’ a perna em nós, entendeu? (mostrando imagens para ela) Essa aqui é minha loja. Esse aqui é vereador de Céu Azul, Brizolla. Esse cara é secretário de Santa Helena. Aqui ‘ó’. Para todo mundo sou representante, sou eu quem mando em tudo. Só para você ter uma ideia.

Deputado eleito Francischini Filho (em uma gravação): Aí Josimar, tudo bom? Já passou em alguns municípios daí, já ligou para alguns daqueles que traíram a gente para pegar de volta a ‘estrutura’? Quero ver os caras sambando agora.

Policial: Quem que é esse?

Josimar: Esse é o deputado, é o filho do Francischini.

Policial: E esse aqui?

Josimar: Aqui uma foto dele aqui ‘ó’.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Aí Jocimar, tudo bom? Já passou em alguns Municípios daí, já ligou para alguns daqueles que traíram a gente para pegar de volta a estrutura? Quero ver os caras sambando agora.

Josimar: Só vim dar o recado, depois se não devolver o dinheiro é com ele, daí.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Pode vir, Jocimar, só de manhã eu tenho compromisso na Assembleia, mas à tarde está um pouco mais liberado e especialmente à noite também. Só me liga antes daí.

Josimar: ‘Tá’ vendo? Só pra você entender as conversas.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Cara, o que teve de gente aqui. As minhas postagens no Facebook antes da eleição dava 100 curtir, 150 curtir... Vai acabar a eleição, qualquer coisa que eu posto dá 800 curtir, mil curtir... (Risada) Povo não tem ‘simancol’ mesmo. Falei para vocês... os prefeitos todos... não iam mandar ninguém embora que me ajudou, agora eles estão tudo precisando... agora é a deles que começa. Agora os foguetes apontado para os do prefeitos aí, né gente (risada).

Josimar: Agora, vou falar de um cara que a Tani indicou.

Indicado Tani (em gravação): Ô, Jocimar, você vai rodar um roteiro aí e já depois vou soltar vocês para ver uns ‘fiasqueiros’ lá de Matelândia, ‘tá’ uma vergonha. Assis Chateubriand também, Cafelândia... outra lá é Palotina também tinha que ‘tá’ com a gente... Teve um monte de município aí, que a gente vai rever. O Brizolla arrebentou, esse foi muito bom. Em Medianeira, a piazada foi bem também. Foz foi muito bom, cidade que é difícil fazer voto. Então, bola para frente agora. Passar a semana aí e vamos marcar o roteiro.

Josimar: Viu...

Policial: Ai, ‘tá’...

Josimar: Só para você ter uma ideia como está lá a coisa, então eu não posso falar pra você. Vou falar depois que eu sei que eu tenho intimidade com você, que eu sei que...

Policial: Tá, mas falando de mim... Eu quero saber de mim. Quem que quer me prejudicar? Por quê?

Josimar: Eu não posso falar...

Policial: Como que eu vou me defender? Como que eu vou saber que você está me defendendo? Mas como que eu vou saber?!

Josimar: Você viu o jeito da conversa lá. É só na segunda-feira, eu vou falar com o Felipe (Francischini), essa aqui eu não quero que mexe’. Pronto... Entendeu? Não tem ninguém que vai mexer com você. Nem o delegado-geral, ninguém.

Policial: Mas você quer sair e... é uma vez só?

Josimar: Não, vou sair uma vez com você, mas depois, se der, vamos sair mais vezes, entendeu? Eu vou ter que conversar com você... de repente você precisa de mim em outra situação, né? De repente você precisa... um cara está te incomodando, entendeu? E é rápido o meu negócio. É só uma ‘meia horinha’ só.

Josimar: Único jeito... tá?

Como se vê o secretário Francischini tem muito mais a fazer com a caneta para afastar influências políticas na secretaria que levam a propostas indecentes do que ostentar revólver em programas de TV.

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Gustavo Cherubine

Essa extrema direita no

Essa extrema direita no congresso vai votar em peso no eduardo cunha. Isso deixa claro que o moralismo deles é fajuto. A única coisa que nutrem é o ódio ao pt e uma salada de ideologias antissociais.

Pra eles os impóóóstos não retornam em serviços por causa da corrupção, e não porque, por exemplo, metade do orçamento da união é transferida para o estamento financeiro. São, pelo menos, R$ 2 bi por dia; por dia! Uma aritmética simples para a qual não dão o menor ouvido. Quando muito acham que é uma coisa "natural".

Além disso viram o real sair daquela maluquice de um pra um em relação ao dolar, que encareceu o vinho, a massa "italiana", a manteiga holandesa, etc., ao passo que viram o preço dos serviços aumentarem na relação direta do aumento do consumo das classes trabalhadoras em consequencia das políticas sociais e do salário minimo.

Acreditam, portanto, que o estado não lhes serve. Por isso nutrem também uma ideologia contra o estado e contra a política. Acreditam infantilmente na divisão mercado virtuoso e estado corrupto.

Tudo isso foi sendo cevado debaixo do nariz de setores que apoiam a situação que também acreditaram candidamente que basta melhorar "as condições materiais de existência" que a consciência acompanha.

Não estou otimista. Nenhum debate racional é possível com essa turma. Os donos da comunicação (principais formadores da vontade política) os tem como rebanho cativo e sabem que podem dispor deles como "guarda palaciana".

Não menosprezo a capacidade de operar estragos por parte desse pessoal. Estão bastante motivados.

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Já era, é a Pós República! Nenhum regime, forma ou sistema de governo resiste a tão maciças doses de desinformação, manipulação e mentira.

 

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