“O Popular”, Luís Fernando Verissimo e Temer, por Rogerio Maestri

Por Rogerio Maestri

A crônica que mais me marcou de Luís Fernando Verissimo foi a “O Popular”, que foi inclusive o nome dado a um livro de crônicas do autor na década de setenta, traça o perfil do chamado “popular” que sempre foi um observador da história sem jamais participar de seus fatos, o autor chama atenção de uma foto em que soldados ingleses estão trocando tiros com um franco-atirador irlandês e este popular impassivelmente com seu tradicional pacotinho de compras de baixo do braço, observa atentamente e em primeiro plano o evento.

Na saborosa crônica que li na edição de 1973 me marcou a tal ponto que ao relê-la 45 anos após, vi que tinha praticamente decorado todo o texto, pois bem, talvez Veríssimo esteja nos devendo uma atualização de seu personagem, para mim o mais marcante, “O Popular”, pois parece que o nosso vampirão presidente conseguiu um fato inédito no comportamento universal, transformar “o popular” de uma espécie de figurante observador num coadjuvante aos fatos políticos.

Olhei várias vezes o enigmático vídeo que mostra a tentativa de Temer em ganhar fama visitando a tragédia de São Paulo, e olhando com atenção vi algo que talvez o nosso grande cronista poderá reescrever parte de sua crônica “O Popular”, pois pela primeira vez os populares tentaram linchar Temer.

Veríssimo em sua crônica deixa claro que um popular não é um passante, muito menos um manifestante, é simplesmente um cidadão que saiu do mercado e por um mero acaso se viu frente a um evento marcante. Ou o tiroteio entre soldados e revoltosos, uma passeata, a passagem de um presidente.

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Lembro-me muito bem quando fui um popular, isto lá por 1964 quando o ex-ditador-presidente Castelo Branco saía do palácio do governo do Estado do Rio Grande do Sul pela porta da frente para pegar um automóvel na rua Duque de Caxias e seus seguranças interromperam a passagem das pessoas que transitavam naquele momento pela calçada e simplesmente me detive a observar o comportamento das pessoas que aplaudiam o general sem pescoço. Não aplaudi, nem vaiei, simplesmente observei, nos meus 11 anos de idade, fui um popular jovem, que observava, e se algum jornal da época publicou esta foto o título seria. “Presidente Castelo Branco sai do palácio aplaudido por seus correligionários e observado por populares”. E seria um desses populares!

Temer e o golpe estão conseguindo uma coisa inédita na história da humanidade, transformar os populares de meros observadores de figurantes para atores coadjuvantes, ou seja, perdendo o papel de meros observadores. Ou seja, o grau de desaprovação de Temer é tanto que sua popularidade testada nas pesquisas de opinião é tal que dentro da margem de erro das mesmas pode ser considerada no limite inferior ZERO.

No momento em que há uma ausência de popularidade, quer dizer que todo e qualquer indivíduo que seria taxado de popular é antipático a figura do Temer e levando com sigo a popularidade de algo mais intangível que é o golpe.

Se olharmos com cuidado as imagens, veremos que na cena existiam uma série de policiais, não sei se municipais ou da polícia militar de São Paulo, que simplesmente se tornam observadores do fato e nem correm para proteger a figura do presidente. Da mesma forma os guarda-costas do presidente ficam reduzidos a somente um que procura defender o presidente de objetos que começam a cair sobre ele, ou seja, em qualquer condição normal, policiais ou guarda-costas dos mais execráveis ditadores de qualquer país do mundo, tentariam cerca-lo e dar-lhe segurança, porém o máximo que fazem é abrir guarda chuvas para proteger de pequenos objetos.

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A imagem de Temer sendo cercado por populares que tentam o agredir, e que não conseguem mais pela presença dos repórteres que o cercam, talvez comecem a aprender que devem, como indica Veríssimo, ficarem um pouco mais distantes como observadores e não como protagonistas.

 

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5 comentários

  1. Queria ser vitima
    Temer foi lá para ser vítima, mais do que os sem teto. Ele queria levar uma perdrada e alimentar as intervenções. Queria mostrar que a segurança estava inviável, queria alimentar corvos.

    • Se foi lá por isto, é muito burro.

      Não acredito nesta hipótese, pois se fosse assim teria uma ampla combertura da mídia mostrando como foram mal com ele, porém como não foi nenhum movimento organizado, foram como coloco no texto, populares que estavam alí porque estavam passando de volta do trabalho ou das compras, fica extremamente mal mostrar que não precisa organização nenhuma para tentar apedrejar Temer, coisa que se ele ficasse mais cinco minutos teríamos isto.

      Porém as coisas são mais amplas do que isto, há um repúdio forte e latente contra o golpe, uma espécie de palavra presa na garganta que as pessoas não mostram nas próprias pesquisas sobre a aprovação aos golpistas.

      Outra coisa que também está indo rapidamente para o ralo, e se verá em outras demonstrações do tipo, é a perda de credibilidade dos militares como um “baluarte” de defesa da ordem, são meses de ocupação no Rio e como sempre diziam os que eram contra esta ocupação, não adianta para nada além de controlar a população e deixar as milícias agirem livremente.

      Este último ponto se verá nos próximos meses.

  2. Temer o popular
     

    Nem a PM nem a GCM se importaram de proteger o tiozinho no Largo do Paissandú?

    Ô lástima!

    E olha que ele é pré-candidato.

    Com essa popularidade “ele vai pra galera!”

    O temer ou tem avião próprio, ou vive no mundo de Bob, porque o tanto que ele “viaja”.

    Como é que um cabra desses, cheio de acusações, processos, denúncias, provas, malas de dinheiro e os cambaus de madureira e com essas demonstrações quase unânimes de “amor” por parte da população acha que pode ser reeleito?

    Lula tira forças do povo, e o temer,  da onde ele tira o óleo para a sua cara de pau?

    [video:https://youtu.be/t6GpR-Pp-kA%5D

  3. Imutável

    O popular continua observando os fatos pois falta-lhe confiabiidade nos indicativos do caminho a seguir. 

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