O possível desfecho do caso Marielle.

O possível desfecho do caso Marielle.

(Lisboa, 25/01/19)

 

     Marielle foi morta porque sabia da relação da família Bolsonaro com as milícias e estaria prestes a divulgar esta informação, talvez com provas mais contundentes do que as ilações que temos até agora. O mais provável é que esta informação prejudicasse a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro. As milícias, por sua vez, fizeram lobby para Bolsonaro a fim de elegê-lo na tentativa de legalizar suas operações criminosas. As suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo as contas da família Bolsonaro talvez estejam relacionadas com recursos oriundos das extorsões realizadas pelas milícias no Rio de Janeiro.

    Como se não bastasse, para eleger a horda primitiva dos Bolsonaros e seus demais apoiadores também eleitos houve uma espécie de estratégia de cunho militar de comunicação por meio da internet (Facebook e Whatsapp). Sabemos do papel dos filhos de Bolsonaro e empresários que angariam tal estratégia. Restaria saber se a cúpula do Exército teria ou não apoiado ou mesmo contribuído com ela. Logo após o extermínio de Marielle surgiram muitas falsas notícias tentando incriminá-la, sendo divulgada a mentira (e comemorada por muitos) de que ela teria relações com traficantes de drogas entre outras formas de denigrir a sua imagem e justificar seu assassinato.

    A estratégia do uso das redes sociais dos Bolsonaros possuía e ainda possui dois objetivos: 1- manipular informações e convencer pessoas mal informadas (com diferentes faixas de renda e graus de instrução, do nível mais básico até os mais elevados, mesmo parte do professorado); 2 criminalizar, amaldiçoar e deslegitimar a esquerda, porque a esquerda seria uma perigosa oposição, a fonte mais contundente de crítica e esclarecimento frente às manipulações na área da comunicação. Vale lembrar que a esquerda tradicionalmente realiza este tipo de abordagem, destacando-se os estudos em torno da teoria da chamada Escola de Frankfurt e o processo de fetichização da informação (nas palavras de Walter Benjamin é definida como estetização da política).

    Hitler e Mussolini chegaram ao poder usando estratégias similares, porém com as tecnologias disponíveis na primeira metade do século XX. O nazismo, porém, foi pioneiro no uso do cinema como forma de convencimento das massas através de sua propaganda. A versão contemporânea das manipulações dá-se hoje por meio das já conhecidas Fake news difundidas nas redes sociais e a partir das quais o clã Bolsonaro esquematizou praticamente todas as suas ações e estratégias para a campanha eleitoral.

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    Religiosos mais ferrenhos, falsos moralistas de plantão, jovens e universitários ingênuos, internautas que dão audiência a memes ou aos youtubers (muitos também manipuladores de informações), profissionais liberais, grandes contingentes de beneficiários dos programas ou políticas públicas foram convencidos e persuadidos de que os anos de PT no Brasil foram catastróficos. Primeiro com a mídia tradicional distorcendo dados econômicos e, depois, com as redes sociais atacando as demais políticas sociais dos governos do PT. Estes indivíduos foram direcionados a crer que todas as políticas petistas foram maléficas ao país. Não se trata aqui de afirmar que foi um governo perfeito e é certo que os casos de corrupção mancharam a imagem do Partido dos Trabalhadores. No entanto, a cegueira coletiva criada pelas redes sociais e a imprensa tradicional fizeram com que dados de fácil acesso de institutos de pesquisa e outras fontes científicas fossem ignorados, vulgarizando as interpretações a respeito do período histórico que mais dinamizou a sociedade brasileira desde a Era Vargas.

    O tema da corrupção foi utilizado como subterfúgio para criminalizar todas as demais políticas do PT, os demais partidos de esquerda e até indivíduos que mesmo sem filiação política exercem sua liberdade de expressão com posturas progressistas. O resultado disso é que os eleitores de Bolsonaro e muitos neoliberais funcionais passaram a criticar com maior intensidade ações ou políticas civilizatórias, como a educação sexual, a reflexão sobre a liberdade na formação do gênero, a distribuição de renda e democratização ao acesso à saúde pública Brasil afora, entre outras formas de promoção de direitos humanos e civis.

    A estratégia de comunicação de Bolsonaro obteve sucesso por ser compatível com uma sociedade de mentalidade ainda escravocrata, fortemente vinculada a tradições arcaicas e ideologicamente presa ao passado colonial.

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    O que ainda temos que nos perguntar (voltando ao caso Marielle) é qual a relação entre a lentidão das investigações com as milícias, considerando que há o envolvimento de policiais civis e militares e mesmo de alguns membros do Exército nas suas operações criminosas. O assassinato de Marielle ocorreu durante a intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro. Como então foi possível eliminá-la? A investigação teria sido e ainda é lenta para favorecer Bolsonaro e seus milicianos?

   Ainda é necessário haver esclarecimentos a respeito dos bastidores da campanha de Bolsonaro e os motivos exatos pelos quais o general Mourão foi escolhido como vice na chapa do atual presidente. 

 

 

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