O quebra-nozes, por Lúcio Verçoza

Quando escrever cartas era mais fácil do que falar pessoalmente. Quebrar as nozes era mais suportável do que pensar no resultado da prova

por Lúcio Verçoza

Te mandei papéis de carta, quando criança. Não lembro o que escrevi. Não lembro o que estava escrito. Achava que amor se mostrava com cartas. Não conseguia demonstrar amor de perto. Apenas na distância da carta. Não sei nem por que achava que te amava. Hoje, se te encontrar na rua, meu coração não baterá mais forte e nem mais fraco. Uma indiferença polar, fria como o ártico.

É estranho que eu tenha recordado disso. Por que recordei isso agora? Talvez pela árvore de natal. Meus natais eram tristes. Preso a espera da aprovação ou reprovação nas provas de recuperação de final de ano. Nunca tive nexo para matemática. Preferia os garranchos desenhados em papéis de carta. Não sei por que achava que isso era prova de amor.

Minha avó, que não acredita em religião alguma, jogou uma moeda para Iemanjá. Pediu para que eu passasse de ano. Nunca esqueci disso. Das cartas eu esqueci. Não lembro um verso. Da moeda no mar de Riacho Doce nunca esqueço.

Minha vó colocava na árvore papais noéis de chocolate embrulhados em fino papel alumínio colorido. Era uma tradição. Eu, meus irmãos e primos, devorávamos escondidos os papais noéis. Muito antes da ceia a árvore já estava completamente desfalcada. Devorávamos debaixo da mesa. Meu avô cortava o pernil ou o peru. Era somente nesse dia que eu via nozes e o mítico quebrador de nozes. Meu avô feliz. Minha avó alegre. Eu esperando o resultado das provas. A moeda no mar. O natal me metia medo. Assim como as meninas que recebiam minhas cartas. Meninas que eu mal conhecia.

O ato de quebrar as nozes me atraía mais do que comê-las. Era preciso força para quebrar uma casca tão dura. Era preciso jeito para não esfacelar o que a casca protegia. Escrever cartas era mais fácil do que falar pessoalmente. Quebrar as nozes era mais suportável do que pensar no resultado da prova. Se eu quebrasse dez nozes seguidas sem esfacelar o cérebro escondido na casca, talvez passasse de ano. As nozes pareciam cérebros. Pareciam carregar meus pensamentos. Eu queria que elas carregassem meus pensamentos. Meus pensamentos iam longe. As nozes iam para o estômago. As bocas sorriam. Meus lábios gelavam. A moeda no mar. A prova final. A luz do natal.

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