O sorriso do Nicolau

A história de Maquiavel escrita por Maurizio Viroli, que foi publicada no Brasil pela Estação Liberdade em 2002, tem inúmeras virtudes. Dentre as quais algumas merecem ser destacadas.

O livro contextualiza de maneira magistral a vida de Maquiavel. A história de Florença do final do século XV e início do século XVI foi ativamente vivida e construída pelo ilustre florentino. Maquiavel assistiu a ascensão e queda de Savanarola, participou ativamente da República como diplomata, foi preso, torturado e exilado quando a República caiu e o regime dos Médici foi restaurado. Ao final da vida escreveu A História de Florença sob encomenda de Leão X e, sob comissão de Clemente VII, ajudou a organizar a defesa militar da Itália contra a invasão do exército alemão a soldo de Carlos V.

À medida que entrava em anos e experiência, Maquiavel escreveu seus livros, que influenciaram profundamente a vida de seus concidadãos. “O Príncipe” foi odiado pelas suas virtudes. “A Arte da Guerra” lhe valeu a fama de perito em questões militares alcanço-o ao posto de assistente do engenheiro militar Pierro Navarra e Chanceler dos Procuradores dos Muros. O “Discurso Sobre a Primeira Década de Tito Lívio” influenciou profundamente seus admiradores a tentarem restaurar a república florentina mediante o assassinato do cardeal Giulio, sobrinho de Lorenzo Medici (Giulio viria a ser o Papa Clemente VII).

Quanto a vida privada de Maquiavel a obra é exemplar. Apoiado na correspondência de Maquiavel e de seus amigos, o autor dá um panorama detalhado de suas relações familiares, pessoais e amorosas. Nem mesmo os episódios mais ridículos de sua vida foram omitidos. É realmente fantástico descobrir sob a máscara do diplomata que manteve relações públicas com as maiores personagens de seu tempo, um homem comum que adorava os prazeres da mesa e da cama. Machia, como era chamado intimamente pelos amigos, foi um esposo dedicado e pai cuidadoso. Apesar disto, adorava as mulheres, frequentava as prostitutas e foi até acusado de sodomia. Seus amores inspiraram sua obra poética, suas desventuras amorosas suas comédias.

A vida do grande homem foi também uma tragédia. Cercado de poderosos e príncipes presunçosos, idiotas, néscios ou preguiçosos seus conselhos políticos e militares raramente surtiram efeito. Apesar dos relevantes serviços que prestou à República no cargo de Secretário, com a restauração dos Médici foi preso e submetido a tortura. Durante uma década amargou o exílio e uma vida modesta em Sant’Andrea in Percusina onde meditava sobre os grandes feitos políticos entre uma passarinhada e outra. Ao fim da vida, apesar de seu empenho na defesa de Florença e da Itália, não foi renomeado para o cargo que ocupara no Palazzo Vecchio quando o regime republicano foi restaurado.

“O sorriso do Nicolau” sugere que Maquiavel soube, contudo, contornar todos os males com ironia. Segundo os dados coletados por Viroli ele riu de si mesmo, riu de sua sorte e deu seu azar, e, sobretudo, riu de seus inimigos (dos quais cuidadosamente escondeu sua amargura e pesar para não dar-lhes a oportunidade de divertir-se às suas custas). Isto prova satisfatoriamente que a política não foi para Machia apenas uma dimensão de sua vida pública.

Mas para saber os detalhes da maravilhosa aventura história, literária e humana que foi a vida de Maquiavel será preciso saborear o livro. Não há no Brasil nenhuma outra biografia do ilustre florentino tão sugestiva, profunda, agradável e historicamente fidedigna como a escrita por Maurizio Viroli.  

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