O Vinho e as Verdades

Nem sempre inconvenientes.

Este 06 de Abril foi um dia muito, muito triste. Convalescendo ainda me permiti um Porto para tentar aquecer aquele pedaço de coração que ainda batia…

Lamentei, antes de tudo, por pessoas que prezo e que, de um lado, sofrem dor parecida – e sei como é lancinante a desesperança – e de outro comemoram essa vitória de Pirro, que vai lhes amargar a existência e corroer a consciência, sabe-se lá por quantos tempos.

Enquanto lágrimas lentas, pensamentos imersos na incredulidade e uma vontade enorme de sumir acompanhavam o momento de degustação, fui traçando uma linha do tempo a ver se conseguia enxergar onde se deu o terremoto no oceano que precipitou a onda…

Uma das primeiras imagens que me vieram foi a do “Inverno chegando”, “da Sombra avançando sobre Mordor”, associações visuais que faço frequentemente quando algo vem surgindo: uma idéia, um texto, um insight.

Tudo estava bem.

Estávamos felizes. Os dias transcorriam alegres, vivos, profícuos. Abundantes. Auspiciosos e esperançosos dias. Sonhos em construção, um “tom” de cooperação, um desejo de associação ao bom, ao belo.

A trilha incidental fazia tilintar, sopravam flautas, soavam acordes.

Vínhamos de um processo de libertação. A sombra nos encobriu por muito tempo e tateávamos e tartamudeávamos na esperança de não voltarmos a espetar nossos dedos nas rocas envenenadas nem a comer frutos mofados.

Buscávamos abundância e ela se apresentava, nos convidando ao desfrute de uma vida real, calorosa, plena de significado.

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Encontramos os “nossos” em cerimônias de reconhecimento, de celebração da liberdade, do amor, de louvor a uma visão de futuro há tanto almejada e agora possível de compartilhar.

Cercados de amigos, e novos amigos, não duvidávamos das intenções compartilhadas, dos objetivos comuns, do futuro sonhado: leveza e prosperidade, aprendizado e construção de uma vida simples, alegre, sonora. E nos acercaram. Nos sorriram. Compartilharam do café, da música, da dança. E nunca suspeitamos de que à espreita observavam onde nos ferir. Onde nos atingir. Onde agir: lá, onde nos faltasse habilidade, malícia, má intenção. Na dessídia, na dissimulação, na rasteira minúscula. Uma luta de armas desconhecidas para nós. Um campo de batalha estranho: do ódio, da inveja mesquinha, do fingimento, do subterfúgio. Como desconfiar de quem te recebe em casa, faz uma refeição contigo, te mostra céu e mar? Quem jamais faria isso para “entender” e “descobrir intenções e informações” sobre um desafeto, cai…

Um dia, só porque você desejou e expressou sua vontade de continuar lutando por um mundo melhor, você descobre que quem disse estar contigo, mentiu. Te traiu. Te apunhalou. Inventou um “powerpoint” sobre você, o que você disse, o que você fez. E que, convenientemente, uns tantos outros também estão incomodados com sua pretensão e resolvem endossar a falácia criada. E aproveitar a carona para satisfazer a si próprios. Cheios de convicções.

Você quer lutar o Bom Combate. Quer fazer as coisas da maneira correta. Pensa que teus atos tem que se manter fiéis ao teu pensamento. Que se você usar as mesmas armas, terá se tornado um deles…

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É… O vinho. Bebo muito pouco. Quase monasticamente. Mas o vinho faz as lágrimas abundarem.

Você não quer acreditar… Busca a Justiça. Ela não está lá. Pelo contrário. Ela é linha auxiliar. Ela é instrumento. Ela é conivente.

E te derrubam. E te ferem. E enquanto você sangra, atrai outros tantos. Riem de você. Usam o que conhecem: deboche, virulência, calúnia, destruição. Não conhecem nada diferente disso. Não há humanidade. Apenas o fogo sem calor, o sabor do sangue, o ressentir-se pela capacidade, pela sensibilidade e pelo amor que o outro faz surgir.

Você insiste. Fica por ali. Acha que não há outros limites a serem ultrapassados. Que não há mal maior a ser feito. E é de choque o despertar para a realidade: o imperdoável não é o que você fez, um erro ou outro que você cometeu. O imperdoável é você continuar respirando. É você continuar sendo quem você é.

E o vinho…

Como se alguém me estivesse chamando, meio que desperto e digo à meia voz: “Sim… Lula, Dilma! Foi assim com vocês?”

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