Peça 1 – os cuidados na análise

Para analisar o cenário atual, é fundamental tentar entender o contexto. Opiniões de parlamentares de oposição ou situação, de militares das Forças Armadas e militares de Bolsonaro, de Ministros do Supremo, só importam se vistas dentro de um contexto maior. São peças cujo funcionamento depende da maneira como a máquina é montada. E o funcionamento da máquina depende dos movimentos da opinião pública, não só a opinIão da mídia, mas também das redes sociais, conferindo o devido peso a cada um.

Se a opinião pública que conta – aquela que impacta a cúpula dos poderes – endossa jogadas de impeachment, impeachment haverá. As razões, arrumam-se depois.

Com Fernando Collor foi o Fiat Elba; com Dilma Rousseff, as pedaladas; com Eduardo Cunha o fato de ter escondido contas no exterior. Se não houver motivos sólidos, o Supremo tratará de dar a interpretação necessária, desde que haja o movimento da opinião pública. 

Afinal, no Brasil, os poderes são todos pró-cíclicos, da mídia ao Supremo.

Peça 2 – o inquérito das rachadinhas de Flávio Bolsonaro

O inquérito sobre as rachadinhas, do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, é devastador. Já houve casos de parlamentares cassados por recolher parte dos salários de seus assessores. Flávio Bolsonaro foi além: criou assessores laranjas que recebiam sem trabalhar e repassavam a parte do leão para ele.

Há fortes indícios de que  Fabrício Queiroz pagava mensalidades das escolas dos filhos de Flávio Bolsonaro, e outras despesas, com dinheiro vivo. Há indícios fortes de lavagem de dinheiro em operações com imóveis e na loja de chocolates.

O inquérito ainda apurou troca de dinheiro entre Queiroz e Adriano da Nóbrega, o miliciano chefe do Escritório do Crime, morto pela Polícia Militar da Bahia. E provas robustas de que o advogado e conselheiro pessoal da família Bolsonaro, Frederick Wassef, escondeu Queiroz em sua casa.

Mais: Bolsonaro saiu em defesa de Queiroz afirmando que seu exílio em Atibaia se devia a tratamento médico. E foi desmentido pelo hospital local, que jamais tratou Queiroz.

Todos esses dados são relevantes para a Justiça, mas muito mais relevantes para a opinião pública. Com Bolsonaro popular, haveria a multiplicação de narrativas inocentando Flávio e minimizando as acusações, com argumentos padrão primário, tipo “fez, mas quem não fez?”.

Mas, depois que o Ministro Alexandre de Moraes colocou o pé na porta e impediu Bolsonaro de continuar blefando com anúncios de endurecimento político, de chamamento ao golpe, abriram-se as comportas do Judiciário. As reações de Bolsonaro, de enfrentamento com bravatas, ameaças vãs, conflitos permanentes, ajudaram a consolidar a convicção dele joga poker com par de paus e apenas tenta ganhar tempo para um golpe no futuro, armado do Exército de Brancaleone de Youtubers tresloucados.

Peça 3 – as estratégias pensadas pelos Bolsonaro

Peças isoladas, enviadas pela cobertura de Brasília, indicam as seguintes alternativas de reação de Bolsonaro, pensadas por seu grupo próximo para evitar a cassação da chapa.

Estratégia 1: Invocar as Forças Armadas

Blefe. Ninguém acredita mais. Desde que Alexandre de Moraes pagou para ver, ficou cada vez mais nítido que o dispositivo militar de Bolsonaro se resume aos militares que levou para o governo – e que hoje amargam a parceria no fracasso sanitário, econômico e político.

Estratégia 2 – parar de falar de Queiroz, deixar a bomba explodir no colo do filho e deixar a guerra diária de lado.

É a chamada política de redução de danos, ou de entregar os anéis para poupar os dedos.

Inimaginável em uma mente bruta e primária como Bolsonaro. 

Primeiro, porque, calando-se, perderá a única base que lhe resta: os fanáticos de redes sociais.

Segundo, porque a única estratégia que conhece é a do confronto. Não é capaz de elaborar estratégias políticas, discursos consistentes, gestos expressivos em direção à pacificação. É vítima da síndrome do escorpião.

Terceiro porque, calando ou não, será incapaz de se dissociar da figura de Queiroz e dos milicianos cariocas. Menos ainda de seus filhos.

Estratégia 3 – Montar frente com o Centrão

O Centrão é fundamentalmente oportunista. E oportunista que se preze não se prende apenas aos benefícios do presente, mas ao cenário futuro. E o futuro de Bolsonaro depende fundamentalmente dos julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral.

Aliando-se ao Centrão, haverá uma desidratação maior do que restou de sua base de apoio, e um aumento das pressões pela cassação.

Estratégia 4 – montar um Ministério de notáveis

Na fase final do seu governo, Fernando Collor montou um ministério de notáveis. Até conseguiu bons nomes, especialmente do universo carioca, que ele frequentava há tempos como membro da elite dourada carioca – o pai foi sócio de Roberto Marinho, ele se casou com uma Monteiro Aranha.

Que notável aceitaria trabalhar para um governo que tem à frente Jair Bolsonaro, ainda mais sabendo-se que ele jamais aceitaria o papel de rainha da Inglaterra – aliás, a expressão é indevida para um sujeito de tão má catadura como ele.

Peça 4 – a debandada das hostes bolsonaristas

Como previmos aqui, a partir do momento que o STF se apresentou como poder moderador, enfrentando Bolsonaro, sua estrutura se desfez como um castelo de cartas.

Aquela tropel de selvagens que invadiram as redes sociais, o parlamento, as ruas, estão refluindo com tal rapidez que surpreende.

Abraham Weintraub, a figura mais caricata do governo, é demitido e nomeado para um trabalho fora do país, ao qual ele adere rapidamente, deixando claro sua pressa em se afastar da rinha e seu medo de ser preso.

Youtuber agressivos expressam, agora, o medo da prisão, como se, só agora, tivessem despertado da viagem lisérgica a que foram levados por Bolsonaro, para um mundo no qual todos os abusos eram permitidos. Voltaram a ser os provocadores de rua, que saem correndo assim que aparece a polícia.

Os financiadores se recolheram, a ponto de evitarem até a ajuda ao seu guru maior, Olavo de Carvalho.

O círculo próximo a Flávio Bolsonaro tenta arrumar outro advogado, sabendo que Wassef também poderá ser preso.

A semana terminou com a cena humilhante – para Bolsonaro – de enviar três Ministros da área jurídica até a casa de Alexandre de Moraes, em São Paulo, para negociar o armistício.

Desapareceu a arrogância ignorante dos filhos. Eduardo, para quem bastaria um sargento e um cabo para fechar o STF, apareceu em uma live como se fosse um pobre defensor da democracia (dele), perseguido pelos poderes.

Não se lê mais as mensagens de Carlos Bolsonaro, o copydesk do pai, nem de Flávio, o representante comercial da família.

A grande aposta é sobre qual filho será o primeiro a ser preso.

Nesse quadro, torna-se mais premente do que nunca as forças democráticas começarem a discutir a transição, sabendo-se que, no Brasil, inclinações democráticas, responsabilidade social, solidariedade com os oprimidos – como expressos hoje pela maioria da mídia – não são valores consolidados, mas meros modismos, que podem se desfazer ao primeiro vento contrário.

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18 comentários

  1. Nunca antes na história do Brasil se fechou tantas empresas, em 3 meses do VÍRU$$$ não liberaram 1 real ao pequeno e médio empresário e isso tendo q ficar fechados,em um claro estímulo ao endividamento em bancos,odeio parecer com Bolso mas este vírus tem chance de morrer de 1%(letalidade,incluso não notificadas) NÃO NECESSITARIA PARAR TD ASSIM SEM NENHUMA ASSISTÊNCIA,na Argentina se proibiu a demissão,aqui,a farra do boi ou do vírus,este governo tem muita responsabilidade na desgraça econômica q está ocorrendo e olha q a segunda,terceira e quarta onda do VÍRU$$ nem chegou ainda,novamente, Bem-vindos a REVOLUÇÃO 4.0 DA EXPLORAÇÃO DE DOENÇAS,o mundo não será mais o mesmo(pq quem deveria defender os trabalhadores,empresas,a economia, nada fazem)

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    • Seguindo o exemplo da Argentina, bastaria o governo federal proibir as demissões. A perda de receitas seria coberta pelo equivalente ao auxilio emergencial aos CNPJs, o bolsa família já estava socorrendo os invisíveis e o auxílio Emergencial seria muito menos abrangente.
      Infelizmente o posto Ypiranga só se preocupou com as grandes empresas, além de negar a pandemia o tempo todo. “É só uma gripezinha” “e daí?” Deu no que ESTAMOS assistindo. Brasil virou um pária mundial. Só temos a agradecer à política do amado presidente de todos os gados que o seguem.

  2. Estamos diante de uma oportunidade histórica de colocar as forças armadas no seu devido lugar e acabar de vez as suas intervenções na política,q tal fazê-los CUMPRIR A LEI e mandá-los p a reserva e se retirar da política? Não terá outra chance já q este governo foi ncentivado e colocado no poder com o total apoio das forças armadas,e já é o PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DO BRASIL,um fracasso retumbante,se não fizerem as mudanças agora,jamais farão,mídia & outros sem acordo,ou vcs serão o próximos,ainda não entenderam isso ?

    • Mandá-los pra reserva ? Não ! Não vamos passar pano mais uma vez aos militares entreguistas. Dentro da Lei, eles devem ser julgados e punidos de acordo com a Lei. São traidores da Pátria, golpistas, marginais à Constituição.
      É muito pouco mandá-los pra reserva. Eles precisam ser expulsos de campo.

  3. a parte mais patética de boçalnaro (se é que há mais patética) foi se dizer não defensor de meu xará queiroz e, depois, declinar os suspostos abusos da polícia judiciária. salienta-se e é de se elogiar o trabalho do juiz que determinou a ordem e o delegado que fez a engenharia de captura: não saíram às seis da manhã espalhafatosamente; nem a globo sabia; como foram ao domicílio de um advogado, alertaram a oab, como manda o estatuto da advocacia; o aparato particular de boçalnaro só foi saber quando já na residência; o juiz, quando dá entrevista, já adverte aos jornalistas que não se pronunciará sobre causas em andamento. uma aula de como o poder judiciário deve e tem de ser civilizado, pois é o Estado-razão. totalmente diferente dos arroubos autoritários do stf, das atencipações de votos em jornalecos, que formaram a pedagoia do trf do sul, quando um desembargador disse que não tinha lido a sentença do marreco, a qual deveria debruçar-se numa futura análise, mas tinha certeza da impecabilidade do texto. quer dizer, o alexandre de moraes só avançou contra malucos primários, sem foro, sem advogados, com ameaças vãs, além de deputados da cámara dos comuns. o juiz do Rio de Janeiro, mais assembleia do Rio têm demonstrado que ainda vige a democracia. faz juz à História do Rio de Janeiro, que já testemunhou variegadas ondas políticas. um verdadeiro alento que não tem nada a ver com o stf, diga-se, como quer fazer crer a teoria do fato de Nassif.

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  4. Nassif: vou bater numa tecla que já tá ficando gasta. O TenenteJair é rabo de cobra. Tipo guizo de cascavel. Medo mesmo haver-se-á de ter da RepúblicaDosCoroneis no cenário da DemocraciaDaBaioneta que estão plantando. Aí sim, reside a desgraça. Os VerdeSauvas, até pela natureza profissional, são homens preparados para matar. E só isso sabem e são capazes. Aqui e ali sai um ou outro com pendores sociais. Mas ou se integram na patota ou são engolidos no Formigueiro. Agora, imagine num mundo (local e exterior) de alta complexidade política, econômica e social um cara desses atuando como “comandante político” da bagaça. O fiasco não dá outra. Em Pindorama até parecem vassalos, ômes de muitas bandeiras (USA, Israel, Ucrânia etc.), hasteada num só mastro. Transmitem a impressão de serem meros sabujos, guardando o Quintal (onde moramos) pros grileiros de outros hemisférios. A natureza dos peçonhentos é usar o veneno para matar suas presas e digeri-las no altar da Nação… Por isso o mílico do ValeDaRibeira mais parece uma vítima do sistema militar, do qual foi expulso com “honras” (passou a Capitão) do que um famigerado “algoz”. E você não se esqueça, quando derrubar a Bastilha cuidado a guarda palaciana que vai colocar. O SapoBarbudo deu mole nessa e se fu…

  5. Nassif,

    Ler seu texto me trouxe, de volta, uma sensação de poder respirar …é como se a nuvem negra, após meses de tempestade, estivesse finalmente indo embora, aquele nó na garganta.
    A devastação ocorrida no país nesses últimos 04 anos está custando caro a sociedade, espero que sirva como aprendizado.

  6. Derrotar Bolsonaro não significa necessariamente derrotar o golpe. O golpe vai muito além de Bolsonaro e nenhuma das iniciativas tomadas até agora sinalizam para uma reversão da marcha do golpe. O judiciário, partícipe de primeira hora do golpe, apenas está tentando afastar um condutor inconveniente. Para que possamos começar a falar em retorno dá normalidade democrática a condição sine qua bom é anulação imediata de toda a farsa jurídica que envolveu o julgamento de Lula e José Dirceu.

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  7. Que forças democráticas irão discutir a transição? Essa discussão simplesmente não está em pauta.
    É por isso que as forças realmente democráticas não estão nesse meio.
    O sujeito que ocupa a presidência da república não cairá. Nem tão pouco fara´algo diferente do que foi seu desgoverno até o momento: Acabar com qualquer parte de assistência do Estado aos mais necessitados e vender. Vender tudo e um pouco mais. É isso que essa gente quer. A pressão que existe,nesse momento,é somente um recado para acelerar esse processo.
    Aos incautos e aos iludidos não sobrará nada.

  8. Mais provável que, uma vez acertado o armistício à direita, voltemos ao jogo de sempre do capital versus o trabalho.

    Na política, a democracia social do lulismo versus a democracia (fascismo) de mercado do antipetismo.

    Com o armistício, volta ao palco como ator principal a “Elite do Atraso” – na feliz expressão do inigualável Jessé Souza – responsável pelo Brasil de sempre, um dos campeões mundiais de desigualdade social.

    Não voltamos ainda a ser campeão mundial, pelos resquícios ainda existentes dos programas sociais como o Bolsa-família, e, principalmente, pelo valor do salário mínimo atual, que teve aumento de 70% durante os governos do PT.

  9. Bolsonaro já caiu e seus filhos já foram presos, ele corre risco, e todos os cúmplices devem estar procurando uma boa, se existisse, desculpa.
    Mas é o golpe que tem que ser derrotado e revertido.
    Bolsonaro é o retrato fiel do golpe da globo, do judiciário, dos empresários, dos generais de palácio.
    É o golpe que tem que ser revertido, se não a desgraça da destruição do país continua.
    É o golpe que tem que ser revertido.

  10. Não subestimemos a capacidade deste psicótico, pois eie já provou ter competência para transformar derrotas em vitórias, infelizmente. Por exemplo, fez do aumento de 200 para 600 reais conseguidos pela oposiçao, sua força que mantém os fiéis eleitores da classe de baixo como popularidade que afasta até o momento a abertura de impechment pela câmara. A globo quer um acordo para não passar de golpista mais uma vez, dado que foi a propulsora das quedas do collor e da Dilma. A política é a arte de trair para os da direita. Entre trair o povo e a democracia, é claro que o centrão prefere trair o povo. O cara já mandou emissários ao Kojac; com excessão do Pt, ninguém afirmou expressamente ser a favor do impchment; a esquerda, graças ao loque do ciro, está dividida; o povo não pode sair as ruas, e eu não acredito que se possa mandar pra casa um presidnte só fazendo panelaço nas janelas. Há sinais de que a pandemia está entrando em momento de estabilização. Quando ocorrer a estabilização e queda no número de casos, a economia tende a melhorar, pois o povo não vê a hora de sair pras ruas e consumir, mesmo que seja sem grana. Com isso, tende-se aumentar a populardade do psicótico. O maia não coloca o impechment na ordem do dia, já que está tendo tudo o que quer para não o fazê-lo. Celebras-se a o novo comportamento do psicótico com stf e com tudo. E por que que isso pode ocorrer? Porque eles continuam os mesmo. Enquanto houver uma possibilidade mínima do Pt vencer uma eleião presidencial, eles continuarão abraçando o capeta, se preciso, mas não deixarão.Só tem um detalhe importantíssimo neste momento: se não derrubarem o psicótica agora, não o derrubam nunca mais.

  11. “Afinal, no Brasil, os poderes são todos pró-cíclicos, da mídia ao Supremo.”

    Nem sempre. Depende do momento em que se está. Como são covardes, sórdidos, esses tais “poderes” só se tornam “pró-cíclicos”, no sentido que parece ser atribuído aqui, de não resistir à maré, quando seus membros percebem que perderão se resistirem. Mas, enquanto podem, resistem. E muito. Principalmente quando contrariam os fracos e pobres. Neste caso, são bravos, beletristas, destemidos. Portanto, cabe esta ressalva, que deve ser atentada nos próximos artigos.

    Mas o recado do artigo foi muito bem dado, devo reconhecer.

  12. + comentários

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