Onze cruéis casos de mulheres excepcionais da História que foram abafadas por homens, por Sara Navas

Do El País 
Traduzido pelo GGN

Se o mundo tivesse sido justo, estas mulheres corajosas estariam nos livros de História

por Sara Navas

Dia Internacional das Mulheres 2018

1 – Penélope: Humilhada por seu filho na Odisséia

Quem: Penélope: mulher de Ulysses na “Odisséia”, de Homero. Criação: século VIII antes de Cristo.

Como foi silenciada: A acadêmica e escritora Mary Beard (Reino Unido, 1955) registra no seu livro “Mulheres e poder” (Editorial Criticism) o primeiro exemplo documentado onde um homem cala uma mulher em público. Este momento é encontrado na “Odisséia”, um poema épico que Homero escreveu há mais de 3.000 anos. Nele, ele relata as aventuras que Ulysses teve que enfrentar para voltar à casa depois da Guerra de Tróia. Enquanto isso, sua esposa Penélope espera por ele em casa, e seu filho, Telêmaco, começa a se tornar um homem. O momento de plenitude de desenvolvimento de Telémaco como um homem precisamente vem quando ele silencia sua mãe diante de uma multidão: “Minha Mãe, entre à casa e se ocupe de seus trabalhos, o tear e a costura… A história estará nas mãos dos homens e especialmente dos meus. Minha é, portanto, a governança desta casa”. O texto evidencia como as vozes das mulheres são caladas na esfera pública desde que a Histórica começa a ser documentada. O que Homero coloca na “Odisséia” é uma análise que mostra como uma parte importante da transição da fase infatil a adulta do homem passa por aprender a controlar o discurso público e, ao mesmo tempo, silenciar as mulheres. Asunción Bernárdez Rodal, jornalista e diretora do Instituto de Investigações Feministas da UCM, afirma que um dos principais problemas está no fato de que “as mulheres são tratadas como eternas crianças”. Provavelmente, deviso a isso e tal como Mary Beard destaca no seu livro, a voz da mulher não interesse. A autora coloca como exemplos atuais práticas como a do Parlamento do Afeganistão, onde desconectam os microfones das mulheres quando os parlamentares não desejam ouvir. Na imagem, a pintura “Penélope con su suitors” do pintor Bernardino Pinturicchio (1509).

Dia Internacional das Mulheres 2018

2 – Fanny Mendelssohn: A compositora que foi silenciada por seu pai e suas obras roubadas pelo seu irmão

Quem: A compositora Fanny Mendelssohn (Alemanha, 1805-1847).

Como foi silenciada: A compositora – além de ser conselheira do Instituto de Pesquisa Feminista da Universidade Complutense de Madri – Mercedes Zavala lembra ao ICON da história de Fanny Mendelssohn: “Fanny recebeu a mesma educação musical privilegiada que seu irmão Felix Mendelssohn, mas seu pai, filho do filósofo Moses Menselssohn, apoiou a carreira do filho e proibiu sua filha de dedicar-se profissionalmente à música. Várias cartas e testemunhos da própria Fanny mostram como seu irmão cresceu profissionalmente, enquanto ela se viu forçada a concentrar sua carreira em gêneros que eram liberados, ainda que na privacidade de sua casa. “Seu primeiro ‘lieder'” (letra lírica curta que forma um poema) foi publicado com a autoria de F. Mendelssohn. Anos depois, Felix reconheceu que a composição era, na verdade, de sua irmã. Seu pai teve que morrer para que Fanny pudesse ter a liberdade de impulsionar sua carreira artística. Seu irmão continuou a se opor a publicações da irmã sem que sua identidade fosse ocultada, mas desta vez Fanny permaneceu firme. Ela faleceu prematuramente aos 42 anos, antes de obter o reconhecimento que merecia. “Com a sua morte, Félix reconsiderou e publicou algumas de suas obras, embora ele não tivesse muito tempo de vida [morreu em novembro de 1847, seis meses depois de Fanny], que restou pouco tempo para a divulgação de sua música”, disse Zavala. Na imagem, o retrato de Fanny Mendelssohn de um artista anônimo.

Dia Internacional das Mulheres 2018

3 – Rosalind Franklin: A cientista que teve suas descobertas roubadas por dois homens

Quem: A biofísica Rosalind Franklin (Reino Unido, 1920-1958).

Como foi silenciada: Suas descobertas no campo do DNA deram origem a um dos avanços científicos mais importantes do século XX: a fotografia 51, uma amostra clara da estrutura de dupla hélice do DNA. No entanto, como Marisa Kohan explica em seu artigo “As mulheres que mudaram a ciência, mesmo que não toquem seus nomes”, durante muitos anos foram os cientistas James Watson e Francis Crick que reivindicaram essa descoberta como seus, levando todos os méritos e até mesmo o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1962. A descoberta ficou conhecida na história como “a hélice de Watson” e Rosalind Franklin morreu (aos 37 anos) por um câncer causado por suas longas exposições à radiação, sem receber o reconhecimento que ela merecia. Anos após a morte da biofísica, James Watson confessou que ganhou o Prêmio Nobel graças às revelações de Franklin, a verdadeira descobridora da Fotografia 51. Na imagem, Rosalind Franklin, fotografada em 1955.

Dia Internacional das Mulheres 2018

4 – Olympe de Gouges: Traída por seus próprios companheiros revolucionários por ser uma mulher 

Quem: Olympe de Gouges (França, 1748-1793), autora da Declaração dos Direitos da Mulher e ativista fundamental na Revolução Francesa.

Como foi silenciada: Ele foi uma das principais vozes durante a Revolução Francesa de 1789. No entanto, os integrantes homens foram os responsáveis ​​por retirá-la das divulgações públicas da revolução, tornando o seu nome não reconhecido. Suas conquistas foram enterradas sob figuras masculinas que passaram na história, mas Olympe de Gouges foi a autora da Declaração dos Direitos da Mulher e do Cidadão em 1791. Além disso, ela elaborou muitos dos textos que deram sentido à revolução que acabou com a monarquia absoluta e lançou os alicerces da democracia moderna. Assunção Bernárdez Rodal, jornalista e diretora do Instituto de Pesquisa Feminista da Universidade Complutense de Madri, explicou ao ICON que Olympe era marginalizada e relegada dos créditos por seus companheiros revolucionários, simplesmente porque era uma mulher. “Eles proibiam as mulheres de lidar com questões políticas e sociais”, disse a jornalista. Depois de anos de luta defendendo seus ideais, Olympe de Gouges acabou na guilhotina em 1793, após criticar publicamente a ditadura de Robespierre, também conhecida como a ditadura do terror. Na imagem, um retrato de Olympe de Gouges.

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5 – Mary Wollstonecraft: A ativista marginalizada quando seu marido divulgou suposto escândalo de sua vida pessoal

Quem: A ativista feminista Mary Wollstonecraft (Reino Unido, 1759-1797).

Como foi silenciada: Com seu trabalho “A reivindicação dos Direitos das Mulheres” (1792), Wollstonecraft estabeleceu os alicerces do feminismo moderno. Nele, ela argumentou por que as mulheres não são, por natureza, inferiores aos homens e mostrou que a única razão para isso parecer verdadeiro é porque as mulheres nunca receberam a mesma educação. No entanto, após sua morte, seu marido – o filósofo William Godwin – queria fazer uma homenagem, publicando uma biografia aonde falou abertamente sobre o estilo de vida que a ativista levava. Embora não seja o que Godwin pretendia, isso destruiu a reputação de Wollstonecraft. Durante décadas, até que as novas correntes feministas do século XX e escritores como a Virginia Woolf a redescobriram, o único que se lembravam dessa defensora dos direitos das mulheres era sua “escandalosa” vida pessoal (relações extraconjugais mantidas, filhos ilegítimos, etc), e não tudo aquilo que seu trabalho representou para o avanço da sociedade. Na imagem, um retrato de Mary Wollstonecraft.

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6 – Mulheres anarquistas ignoradas por seus próprios parceiros homens

Quem: As mulheres anarquistas que lutaram tanto quanto os seus companheiros homens, na década de 1930, pelo que acreditavam ser justo para a sociedade.

Como foram silenciadas: As mesmas organizações anarquistas que defendiam uma sociedade igualitária, sem estratos, hierarquias ou diferenciações, desconfiavam das mulheres e as desprezavam. “Os homens não entenderam que as mulheres poderiam criar organizações especificamente sobre elas. E isso não ocorre apenas com o anarquismo, mas também com o comunismo e o socialismo, o que deixou a questão das mulheres no dia seguinte à Revolução. Os feminismos aparecem porque há uma desconfiança das mulheres trabalhadoras em relação às próprias organizações, uma vez que são ignoradas. Por exemplo, os sindicatos se encontraram à noite. As mulheres trabalhadoras não participaram dessas reuniões porque estavam cuidando de seus filhos”, explica o professor Dolors Marín, que começou a investigar a história do anarquismo aos 17 anos. Na década de 1930, na Espanha, as mulheres foram forçadas a criar organizações de mulheres para lutar para que elas pudessem ter educação e trabalho igualitários. Mujeres Libres – a primeira organização autônoma, proletária e feminista que emergiu na Espanha – teve como missão acabar com a escravidão tripla das mulheres com a ignorância, capital e homens. Na imagem, um cartaz da organização Mujeres Libres.

Dia Internacional das Mulheres 2018

7- Ada Byron: A pioneira matemática esquecida

Quem: Ada Byron (Reino Unido, 1815-1852), a única filha legítima do poeta Lord Byron, foi a primeira programadora matemática da História.

Como foi silenciada: Com base em uma palestra do matemático Charles Babbage, Ada Byron descreveu a máquina analítica de Charles Babbage e desenvolveu uma linguagem de programação matemática que hoje é considerada como o primeiro programa de computador. Assim, tornando-se a primeira pessoa a ser programador matemático da história. No entanto, ela não era reconhecida como tal por ser uma mulher. Levou quase 130 anos depois de sua morte para a História para fazer justiça a ela, o que ocorreu somente em 1979, quando o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou uma linguagem de programação baseada em Pascal chamada ADA em homenagem a Lady Byron. Foi o primeiro reconhecimento de seu trabalho após sua morte. Este idioma é atualmente utilizado nas indústrias aeroespacial, militar e nuclear e influenciou línguas posteriores. A matemática morreu com apenas 37 anos (devido a um câncer de útero) antes que seu trabalho fosse reconhecido. Na imagem, um retrato de Ada Byron.

Dia Internacional das Mulheres 2018

8 – Camille Claudel: ofuscada por seu amante, Rodin 

Quem: A escultora Camille Claudel (França, 1864-1943).

Como foi silenciada: Camille Claudel foi vítima de seu professor e amante, o escultor Auguste Rodin. Mas ela também foi vítima de sua família e sociedade misógina, que sempre se opôs a fazer da arte sua profissão em vez de se dedicar a o que eles, como a sociedade da época, consideravam o trabalho mais apropriado para uma mulher. Tiveram que passar muitos anos depois de sua morte para que reconhecessem seu talento como escultura e valorizá-lo além de seu relacionamento com Rodin. Relação tormentosa, pela qual perdeu a cabeça até ser diagnosticada com “mania persecutória sistemática acompanhada de delírios de grandeza”. Rodin a enganou por uma década e até a convenceu a abortar quando ela esperava um filho dele. Camille não conseguiu superar a traição e a levou a passar os últimos 30 anos de sua vida, a pedido de sua família, em um hospital psiquiátrico em Paris. Hoje se especula que Camille, que desde a infância se destacou por seu talento com a escultura, poderia ser a verdadeira autora de muitas das obras mais conhecidas de Rodin. No entanto, seu trabalho nunca obteve um reconhecimento que correspondesse às suas conquistas.

Dia Internacional das Mulheres 2018

9 – Alma Reville: encurralada pelo narcisismo de seu marido, Alfred Hitchcock 

Quem: Alma Reville (Reino Unido, 1899- EUA, 1982), roteirista e uma das primeiras cineastas femininas da História do cinema.

Como foi silenciada: Alma Reville começou a trabalhar na indústria cinematográfica com apenas 15 anos. Ela trabalhou como editora quando conheceu Alfred Hitchcock. “A mulher por trás do homem”, a biografia escrita pela única filha do casamento, Pat Hitchcock, assegura que o diretor confiava cegamente no instinto e na opinião de Reville. No entanto, a roteirista teve que viver em uma sociedade aonde as mulheres não reivindicavam o reconhecimento que mereciam. O ator Anthony Hopkins, que interpretou o diretor de “Psycho” no filme “Hitchcock”, argumenta que ela foi a chave para o sucesso do trabalho de Hitchcock, mas “preferiu ficar no fundo porque sabia perfeitamente que seu marido era um narcisista”. Hoje é sabido que Alma Reville colocou de lado sua carreira em benefício do diretor e foi responsável por escrever a maioria dos roteiros dos filmes de Hitchcock. Seu conhecimento e sensibilidade foram fundamentais no trabalho cinematográfico de seu marido, mérito que nunca foi reconhecido em vida. Na imagem, Alma Reville fotografada por Pierre Vauthey em 1968.

 Quem Aleksandra Kollontái (Rússia, 1872-1952), precursora do feminismo socialista. O objetivo principal desse movimento era libertar mulheres de laços, como família, maternidade e sexualidade. Como foi silenciado. Kollontái veio de uma família aristocrática que encarnava tudo contra o qual ela começou a lutar desde 1896. Naquele ano, ela deixou seu marido e filho para se juntar ao Partido Socialista Russo. Enquanto ele teve a satisfação de Lenin, Alexandra Kollontai promulgou várias leis que garantiram a libertação das mulheres: ele deu o casamento de um caráter igualitário entre os cônjuges, com o apoio de um divórcio e concebeu um número de instituições como creches, infantários ou lavandarias públicas que as obrigações descarregadas para as mulheres. Porém, seu poder político estava ligado a Lênin e terminou quando ele negou seu apoio, dispensando-a da liderança do Departamento de Mulheres Trabalhadoras e Mulheres Camponês do Partido Bolchevique (conhecido como Zhenotdel). Os ideais de Kollontái, além de serem rejeitados por Lênin, foram criticados por muitas mulheres socialistas. O defensor do socialismo feminista acabou relegado às tarefas diplomáticas e viu como Stalin estava completamente empregado na revogação de todas e cada uma das leis que ela havia promulgado em benefício das mulheres. Na foto, Alexandra Kollontai falando ao telefone em seu escritório em 1934. Eles foram criticados por muitas mulheres socialistas. O defensor do socialismo feminista acabou relegado às tarefas diplomáticas e viu como Stalin estava completamente empregado na revogação de todas e cada uma das leis que ela havia promulgado em benefício das mulheres. Na foto, Alexandra Kollontai falando ao telefone em seu escritório em 1934. Eles foram criticados por muitas mulheres socialistas. O defensor do socialismo feminista acabou relegado às tarefas diplomáticas e viu como Stalin estava completamente empregado na revogação de todas e cada uma das leis que ela havia promulgado em benefício das mulheres. Na foto, Alexandra Kollontai falando ao telefone em seu escritório em 1934.

10 – Alexandra Kollontai: a feminista russa interceptada por Lenin 

Quem: Aleksandra Kollontái (Rússia, 1872-1952), precursora do feminismo socialista. O objetivo principal desse movimento era libertar mulheres de laços, como família, maternidade e sexualidade.

Como foi silenciada: Kollontái veio de uma família aristocrática que encarnava tudo contra o qual ela começou a lutar desde 1896. Naquele ano, ela deixou seu marido e filho para se juntar ao Partido Socialista Russo. Enquanto contava com o apoio de Lenin, Alexandra Kollontai promulgou várias leis que garantiram a liberdade das mulheres, como o casamento de caráter igualitário entre os cônjuges, apoiou o divórcio e criou diversas instituições, como creches, infantários ou lavandarias públicas que auxiliassem sobre as tarefas que seriam de mulheres. No entanto, seu alcance político estava ligado a Lenin e terminou quando ele a destituiu da liderança do Departamento de Mulheres Trabalhadoras e Mulheres Camponesas do Partido Bolchevique (conhecido como o Genotdel). Os ideais de Kollontái, além de serem rejeitados por Lênin, passaram a ser criticados por muitas mulheres socialistas. A defensora do socialismo feminista acabou relegada a tarefas diplomáticas e passou a acompanhar como Stalin estava completamente empenhado na revogação de todas e cada uma das leis que ela havia promulgado em benefício das mulheres. Na foto, Alexandra Kollontai falando ao telefone em seu escritório em 1934.

Dia Internacional das Mulheres 2018

11 – María Teresa León: Grande escritora diminuída pelo rótulo de “esposa de Rafael Alberti” 

Quem. A escritora María Teresa León (Espanha, 1903-1988).

Como foi silenciada: José Luis Ferris revelou em ‘Palavras contra o Esquecimento’, a primeira biografia sobre a escritora, como uma das vozes mais deslumbrantes da geração de 1927 passou pela história como “a esposa de Rafael Alberti”, e não como a brilhante autora que foi. María Teresa León foi uma das primeiras mulheres espanholas a obter um doutorado em Filosofia e Literatura, escreveu cerca de vinte livros e vários artigos de imprensa. “Ela era uma mulher à frente de seu tempo, uma inovadora, uma lutadora e uma escritora incansável, atrás de um dos ícones mais famosos da literatura espanhola, Rafael Alberti”, disse José Luis Ferris ao “Público”. León, que também era secretário da Aliança dos Escritores Antifascistas, viveu 40 anos de exílio com Alberti, após sua morte, aos 85 anos,

 

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