Organização estuda uso produtivo de energias renováveis

Entidade sem fins lucrativos apresenta modelos de produção energética aplicados em comunidades do Ceará durante congresso de sustentabilidade. Entre as experiências realizadas pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (IDER) está a construção de um secador para algas marinhas à base de energia solar e a implantação de fogões ecológicos que queimam com mais eficiência a lenha.


No Nordeste, por exemplo, o consumo diário de lenha é estimado em 6 mil toneladas. Dessa forma, a adoção de um sistema de fogões com o uso racional da biomassa reduziria esse consumo em até 40%. “Cerca de 80% da floresta nativa do Ceará já se foi, e muitas famílias ainda dependem da retirada de madeira florestal para fazer lenha”, completou o diretor do instituto, Jörgdieter Anhalt.


A utilização de fogões convencionais a lenha trás riscos significativos à saúde humana. Segundo dados do Grupo de Intermediação do Desenvolvimento Tecnológico (ITDG, em inglês), a fumaça produzida na queima mata mais gente do que a malária e registra número de óbitos iguais aos provocados pela contaminação da água por falta de saneamento básico em todo o mundo. Isso significa que, a cada 20 segundos, um caso é registrado.


Há dois anos, a organização realizou um projeto piloto para a construção e instalação de 200 unidades de fogões eficientes. Em 2008, com recursos do estado do Ceará, o IDER conseguiu viabilizar a troca de mais 4 mil unidades. Neste ano, o projeto visa instalar cerca de 18 mil sistemas ecológicos.


“É uma logística muito grande para nós, e o governo do estado do Ceará já anunciou que irá investir em mais 18 mil unidades em 2010. Mas acho que poderemos conseguir mais mostrando os benefícios dos fogões ecológicos”, afirmou.


O custo de cada fogão que necessita de menos lenha em relação ao convencional é de R$ 300 – considerando peças para montagem, distribuição, transporte e mão de obra. O grupo defende que o programa poderá trazer benefícios econômicos ao estado aumentando as possibilidades de efetivar a venda de créditos de carbono e economia no sistema público de saúde.


Secador de algas


Outra iniciativa da organização é a produção de algas desidratadas. O Brasil importa cerca de 80% do consumo dessas plantas, utilizadas em vários setores industriais, como os de cosméticos e alimentos.


O assessor técnico do IDER, Ákilas Modesto, contou que para aumentar a eficiência da desidratação de algas, o grupo desenvolveu uma secadora em forma de túnel a partir de materiais simples, como cano PVC, madeira, e policarbonato (tela para fazer a refração da luz solar).


“A luz do sol incide sobre a placa, assim a tela permite que a luz entre, mas não que saia, mantendo o calor dentro da caixa”, explicou. No equipamento também foram instalados ventiladores movidos a baterias solares para controlar a temperatura que se quer manter dentro da estufa.


A secadora usada no Centro de Processamento de Algas na comunidade de Fleixeiras, município de Trairi (CE), é capaz de comportar até 300 quilos de algas, e desde que foi instalada, os trabalhadores locais passaram a vender o quilo da alga desidratada por R$ 5 – antes o quilo era comercializado a R$ 0,50 de real.


“Em Flexeiras, além do secador, o Centro de Processamento trata e limpe a alga antes de desidratá-la para o comércio. Antigamente, os trabalhadores usavam o asfalto para secar as plantas, arrancando diretamente do recife e expondo ao Sol sem explorar de maneira correta”, disse Modesto.


O IDER trabalha atualmente com os projetos de: bomba de irrigação a base de baterias fotovotaicas (energia solar), biodigestores para produção de energia e adubo, além do secador de algas e frutas aquecido com energia solar, e os fogões ecológicos – programa que atingiu o maior número de famílias rurais.


Dificuldades


Segundo o diretor do IDER, Anhalt, o objetivo da organização é provar que a partir da utilização de tecnologias pouco complexas e não poluidoras é possível realizar o desenvolvimento econômico em comunidades carentes.


“Nós realizamos esses projetos inicialmente para provar que eles são economicamente viáveis. Assim, a partir de financiamentos vindos de fora do país, construímos e calculamos o fator econômico de modelos pilotos provando que é possível colocar a teoria em prática”, explicou.


Durante a Ecogerma 2009 – Feira e Congresso de Sustentabilidade, o pesquisador destacou que o instituto espera que os modelos de utilização das energias renováveis sejam aplicados em larga escala com a ajuda de outros agentes da sociedade civil e governamental, dado o sucesso dos primeiros empreendimentos.


Anhalt afirmou ainda, que o problema para o uso de processos sustentáveis de produção não é falta de domínio tecnológico, uma vez que as aplicações são relativamente simples, de fácil manuseio e construídas com materiais disponíveis às comunidades. “O maior dificuldade que temos é adaptar a tecnologia a cultura local”, explica.


“Além disso, sabemos que boa parte da população, por exemplo, não têm naturalmente vocação empreendedora, e obviamente o mesmo acontece nessas comunidades. No entanto, para iniciar projetos como esses temos que incentivar esse espírito empreendedor o que normalmente não é feito”, completou.

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