Orlando Silva versus Francisco Alves: rivalidade histórica

Orlando Silva (esq) e Chico Alves (dir.): grandes da canção

As disputas entre Emilinha Borba e Marlene pelo título de rainha do rádio, além de terem se tornado um tema cult da cultura gay, cristalizou para a posteridade um tipo de rixa que, ao invés de opor de fato duas supercantoras de estilos e personalidade artística diferentes, servia muito mais, na verdade, aos propósitos publicitários de emissoras e de publicações (notadamente a Revista do Rádio).

 

No entanto, durante minha adolescência e juventude, convivi com uma disputa que, sem abdicar de lances cômicos de tonalidades almodovarianas, opunha não apenas dois talentos superlativos de estilo, repertório e técnica de interpretação, mas duas personalidades marcadamente distintas entre si: a disputa, apaixonadamente perpetuada por seus admiradores, entre Orlando Silva e Francisco Alves para eleger quem seria o melhor cantor brasileiro de todos os tempos (ou, vá lá, ao menos da Velha Guarda).

 

Não que antes os nomes dessas duas figuras de nossa música fossem a mim estranhos Meu pai colecionava LPs de ambos de forma obcecada e eu cresci os ouvindo, bem como a Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Gilberto Alves e outros menos votados (mas não menos fascinantes), como João Petra de Barros, Gastão Formenti ou Albenzio Pierrone. Isso levou-me, ainda na puberdade, a uma dilatação extrema de meu gosto musical, a um ponto tal que, quando eu tinha 16 anos, um vizinho que só ouvia rock costumava dizer, entre o deboche e a estupefação, que eu era a única pessoa capaz de ouvir, em sequência, música punk e Orlando Silva…

 

 

Orlandistas versus chicoalvistas

Foi nessa época que, graças a pouco falada mas devastadora crise econômica do início dos anos 80, vi-me obrigado a ajudar meu pai vendendo discos na rua, em feiras e praças. Assim tomei contato com uma turma de animados velhinhos que se esmeravam em se provocar mutuamente quanto à alegada superioridade de Orlando ou de Chico Alves.

 

Um dos lugares em que eu tentava ganhar a vida era no Pátio do Colégio, numa feira de discos que, se não me engano, ocorria às terças-feiras, onde além de passar horas tentando vender um mísero LP, via-me obrigado, de quando em quando, a esgrimar-me das investidas de uns senhores muito distintos, gays finíssimos, cuja cantada-padrão era convidar-me para comer uma pizza no Brás. Era tudo muito pudico e ninguém pensaria em evocar pedofilia nessa época. De qualquer forma, nunca comi pizza no velho bairro…

 

Mas o ponto de referência central para a peleja entre orlandistas e chicoalvistas era a mítica loja do Lomuto, no centro da cidade, e pouco a pouco passaria a expandir-se, incorporando a feira dominical do Bixiga – onde o bem-quisto colecionador Pecci comerciava – e, nos anos 90, a da Praça Benedito Calixto, aos sábados, onde meu pai – graças a Deus, ainda vivo e atuante – sentou praça com seu Museu da Voz

 

 

O tom dos debates

Os debates que se travavam nesses locais acabavam por expressar irreconciliáveis questões de gosto: a turma pró-Chico Alves exaltando sua potência vocal, sua filiação à escola italiana que transmutou o bel-canto em música popular – da qual Vicente Celestino foi o precursor no Brasil -, seu papel como incentivador do samba urbano dos anos 30 e 40 (em que pese a “compra” de sambas e a exigência da inclusão de seu nome como parceiro), a longevidade de seu sucesso e, sempre como estocada final, a lembrança de que foi Chico quem “descobriu” Orlando e, mais de uma vez, abriu-lhe as portas do sucesso (a história da “descoberta” pode ser lida neste link). 

 

Para esse grupo, Orlando, ainda que se reconhecesse suas qualidades – o que nem todos se mostravam dispostos a fazer -, não passou de um talento fugaz, a cargo de uma modernização indesejada; um cantor algo promissor que com o sucesso se tornara extremamente pernóstico e passara a esnobar até quem o apadrinhou; um homem imaturo, que trocara um sucesso estrondoso, de massas, inédito até então, pelo vício em drogas pesadas e pela autodestruição que o levara ao ostracismo, de onde só retornaria anos depois, como uma mera sombra do que fora.

 

Para os orlandistas – que se autocompraziam apontando a alegada sovinice de Chico Alves, seu quadradismo ao interpretar sambas e a sugestão de que “cantava com uma batata na boca” -, tendia a ser irrelevante a questão da longevidade do sucesso: o que seu ídolo gravara entre 1935-1942 teria uma qualidade tamanha que superaria tudo o que veio antes e boa parte do que viria depois.

 

Para entender que qualidades são essas, faço algo que jamais me permitiria se o assunto fosse política, e não música- passo a palavra a Caetano Veloso. Embora seus longuíssimos parágrafos funcionem muito bem no livro, vou aqui tomar a abusiva liberdade de segmentá-los, para facilitar a leitura no contexto da blogosfera. Após lembrar que João Gilberto chama Orlando de “O maior cantor do mundo”, ele disseca nosso personagem:

 

“Dono de uma voz bela e poderosa, ele não impunha exibicionisticamente sua potência vocal, antes amaciando a emissão nos agudos, o que, combinado com o seu senso do fraseado, suas divisões rítmicas inventivas e a clareza da dicção, fazia dele um músico da canção.

 

A suavidade das notas alongadas nunca chegava ao meio-falsete demasiado doce dos tenores populares americanos dos anos 30: ele era másculo e sóbrio o bastante para evitar esses derramamentos, sua sensibilidade era já naturalmente muito moderna e ele criou de fato um estilo original, único.

 

Era um excelente cantor de sambas: suas jogadas rítmicas e variações cheias de balanço faziam a melodia flutuar, e ele nunca repetia a mesma divisão quando voltava à primeira parte; mas era nas canções lentas, nos sambas-canções e nas valsas de seresta que a fluência de sua música se manifestava mais encantadoramente” (em Verdade Tropical, Companhia das Letras, p. 264-65).

 

Além dessas qualidades superlativas, há ainda três aspectos que devem ser notados em relação a Orlando Silva (em sua fase pré-autodestruição, é claro): a escolha extremamente criteriosa do repertório (um quesito muito irregular em se tratando de Francisco Alves), o nível de resolução e inventividade dos arranjos – em sua maioria a cargo de Pixinguinha, Benedito Lacerda ou Radamés Gnattali, e que às vezes contam com participações especialíssimas, como a do bandolim de  Luperce Miranda em “Lágrimas” (Cândido das Neves), “sobrevoando a melodia”, nas palavras de Orlando – e, notadamente, o perfeccionismo técnico da interpretação.  (Ouça Orlando interpretando a música citada e mais “”Enquanto houver saudade” (Custódio Mesquita/Mário Lago), “Neusa” (Antônio Caldas), e “Meu romance” (J. Cascata/Leonel Azevedo) por meio dos links abaixo.)

 

Legados notáveis

Para uma comparação justa com Francisco Alves, é necessário levar em conta que Orlando manteve tais características em, digamos, 90% de um repertório construído ao longo de sete anos, enquanto a carreira do primeiro inicia-se, ainda à frente de um microfone mecânico, ao final da década dos 21 e se encerra com um acidente automobilístico em 1952, atravessando mais de três décadas de maior ou menor sucesso, mas sempre de protagonismo.

 

Talvez se possa argumentar que, ao final, o número de gravações de alta qualidade deixado por ambos cantores é aproximadamente o mesmo. Como deixar de reconhecer que Chico, interpretando “Carnaval da minha vida” (Benedito Lacerda/Aldo Cabral), “Boa noite, amor” (José Maria de Abreu/Francisco Mattoso), “Caminhemos” (Herivelto Martins),  “Cadeira vazia” (Lupicinio Rodrigues) – que podem ser ouvidas através do link ao final da página -, e de“Perfídia” (Alberto Dominguez/vs. Lamartine Babo), “ A mulher que ficou na taça” (Francisco Alves/Orestes Barbosa),  “Eu sonhei que tu estavas tão linda” (Lamartine Babo/Francisco Mattoso), “Malandrinha” (Freire Júnior) e tantas outras músicas, legou interpretações fora de série ao cancioneiro nacional?

 

Embora reconheça tais méritos, de minha parte, tendo a tomar o partido dos orlandistas. Ao lado de Bach, de Schubert, de Chet Baker, de Tom Jobim e de uma coisinha ou outra mais, nada me parece mais sublime do que a música produzida ao final dos anos 30 por dois artistas que, além da origem humilde e do autodidatismo, têm em comum uma capacidade extraordinária para o canto: Billie Holiday nos EUA e Orlando Silva no Brasil.

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