Os caminhos da Embraer, segundo o Financial Times

A Embraer agora deve reorientar rapidamente e tomar decisões cruciais sobre a direção de seus negócios em um momento em que o setor enfrenta uma crise sem precedentes.

Um modelo de demonstração de uma aeronave Embraer E195-E2 no aeroporto de Zurique © REUTERS

Do Financial Times

Quando o acordo de joint venture da Embraer, de US $ 4,2 bilhões com a Boeing, entrou em colapso no final do mês passado, o fabricante brasileiro de aeronaves ficou claro sobre seus próximos passos. 

Imediatamente, a empresa – a terceira maior fabricante de jatos do mundo – emitiu uma forte repreensão, acusando a Boeing de fabricar “falsas alegações”, a fim de abandonar o acordo para adquirir seu negócio regional de jatos. Em seguida, iniciou um processo de arbitragem, buscando recuperar dezenas de milhões de dólares que já havia gasto na preparação.

“Acreditamos que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas do [acordo proposto], devido à sua falta de vontade de concluir a transação à luz de sua própria condição financeira e. . . problemas de reputação ”, afirmou a Embraer, em denúncias negadas pela Boeing. O grupo norte-americano, por sua vez, acusou a Embraer de não cumprir as pré-condições do acordo.

Além da primeira resposta ardente, no entanto, as opções de longo prazo para o campeão industrial brasileiro estão longe de serem claras. O acordo com a Boeing estava em fase de elaboração e era esperado para mudar o jogo tanto para o setor quanto para a empresa. 

A Embraer agora deve reorientar rapidamente e tomar decisões cruciais sobre a direção de seus negócios em um momento em que o setor enfrenta uma crise sem precedentes.

“Eles têm um enorme desafio”, disse Ricardo Fenelon, ex-diretor da Agência Brasileira de Aviação Civil e advogado especializado em aviação. “O desafio é ainda maior por causa da situação do Covid-19, que é a maior crise da história do setor”.

Para os analistas, a Embraer, com sede nos arredores de São Paulo, agora enfrenta três opções: pode iniciar uma nova busca por uma joint venture alternativa, pode expandir a fabricação de jatos maiores ou aumentar o investimento em aeronaves menores, na esperança aumento da demanda à medida que a pandemia diminui.

A decisão é urgente em grande parte por causa da recente consolidação do setor. Há dois anos, a Airbus adquiriu o programa de jatos da série C da Bombardier, levando o fabricante europeu à pole position na fabricação regional de aeronaves.

O acordo Embraer-Boeing tinha como objetivo equilibrar o mercado, dando ao grupo brasileiro a capacidade de expandir para aeronaves maiores, oferecendo à empresa norte-americana a possibilidade de fazer o mesmo no menor tamanho possível.

Segundo Richard Aboulafia, da consultoria aeroespacial Teal Group, com o acordo da Airbus C Series, “a Embraer deixou de competir com um colega. . . para competir com um gigante. “

Ele acrescentou: “Será difícil para a Embraer pressionar seus fornecedores quando o volume que oferecer for uma pequena fração da Airbus”.

Guillaume Faury, executivo-chefe da Airbus, também reconheceu que o colapso do acordo é “positivo” para sua própria empresa. “Em uma crise como essa [pandemia], há danos colaterais e danos colaterais ao nosso concorrente”, afirmou.

Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil, disse que achava que a solução estava com a China. “É um casamento inevitável. Temos o know-how, eles têm a demanda ”, disse ele, chamando o final do acordo da Boeing de“ bênção disfarçada ”.

Durante anos, o grupo chinês Comac foi apontado como um possível pretendente da Embraer, enquanto Pequim tentava cultivar sua indústria doméstica de fabricação de aeronaves. Mas a Comac se retirou de fusões e aquisições em larga escala, e um acordo com a Embraer agora parece improvável, de acordo com fontes familiarizadas com o grupo aeroespacial chinês.

“Além disso, a [Comac] não tem registro de fazer grandes investimentos como esses em companhias aéreas internacionais”, acrescentou Aboulafia.

De qualquer forma, a Embraer minimizou essa conversa, reconhecendo que não há “nenhuma conversa ou negociação em andamento no momento”.

Thiago Nykiel, sócio da consultoria de aviação Infraway, disse que a Embraer deve se concentrar na fabricação de jatos regionais menores, com maior probabilidade de demanda a médio prazo. Analistas prevêem que os vôos domésticos no Brasil retornem aos níveis pré-pandêmicos em 2022, enquanto os vôos internacionais podem levar até 2025. 

“Naturalmente, aeronaves grandes levarão mais tempo para retornar à operação total e aeronaves pequenas terão mais possibilidades. Como há essa queda na demanda, talvez as companhias aéreas decidam colocar as aeronaves da Embraer em rotas porque são mais eficientes e têm menos assentos ”, afirmou ele.

Parece ser uma estratégia preferida pela empresa, que afirmou estar confiante de que seus jatos de força de trabalho, como o E170 e o E190, “liderarão a recuperação da indústria da aviação nos próximos trimestres, à medida que as companhias aéreas retomarem suas operações por rotas regionais e domésticas. ”.

Alguns analistas propuseram que a empresa começasse a fabricar aeronaves maiores para competir diretamente com a Boeing e a Airbus.

Isso tem alguns riscos óbvios. Com a indústria já em crise e os preços do petróleo baixos, há pouco incentivo para as companhias aéreas comprarem novas aeronaves. Além disso, embora a Boeing e a Airbus possam ser rivais ferozes, os dois se moveram rapidamente para matar uma tentativa da rival canadense Bombardier de entrar no mercado de jatos de passageiros vendendo suas aeronaves menores a preços imbatíveis.

Somando-se a seus desafios, a Embraer – que emprega 18.000 e já entregou cerca de 8.000 jatos até hoje – enfrenta uma crise de caixa e espera receber US $ 1 bilhão do banco de desenvolvimento do Brasil em troca de ações nos próximos meses.

Em uma chamada no mês passado, o grupo defendeu sua posição, dizendo que havia identificado uma economia de US $ 1 bilhão, contribuindo para uma liquidez total de US $ 3 bilhões.

“Não temos dívidas significativas nos próximos dois anos. [Mas] mesmo assim, começaremos a adotar medidas adicionais para preservar nossa liquidez, incluindo ajustes de estoque e produção, extensão de ciclos de pagamento, [e] redução de despesas e capex ”, afirmou.

Atualmente, possui cerca de 30% de sua equipe em licença.

“O ponto principal é que, quando a crise bate à porta, todos precisam olhar para dentro e cuidar de seus negócios”, disse Nykiel. “Depois de sair do outro lado, eles podem estar abertos a negociações, mesmo com a Boeing novamente.”

Coronavírus: companhias aéreas enfrentam crise sem precedentes

GGN REVISITA A TRAJETÓRIA DE MORO EM PROJETO INÉDITO. SAIBA MAIS AQUI.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Coronavírus: "Sem resolver contágio, retomada é voo de galinha", diz Átila Iamarino

6 comentários

  1. Eu não entendo nada do mercado de aviação, mas irei arriscar um palpite.
    A Embraer tem um excelente status no nicho de jatos executivos e uma invejável posição nos jatos de médio porte para aviação regional como o E195. Eu sou um frequent flyer em voos no Brasil e de todos os aviões esse é o meu preferido.
    Acredito que a empresa tenha futuro em voo solo que poderá ser tão mais positivo quanto seja um futuro crescimento da economia brasileira em um período pós Guedes e seu neoliberalismo tosco. Além do mais, essa venda para a Boeing somente faz sentido em cabeças de planilha e para o ganho de investidores. Para o desenvolvimento tecnológico do País, para a economia nacional e para a própria Embraer não via o melhor sentido.

  2. _O problema da Boing foi resolvido. Eles tinham um problema de projeto no jato que estavam fabricando com elevados problema e acidentes fatais. Aconteceu a ponto de seus aviões do modelo Boing 737 MAX em questão serem proibidos de serem produzidos. Com a “compra” da Embraer o primeiro procedimento foi confiscar todos os projetos das aeronaves brasileiras. Copiaram tudo, resolveram os problemas, encontraram as soluções e desfizeram o negócio. Era só fachada. Valeu o risco. Mais um estratagema americano que já está na história.
    Tem sido assim desde sempre com os mais variados inventos brasileiros: avião autônomo alçando vôo sem catapulta do Santos Dumond, máquina de escrever de um padre do nordeste que os Hamington, fabricantes de armas, copiaram, produção industrual de fibra ótica criada por dois jovens engenheiros de São Paulo… E por aí vai.
    _Os imbecis do bozo cairam como patinhos. Baita negócio desse desgoverno… Esse tem que cair.

  3. embraer é lider no segmento de aviões de carreira de medio alcance

    as rotas locais sao as que tem mais chance de se recuperar após a pandemia

    embraer tem o cargueiro recém lançado que tem um mercado que é seguro

    repassar analise de financial times sobre a suposta necessidade de fusão com qualquer empresa é jogar para o inimigo

    quero ler sobre a opinião de analistas brasileiros que tenham visão nacionalista

  4. Vamos lá então. A afirmação no artigo: “Há dois anos, a Airbus adquiriu o programa de jatos da série C da Bombardier, levando o fabricante europeu à pole position na fabricação regional de aeronaves.” é pura “fake news” da Financial Times. Mentira pura, puxando a sardinha para a brasa da Airbus para atacar a Embraer. A maior fabricante de jatos regionais do mundo, e quem domina o mercado de forma soberana é a Embraer. “No doubt about that.”
    Em verdade a divisão de aeronáudica da Bombardier estava praticamente falida, devido exatamente ao domínio da Embraer. E não é porque essa parte falida foi comprada pela Airbus que ela se transforma da noite para o dia na “fabricante de ponta em jatos regionais”. A Airbus não sabe fabricar jatos regionais. Então nada vai mudar. A médio prazo a Embraer continuará na frente. O que pode acontecer é a Airbus tentar vender os seus jatos de pior qualidade a preços mais baratos, com a evidente ajuda dos governos da França e da Alemanha. Como já disse o jornalista Richard Aboulafia em artigos anteriores dele na “Aerospace America”, para uma industria aeronáltica sobreviver a longo prazo ela sempre vai precisar de alguma ajuda do pais hospedeiro. Como o presente comentarista já disse em artigo anterior o governo americano sempre apoiou a Boeing e os governos europeus sempre apoiaram a Airbus. Como tambem ja foi afirmado que o governo brasileiro sempre “escorou” a Embraer.
    Será que este governo que aí está vai deixar a Embraer na mão? Se isso acontecer, não há a menor duvida que a Embraer será vendida. Um bem precioso para o povo brasileiro que sempre arcou com as despesas totais antes da privatizão, e o mesmo povo ajudando a firma sempre que necessário depois da privatização.

  5. Valoroso artigo que desperta interesses na manutenção dos sonhos de Montenegro, Vargas, Osires, e demais que idealiza ram a participação do Brasil na indústria aeronáutica. Convém entretanto a cautela para evitar as idas e vindas que já conhecemos na indústria naval desde tempos de Mauá

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome