Home Notícia Os cinco arrependimentos dos que estão morrendo, por Michel Aires de Souza Dias

Os cinco arrependimentos dos que estão morrendo, por Michel Aires de Souza Dias

Os cinco arrependimentos dos que estão morrendo, por Michel Aires de Souza Dias

Os cinco arrependimentos dos que estão morrendo

por Michel Aires de Souza Dias[1]

Bronnie Ware é uma enfermeira australiana que, depois de muitos anos de trabalho com doentes terminais, escreveu um livro, The top five regrets of the dying (os cinco maiores arrependimentos dos que estão morrendo). Ao perguntar aos pacientes do que eles mais se arrependem na vida, ela encontrou um certo padrão nas respostas.  Segundo ela, são cinco atitudes pelas quais as pessoas se arrependem: 1. Não viver a vida que desejaram, mas sim a vida que os outros esperavam. 2. Ter trabalhado muito durante a vida. 3. Não ter sido capaz de expressar os sentimentos. 4. Ter pouco contato com os amigos como gostariam. 5.  Não se permitir ser feliz. Refletir sobre estes cinco pontos é fundamental para entendermos um pouco o que move o homem  em busca da felicidade. Gostaria de fazer uma breve reflexão sobre cada um desses arrependimentos para que o leitor possa refletir por si mesmo sobre suas escolhas na busca da felicidade.

  1. Não viver a vida que desejamos, mas sim a vida que os outros esperavam.

O filósofo Jean Paul Sartre “via no desespero uma imagem lúcida do que era a condição humana.” (SARTRE, 1980, p. 19). Para ele, o homem simplesmente existe e só se define a partir do que ele faz de si mesmo. Com isso, está condenado à liberdade e só pode contar consigo mesmo. Toda nossa angústia surge porque somos responsáveis por nossos atos: “É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade (…) na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão”. (SARTRE, 2002, p.72). A angústia resulta da revelação da nossa própria liberdade, limitada apenas por si mesma, fonte absoluta de todo sentido.  Mas, esta liberdade, “só é descoberta reflexivamente, quando, engajado no mundo, em vez de realizar meus possíveis (se se quiser, meus fins ou meu futuro), eu os aprendo como meus.” (MOUTINHO, 2003, p. 77). Isso significa que devemos pensar reflexivamente nossa vida, pensar reflexivamente as nossas circunstâncias. A vida em sociedade é determinada pela heteronomia, não pela autonomia. A grande parte dos homens é guiado por regras externas, ou seja, pelos preceitos, valores e mandamentos de sua sociedade. Nesse sentido, eles buscam o dinheiro, o poder, a fama e os divertimentos. Alguns prendem-se as diversões, outros à fama, uns ao poder, outros ao dinheiro.  Uns levam o peso de seu orgulho, outros o peso de sua solidão. Uns prende-se ao casamento, outros à religião. Uns curvam a cabeça ao seu chefe, outros à sua família. Como afirma o filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1966, p. 322), “Eu sou eu e minhas circunstâncias.” É imprescindível, portanto, ao homem compreender as suas circunstâncias, dando sentido ao que o rodeia. Se ele não compreende suas circunstâncias ele não pode compreender a si mesmo.  

  • Ter trabalhado muito durante a vida.

Os antigos gregos guiavam sua vida pela ideia de cosmo, termo grego que significa ordem. A vida era compreendida como parte de uma totalidade racional, entendida como uma força espiritual que ordenava todo o universo. O problema ético de como devemos viver a vida deveria ser guiada por essa noção de um cosmo ordenado. Cabia a todo indivíduo ordenar sua vida conforme a razão, buscando as normas universais da própria existência. Sócrates concebeu o conhecimento de si mesmo como uma forma de espiritualismo.  Platão viu na autarquia da alma um modo de viver melhor e de ordenar a polis (cidade).  Aristóteles concebia a razão como atividade prática da virtude e da prudência. De modo geral, para os gregos a felicidade estaria ligado ao aprimoramento do mundo interior, onde a razão seria uma espécie de sabedoria prática, para ordenar a vida e a sociedade. Ao contrário dos antigos, o homem moderno guia sua vida pela satisfação dos desejos.  Ele busca sua felicidade nos objetos do mundo exterior. Desse modo, o trabalho tornou-se uma forma de satisfazer todos os desejos humanos. A grande parte da existência dos homens é vivida no trabalho. No trabalho os homens perdem uma grande parte de sua existência, se alienam de suas vidas e de si mesmos, assim como perdem a noção da representação do tempo.

Os antigos gregos se referiam ao tempo de duas formas: o tempo cronológico, quantitativo, existencial, eles chamavam Khronos (o tempo dos homens). Já o tempo eterno, qualitativo, que não pode ser controlado, do instante singular, eles denominavam Kairós (o tempo dos deuses). Enquanto os antigos valorizavam o tempo de Kairos, o homem moderno por meio do trabalho se submeteu ao tempo Khronos. O tempo no trabalho foi supervalorizado, já o tempo dos momentos especiais (Kairos) foi desvalorizado. O tempo de Kairós são os momentos que estamos com nossos filhos, que conversamos com os amigos, que lemos um bom livro, que aprendemos algo ou quando contemplamos a natureza. São esses momentos especiais que ficam eternizados em nossa memória. São esses momentos que desvalorizamos por causa do trabalho, com o único objetivo de consumir.

  • Não ter sido capaz de expressar os sentimentos.

A enfermeira Bronnie Ware relatou em seu livro que muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. O resultado disso são as doenças relacionadas à amargura e ao ressentimento. A depressão e a ansiedade são as que mais acometem essas pessoas. Segundo o filósofo alemão Nietzsche, o ressentimento é característico de homens sem forças para reagir diante dos problemas e dos imprevistos da vida, e que não conseguem digerir sentimentos nocivos, produzidos por sua incapacidade de reação. Seu ódio em vez de ser canalizado para o exterior, é internalizado, criando uma vingança imaginária. O indivíduo se torna incapaz de reagir diante das ofensas recebidas, que remoem dentro de si impressões negativas. O grande conselho do filósofo é não calar. Responder as ofensas, expressar os sentimentos, afirmar à vontade, encarar a vida é um grande sinal de saúde: “Aos que silenciam falta-lhes quase sempre finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter – estraga inclusive o estômago. Todos os calados são dispépticos” (Nietzsche, 2008, p.27).

  • Ter pouco contato com os amigos como gostariam.

Segundo a enfermeira Bronnie Ware, muitas vezes os pacientes não se dão conta dos benefícios dos velhos amigos até estarem no leito de morte. Eles estavam tão preocupados com suas vidas que abandonaram muitas amizades valiosas. Arrependeram-se de não terem dedicado tempo e esforços aos amigos.  É somente no final da vida que percebem que tudo o que resta é o amor e os relacionamentos. A amizade surge por que o homem é um ser social. Ele tem a necessidade do outro. A amizade surge de uma grande afeição, afinidade e reconhecimento mútuos. Ela produz a cumplicidade, a lealdade, o altruísmo e a benevolência. Ela deixa marcas indeléveis no espírito humano. Contudo, no mundo capitalista as pessoas não se encontram mais rodeados por amigos, mas por objetos. As relações sociais já não são tanto com seus semelhantes, mas com as coisas. Os homens se dedicam com muito mais afinco ao consumo e a busca da riqueza do que com a amizade. Os homens vivem em permanente catarse, estão permanentemente iludidos, sempre em busca de satisfazer algum desejo.

  •  Não se permitir ser feliz.

Segundo a enfermeira Bronnie, esse arrependimento é muito comum. Muitos só percebem que a felicidade é uma escolha no final da vida. Eles ficaram presos a antigos hábitos e padrões. O conforto familiar comandou as suas emoções. O medo de mudança fez com que fingissem para os outros e para si mesmos que eram felizes. O caminho que se escolhe na vida só se realiza pela ação.  Essa ação muitas vezes deve se fundar na superação de um conflito, de um dilema, de uma frustração, ou de um sofrimento. O importante é que esses obstáculos sejam superados, mesmo que seja na dor. É nessa busca reflexiva onde a ação é norteadora que podemos mudar nossa vida e podemos nos fundar como seres plenos: “Fundar-se é escolher e construir por si próprio os princípios de sua própria existência; o ato de fundação é o ato da autonomia e vale porque é um gozo, o gozo criador da liberdade. Essa liberdade, nova e segunda em relação à liberdade confusa da espontaneidade, é a um só tempo criação e ruptura. Ela inaugura um novo desejo e regozija-se por isso mesmo de uma nova existência, em que o sujeito renasce e dá início a si mesmo” (Misahi, 1999, p. 46).  Devemos ser, portanto, plenamente sujeitos de nossa felicidade. Não sujeitos abstratos, mas sujeitos conscientes de nossa busca rumo à satisfação plena de nossos desejos. Devemos seguir o conselho da enfermeira Bronnie, a vida é uma escolha. É a sua vida. Escolha conscientemente, escolha sabiamente, escolha honestamente. Escolha a felicidade.

Como vimos no livro de Bronie Ware, é somente na doença que os indivíduos prestam atenção à vida. Quando tudo vai bem não percebem a existência passar. Quando estão ativos e com saúde não refletem sobre a existência, sobre o sentido e significado que ela tem para eles.  Só a percebem quando estão gravemente doentes ou correm risco de vida. Como avaliou o filósofo pessimista Schopenhauer, assim como um regato corre sem ímpetos, enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo na natureza humana a vida corre inconsciente e descuidosa, quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste, isto é, tudo que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não atentamos na saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta. Enquanto possuímos saúde, juventude e liberdade não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de havermos perdido.

Referências

MISHAHI, Robert. A felicidade é nosso único objetivo. In: Le Nouvel Observateur, Café Philo. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p.43-47.

MOUTINHO, Luiz D.S.  Sartre: Existencialismo e Liberdade. São Paulo: Moderna, 2003

NIETZSCHE, Friedrich. W. Ecce Homo. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 2008.

ORTEGA Y GASSET, J.  Meditaciones del Quijote. In Obras completas de José Ortega y Gasset. Madrid: Revista de Occidente, 1966, pag. 310-400.

SARTRE. J. O testamento de Sartre. Entrevista concedida a Benny Lévi para Nouvel Observateur. Paris: L&PM, São Paulo, p. 17-64., 1980.

SARTRE, J. P. O Ser e o Nada: Ensaio de ontologia fenomenológica, trad. Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 2002.

SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo. Tradução J.S. Oliveira. São Paulo: Brasil Editora, 1969.

WARE, Bronnie. Os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer. São Paulo: Geração Editorial, 2012


[1] Doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: michelaires@usp.br

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