Os desafios da nova oposição

Coluna Econômica

Um dos grandes desafios pós-eleições será reinstituir o diálogo no jogo político brasileiro.

Nos últimos anos prosperou uma cultura de intolerância ampla, perigosa, fomentada por grupos ideológicos radicais e por parte da velha mídia.

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Não é fenômeno restrito à sociedade brasileira. Ocorreu nos Estados Unidos no século 19, também nos anos 1950, e na Europa pré-Segunda Guerra mundial, quando da emergência da sociedade de consumo de massas.

Novos grupos são incluídos no mercado de consumo e no mercado político. É movimento que antecede os grandes saltos de desenvolvimento, civilizatórios, mas que provoca resistências em quem já está colocado e se sente ameaçado pelos novos ventos.

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ParParte desse movimento é provocado pelo jogo eleitoral. Novas massas de consumidores significa também novos contingentes de eleitores. Ganha enorme cacife o partido que percebe esse movimento e se apropria das grandes bandeiras integradoras.

No século 19, o Partido Republicano norte-americano impulsionou as grandes lutas civis e ganhou o eleitorado de ex-escravos e recém-incluídos.

Nos anos 1930, através da New Deal e de Franklin Delano Roosevelt, o Partido Democrata se apropriou das bandeiras sociais, cumpriu uma missão civilizatória e ganhou décadas de predomínio político.

A reação se deu através da intolerância, de grupos radicais que exploraram a Guerra Fria (macartismo) ou o racismo existente na sociedade norte-americana.

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Na história brasileira, repetiu-se sempre esse fenômeno. Um lado empalmava as bandeiras populares – e se tornava vencedor no jogo político. Ao outro, restava o discurso da intolerância e do golpismo – isto é, de conquistar o poder fora do jogo democrático. O segundo governo Vargas é exemplo clássico.

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No Brasil, as últimas duas décadas foram de ruptura em duas frentes: no início dos anos 90, as forças econômicas, relativamente liberadas do poder autocrático; e, nos anos 2.000, as novas forças sociais, integradas ao mercado de consumo e político.

O período teve dois presidentes visionários, que perceberam a dinâmica dos novos tempos: Fernando Collor de Mello e Lula.

O primeiro entendeu a necessidade de liberar as energias do setor privado e previu a ascensão dos novos contingentes (os “descamisados”). Mas enfrentou a ruptura de forma traumática, agressiva e, sem partido e sem quadros, acabou derrubado por seus erros políticos e por ter menosprezado o status quo.

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O cavalo passou encilhado por Fernando Henrique Cardoso, que recebeu de Collor a economia relativamente liberada, um partido com bons quadros e, com o Plano Real, poderia ter liderado o processo de inclusão social. Aí, conseguiria os vinte anos de poder preconizados por Sérgio Motta.

Miopia política, vaidade, absoluta insensibilidade em relação às novas demandas sociais, baixíssima ambição em transformar o país levaram-no a jogar fora a oportunidade e a liquidar com o futuro político do seu partido.

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Depois das trombadas políticas iniciais, Lula entendeu – mais do que ninguém – o novo modelo. E tratou de implementar a inclusão, reduzindo ao máximo os atritos políticos. A estratégia foi vitoriosa e poderá garantir vinte anos de poder. E a oposição?

A cultura da intolerância – 1

Nos últimos anos, José Serra (tendo por trás FHC) moldou o estilo da oposição brasileira. Através de alianças midiáticas estimulou a intolerância, afastou jornalistas recalcitrantes e foi figura central no predomínio de um certo tipo de jornalismo de esgoto em algumas revistas e, especialmente, na Internet. Através de blogueiros fustigou não apenas o PT, como correligionários como Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

A cultura da intolerância – 2

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Os arroubos do candidato a vice-presidente, Índio da Costa – condenados indistintamente pela campanha de Dilma e por pessoas influentes na campanha de Serra -, não surgiram do nada. Hordas de internautas de ultra-direita passaram a perambular pela Internet com ataques pesados contra qualquer voz dissidente, em cima da forma estimulada por Serra junto aos seus blogueiros.

A recriação da oposição – 1

Trata-se de um movimento datado, que se encerrará com as eleições e desaparecerá com seu guru. Mas deixa um legado complicado para as novas lideranças que vierem a assumir a oposição: Geraldo Alckmin, se vencer as eleições em São Paulo, e Aécio Neves. No segundo turno das eleições de 2006, Alckmin perdeu votos quando radicalizou. Depois, foi vítima de ataques de blogueiros diretamente ligados a Serra.

A recriação da oposição – 2

Já Aécio Neves – até pelo fato de seu avô Tancredo Neves sempre ter estado do lado oposto ao dos golpes políticos – desde o primeiro instante entendeu os novos tempos. Sabe que o único discurso viável para a oposição será o da tolerância, o que exige paciência. Não poderá haver imediatismo. Terá que se jogar com o desgaste natural que acomete partidos que ficam muito tempo no poder.

A recriação da oposição – 3

Ele tem uma marca: a modernização da gestão mineira. Mas é pouco. Em um período em que as bandeiras dos direitos civis tornam-se prioritárias, em que o ideal mercadista foi avacalhado pela inoperância do governo FHC, a oposição terá que mostrar muito mais. Terá que entender a nova etapa do capitalismo brasileiro, que se seguirá ao da inclusão das novas massas ao mercado, e se antecipar com novas bandeiras.

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A recriação da oposição – 4

Não será tarefa fácil e exigirá o descortínio de um estadista. Primeiro, terá que aceitar que será impossível tirar as atuais bandeiras de Lula. Depois, terá que prever as novas expectativas dos incluídos daqui a alguns anos, depois que os efeitos da inclusão já tiverem sido assimilados. E, principalmente, convicção no novo discurso e paciência para entender que ainda levará anos para se colher os frutos do novo discurso. 

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