Os jovens que abandonam o tráfico

Nada que um bom clipping não ajude:

Nota: Essas matérias são de 2006, a partir da apresentação de uma pesquisa realizada pelo Observatório de Favelas de 2004 a 2006 na Maré.  Embora seja o retrato de uma situação ocorrida há quatro anos atrás, acho que ajuda a compreender qual era a cara do tráfico no Almeão antes da invasão.

Para quem se interessar em ler a pesquisa completa (são 83 páginas), o link está aqui:

http://www.observatoriodefavelas.org.br/userfiles/file/Pesquisa%20Trajet…

23/11/2006 – 18h59m – Atualizado em 23/11/2006 – 21h07m

QUEDA DE RENDA FAZ JOVEM TROCAR TRÁFICO POR ASSALTO, DIZ PESQUISA

O dado positivo: 40% traficantes já abandonaram o comércio ilegal de drogas por iniciativa própria, sem precisar de intervenção governamental.

Ex-integrante de facção criminosa dá entrevista durante divulgação da pesquisa sobre tráfico de drogas

A queda de rendimentos dos jovens envolvidos com o tráfico está fazendo com que eles se transfiram para outra atividade criminosa, o assalto. Essa é uma das principais conclusões de um estudo do Observatório das Favelas, organização não-governamental com sede na Favela Maré, no subúrbio do Rio. Nos últimos dois anos, os ganhos dos empregados no comércio de drogas ficou estagnado diante da inflação,  enquanto o valor do  salário mínimo subiu 34,6%.  

O destaque positivo da sondagem: 40% dos jovens já saíram do tráfico por iniciativa própria, sem qualquer ação governamental, embora muitos deles tenham regressado. 

NopeNo período de 2 anos em que foi realizada a pesquisa, 45 dos 230 entrevistados morreram. Suas famílias – 30% deles vivem com os pais ou, pelo menos, com um deles – também foram alvo da violência: 169 parentes sem envolvimento com as drogas foram mortos. “Esse número mostra que as famílias também são vítimas da violência”, diz a pesquisadora Raquel Willadino Braga, coordenadora do núcleo de violência e direitos humanos do Observatório das Favelas.

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Gerentes, soldados e vapores
Com o título de “Caminhada de crianças, adolescentes e jovens na rede do tráfico de drogas no varejo do Rio de Janeiro, 2004-2006”, o estudo compara os rendimentos deles com base numa comparação com o salário mínimo. Na primeira rodada de entrevistas, em 2004, cada um declarou sua renda mensal. Dois anos depois, poucos tinham obtido melhoria salarial. Nesse período, o mínimo subiu de R$ 260 para R$350 (34,6%) e a capacidade de compra do salário mínimo subiu de 1,52 cestas básicas para 2,12 cestas básicas. Conheça algumas funções do tráfico.

Em maio deste ano, o maior salário declarado de gerente do ponto de vendas era de R$ 6.000 e o menor de R$ 1.000. Entre os “soldados” do tráfico, cinco declararam receber R$ 600. A média salarial dos “vapores” ficou entre R$ 300 e R$ 400.

Os pesquisadores apontam algumas hipóteses para a queda de rendimento do traficante: “a diminuição da venda de drogas nas favelas, já que os usuários de classe média temem ir comprá-las; a crise econômica, que afeta o poder de compra dos usuários da favela e da periferia; os conflitos armados contra outras facções e contra a polícia, que obriga o ‘dono’ fazer um maior investimento em armas em detrimento dos salários”, diz o texto, que aponta também para o aumento da extorsão por parte de policiais, que teriam autorização para matar, sem medo de punição dos superiores.

O perfil do trabalho no tráfico mudou nos últimos anos. Como os pontos são controlados por facções criminosas, é comum o jovem se deslocar da sua comunidade de origem para trabalhar em outra favela. “Isso gera uma relação mais violenta com os moradores, mas isso não é uma regra”, diz Raquel.

Os pesquisadores dividiram os entrevistados em participantes de grupos criminosos armados ou de condomínios de territórios. No momento em que precisam mudar de ramo, eles procuram outras atividades ilegais, como o controle da distribuição de gás engarrafado, a segurança ou os assaltos. “Eles procuram o assalto porque dá maior autonomia em relação aos chefes. Eventualmente, dá também maiores ganhos nesse momento de queda de rendimento”, explica a coordenadora Raquel Willardino. 

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Por que entram?
Entre os entrevistados, apenas seis eram mulheres – o que faz do tráfico uma atividade basicamente masculina e com média de idade cada vez menor – entram com 11 anos e poucos chegam aos 24 anos. Uma das perguntas do questionário quis saber qual a motivação para entrar no tráfico. “Ganhar muito dinheiro” foi a resposta de 33%, seguido de ajuda a família (23%), dificuldade em conseguir qualquer outro emprego (21%).

Os fatores subjetivos – adrenalina (7%); sensação de poder (4,3%); e prestígio (3,5%) – têm grande importância porque, “ao ficar mais velho, esses fatores pesam mais para que ele permaneça”, explica a coordenadora Raquel Willardino.

Dado positivo
Raquel Willadino Braga considera positivo o fato de 40% dos entrevistados declararem que deixaram o tráfico pelo menos uma vez por iniciativa própria, embora parte deles tenha voltado à atividade. “Isso é da maior importância para criar políticas públicas. É possível criar alternativas sustentáveis se houver intervenção estatal”, afirma.

A coordenadora apóia seu raciocínio em outro dado que considera igualmente positivo e que derruba um mito a respeito dos envolvidos com o tráfico. Quando tiveram de responder qual é o maior bem que possuem, 89% declararam ser a família.

Invasão do crack
A pesquisa flagrou uma mudança no consumo de drogas na favela. Quase desconhecido há 10 anos, o crack invadiu as favelas do Rio, sendo que, em algumas oportunidades, a procura é maior do que oferta. O ecstasy, apesar do preço alto, também cresceu.

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No mercado das drogas, os preços, em maio de 2006, eram os seguintes: a mais barata é  a maconha, cuja trouxa podia ser adquirida por R$ 5 em média, dependendo da “qualidade”e da “quantidade”, segundo os entrevistados. O menor preço para o papel de cocaína é R$ 5, dependendo do grau de pureza. O preço do crack acompanha o da cocaína. O ecstasy é o mais caro: R$ 25 o comprimido mais barato, custando em média R$30.

23/11/2006 – 13h45m – Atualizado em 23/11/2006 – 14h45m

TRÁFICO DE DROGAS: EM DOIS ANOS, 45 JOVENS E CRIANÇAS MORRERAM Em dois anos, 45 jovens e crianças morreram envolvidos como o tráfico buscar de drogas. O dado alarmante é fruto de uma pesquisa divulgada, nesta quinta-feira (23), pela Ong Observatório de Favelas. A organização fica na comunidade da Maré, na Zona Norte, uma das mais violentas do Rio.

Nos últimos dois anos, a pesquisa acompanhou 230 jovens e crianças envolvidos como o comércio ilegal de drogas. Foi montado um perfil que revela abandono dos estudos, tentativas anteriores de conseguir um emprego e uma família pobre que rejeita o dinheiro do tráfico.  

Mais da metade dos entrevistados, com idades entre 11 e 24 anos, denunciaram a prática de extorsão por policiais militares. Outros dados: 60% tiveram alguma experiência de trabalho anterior ao tráfico e o dinheiro da venda de drogas vai principalmente para roupas e lazer. Menos de um terço das famílias aceita ajuda financeira em casa.

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