Pantera Negra: O filme que nega e rememora o Partido dos Panteras Negras (um texto para quem já assistiu o filme)

04/03/18

Pantera Negra: O filme que nega e rememora o Partido dos Panteras Negras (um texto para quem já assistiu o filme)

Não tenho aqui a pretensão de fazer uma review do filme em seus aspectos cinematográficos, uma vez que tantos outros o farão de forma mais habilidosa, mas gostaria de abordá-lo em uma perspectiva política apontando a distonia entre o que inspira o filme e o que o filme busca inspirar, tudo entremeado pelos atropelos destes tempos de Temer e intervenção federal nos Rio.

Começo desembaraçando a origem do personagem ficcional Pantera Negra que debutou no volume #52 do Quarteto Fantástico (Marvel Comics) de julho de 1966, sendo este o Rei T’Challa, protetor da nação ficcional de Wakanda. PHD em física por Oxford, inventor, cientista, político, estrategista e hábil caçador e para quem não sabe ainda, um homem negro. Transposto para a realidade, poderíamos considerar seu equivalente um dos fundadores do Partido dos Panteras Negras, uma organização socialista revolucionária, fundada por Bobby Seale e Huey Newton quatro meses depois do debut da criação de Stan Lee e Jack Kirby em outubro de 1966, esta exerceu primeiramente a função precípua de formação de milícias populares para monitoramento do comportamento dos oficiais do departamento de polícia de Oakland, Califórnia. Considerarei para a seguinte analise o arquétipo incorporado por Huey P. Newton, PHD em filosofia social, bolsista da UCLA, assassinado a tiros em 1989.

Partimos, portanto, do fato de que ambos (T’Challa e Huey) enquanto homens adultos, em um patamar educacional acima da média, líderes de comunidades negras, as coincidências acabam por aí (continuo mais a frente). Neste ponto apresento a outra metade da equação cinematográfica, Erik Stevens (Killmonger) o vilão encarnado por Michael B. Jordan, um órfão que emerge da máquina de guerra do império, um mercenário cujo único intento é vingar-se da morte do pai.

T’Challa encarna o herdeiro de uma nação superdesenvolvida no coração da África, se utiliza de um mineral raríssimo enquanto combustível possibilitando Wakanda a dar saltos tecnológicos muito a frente do “Ocidente” ao passo que se utiliza dessa mesma tecnologia para manter a nação oculta aos olhos dos colonizadores brancos. Uma alegoria do que a civilização africana poderia ter sido se jamais colonizada, que Disney agora vende como uma fantasia do que se permite ao espectador sonhar.

Erik Stevens (Killmonger) se apresenta como o brutamontes raivoso criado no gueto, conta vantagem de um sem números assassinatos, não esboça qualquer sentimento ao assassinar sua companheira por atrapalhá-lo em uma missão, facilmente transmutável num thug de gangsta rap ou num mano traficante do Rio, a personificação estrita de um bandido como se dá em “bandido bom é bandido morto” mas para ser assistido nos EUA, no Brasil e na China. Ele tem o único propósito de se utilizar da tecnologia de Wakanda para criar uma nova ordem, onde sob seu comando o ocidente será submetido aos mesmos horrores a que ele e toda sua gente foram submetidos. Obviamente que o mero esboçar desses horrores já fazem o espectador médio tomar partido.

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A oposição entre os dois personagens (T´Challa e Killmonger) se dá de forma propositalmente unidimensional assim não é permitinda a dialética entre esses dois conhecidos espantalhos, o do escoteiro e o hooligan. T’Challa é intransigente quanto ao fato de não querer permitir que outros povos negros se utilizem da tecnologia criada em Wakanda para sua própria emancipação, isso se dá por princípios, entre os quais o da manutenção da tradição (sendo Wakanda uma monarquia tribal de caráter hereditário, cuja única forma de alternância no poder se dá através de uma luta ritual com outro líder tribal até a morte), portanto, não estamos falando de nenhuma democracia e o segundo princípio, o do nacionalismo, tantas vezes incorporado no grito de guerra “Wakanda para sempre” e pelo reconhecimento xenofóbico da dificuldade de se receber pessoas negras que não possuam a tatuagem signo da nação, algo que não impede a entrada do homem branco (ainda por cima um agente da CIA), em síntese, uma monarquia tribal nacionalista que se nega a prestar auxílio aos seus (descendentes, expatriados) em todo o mundo com base num princípio de centralização do poder e autopreservação. A possibilidade de apresentar uma nação negra ultra futurista como um exemplo de democratismo pleno e baseada em valores comunistas é algo que extrapola a criatividade de Disney e mesmo da Marvel Comics.

Killmonger é a revolução sem teoria, um anarquista que não vê as consequências de quebrar a máquina sem ter ideia do que a substituiria, o esquerdismo em um estado primitivo que Disney nos rememora que deve sempre ser temido, T’Challa é o intelectual orgânico que trabalha pelo status quo, tem a tecnologia, os fundos e poder centralizado em suas mãos e com estes luta pela manutenção das instituições burguesas.

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Onde resta Huey Lewis em toda essa fantasia? Um homem negro, socialista revolucionário, PHD em filosofia, que implementou programas comunitários de segurança alimentar para crianças e idosos, clínicas de saúde gratuitas, até mesmo uma escola dos Panteras Negras, esforços que no Brasil só podem ser comparados aos do MST. Em relação a esses dois espantalhos a quem ele mais se assemelha? O fim de qual dos personagens coincide com o do líder dos Panteras Negras? http://www.nytimes.com/1989…

Huey, esse personagem histórico que sucede o ficcional, a meu ver é repartido propositalmente em dois de forma irreconciliável na adaptação cinematográfica dos quadrinhos, ao ponto de alienar qualquer representação da crua realidade do enfrentamento dos Panteras Negras contra o establishment norte americano em sua incorporação pelo aparelho policial.

Por fim T’Challa fere de morte Killmonger num prolongamento do processo de sucessão que restou aberto por sua sobrevivência graças a interferência do sacerdote real, juiz do processo (manobra formal via STF?). T’Challa resgata a humanidade de Killmonger através de sua subjugação e o permite assistir um último pôr do sol em Wakanda, um vislumbre do devir que deveria se estender a todos.

Morto o revolucionário, reafirma-se o conservadorismo, a tradição e vivem felizes para sempre em seu paraíso artificial? Não. Qual o motivo para isso, se há algo ainda mais reacionário a se fazer? T’Challa vai a ONU entregar todos os segredos tecnológicos num grande ato de desprendimento, onde veremos um bando de líderes mundiais imensamente felizes, asiáticos, latinos, africanos…, mas ninguém que se assemelhe a Trump, Merkel ou Netanyahu. Tamanho desprendimento é impensável e por isso é facilmente encarado com candura pelos espectadores, entretanto, no dia 26/02/2018 vimos em primeira mão a transposição da fantasia para o mundo real na ainda mais inacreditável e absurda filantropia do governo Temer ao doar a Embraer para a Boeing.

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Huey Newton não é lembrado nem como easter egg, personagem de fundo, pichação na parede, mas o mais aviltante, também não é permitido a Killmonger se assemelhar a ele, assim os Panteras Negras foram lembrados apenas por serem homônimos, uma coincidência abusada pelos direitistas que fingem terem sido violentados nas filas para o filme e pela esquerda pequeno burguesa que comemora um filme com staff predominantemente negro e a fantasia boba da Shangri-la no distante continente natal, motivo pelo qual foram criados memes que inundam as redes sociais americanas. Mas os Panteras Negras foram também lembrados pelos movimentos negros socialistas que se aproveitaram das grandes filas do recordista blockbuster da Marvel para fazerem protestos pela libertação dos 16 Panteras Negras que ainda permanecem presos, assim como da morte dos 8 integrantes que faleceram na prisão.

Os Panteras Negras constituíram um movimento social de legitima defesa de suas comunidades, assim como de assistência social via programas de alimentação infantil, de saúde, educacional e de informação. Foram perseguidos pelo FBI, vigiados, infiltrados, difamados, sabotados, alguns assassinados e tantos outros presos em uma campanha governamental para desacreditar e criminalizar o partido, esvaziar a organização de recursos e militantes. (A campanha contra as fake news manda lembranças).

Não quero com esse texto diminuir a conquista que é ter um staff predominantemente negro na indústria cinematográfica estadunidense, ainda mais após as mobilizações de 2016 e 2017, mas sim saudosamente lembrar e aspirar pelo dia em que um filme sobre o verdadeiro Pantera Negra, Huey Lewis e a Wakanda criada nos guetos de Oakland em 1966 lote tantas salas e assentos quanto belíssima fantasia estilizada de Disney.

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