Para Gilberto Maringoni, Stálin foi tão brutal quanto Lincoln

Professor da UFABC diz que é preciso ver dirigente comunista em seu tempo e não com lentes desfocadas

Jornal GGN – O dia 18 de dezembro marcou as comemorações dos 140 anos de nascimento do dirigente comunista Joseph Stálin (1879-1953), um nome que recentemente tem voltado aos holofotes na esquerda, seja para defender seus méritos como para criticar a negação dos crimes cometidos por ele.

Autodenominado de esquerda e comunista, o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni explica que o legado de Stálin somente pode ser analisado quando temos a conjuntura de sua época em mente: a primeira metade do século XX, dentro dos marcos da construção do socialismo em condições muito severas, como as da II Guerra Mundial e da Guerra Fria.

“É preciso entender Stálin em seu tempo e não com lentes desfocadas por contextos diversos. Não duvido que várias de suas decisões tenham sido brutais e mesmo criminosas”, afirma Maringoni. “Stálin foi tão brutal quanto (o presidente norte-americano Abraham) Lincoln, que rompeu qualquer negociação com a oligarquia agrária do Sul dos EUA, em 1860, e promoveu uma guerra interna que matou 900 mil pessoas numa população de 31,5 milhões de habitantes (…)  Em nenhum tempo ou lugar da História, a construção de Estados nacionais foi um passeio, ao contrário. Não quero justificar violências, mas entender processos históricos complexos”.

Em entrevista concedida à jornalista Juliana Sayuri, do jornal Folha de São Paulo, Maringoni ressalta que Stálin não teve distinções como teórico. “O dirigente soviético foi uma liderança política de primeira linha – a expressão é de György Lukacs, em sua fase antistalinista -, como foram Napoleão, Lincoln e Bismarck. Ninguém fala hoje em “neolincolnismo” ou “neonapoleonismo”, por ser algo fora de propósito, um anacronismo”.

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O professor também se mostra contra o chamado “fenômeno neostalinista”, uma vez que Stálin é um personagem “sem nenhuma incidência no mundo atual”.

Maringoni ressalta que os debates acalorados sempre fizeram parte da história da esquerda. “Faz parte, mesmo que muitas vezes o nível despenque. Inaceitáveis são as tentativas de cerceamento de opiniões (…) A acusação de “stalinismo” não busca o diálogo. Busca o estigma e o fim da conversa. Ou a “lacração”, como se diz por aí”, ressalta.

 

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8 comentários

  1. Sempre achei Lincoln mais violento. Atendia a interesses da classe empresarial, contra lideranças agrárias. Foi um massacre. Stalin, ao menos, buscou a defesa de seu país contra a invasão estrangeira, desde 1.920, culminando com a segunda guerra mundial e a guerra fria, com a ameaça americana de bombardear a Rússia com armas nucleares, em 1.945. Stalin garantiu a Rússia moderna, bem como a China comunista. E livrou o mundo de Hitler.

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  2. Lincoln declarou uma guerra e enfrentou um exército armado. Stálin desencadeou uma repressão contra seu próprio povo, principalmente contra outros comunistas e aliados fiéis, visando criar um clima de terror permanente que dissuadisse qualquer contestação a sua liderança.

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  3. O que se sabe é que Stalin ainda nem tinha entrado em cena na História quando, no Tratado de Versalhes, Estados Unidos, Inglaterra e França já arquitetavam a destruição da URSS. Também não se pode entender fascismo e nazismo se não entendermos o contexto onde nasceram, a fase imperialista do capital.

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    • Tanto o fascismo como o nazismo combatiam os comunistas e o capitalismo. Mussolini e Hitler consideravam suas ideologias como uma espécie de 3° via à época.

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  4. Se for para entender Stalin em seu tempo devemos fazer o mesmo com Hitler, Pinochet, Mao, Pol Pot, etc.
    Certas acontecimentos como o Holodomor, Kolimá, Holocausto e a matança no estádio de Santiago são crimes contra a humanidade que não devem ser perdoados.

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  5. Sobre a desfaçatez diante de uma tragédia histórica: “O professor também se mostra contra o chamado ‘fenômeno neostalinista’, uma vez que Stálin é um personagem “sem nenhuma incidência no mundo atual’ “. Interessante: “nenhuma incidência no mundo atual”, mas os neostalinistas são revisionistas históricos sempre prontos a negar, “minimizar”, “justificar” os bárbaros crimes do stalinismo. É um recurso grosseiro dizer que o stalinismo não tem incidência no mundo atual: este fenômeno social tem uma enorme carga de responsabilidade no fracasso das primeiras experiências socialistas, no fim da URSS, e em tornar perdida por um período histórico a Revolução Socialista de 1917. Quem se empenha na luta contra o capitalismo e pelo socialismo, tem que fazer o mais completo balanço crítico da degradação stalinista, condição “sine qua non” para que o socialismo volte a avançar no mundo. O negacionismo vai a tal ponto que a constatação de um fenômeno social, o stalinismo, fica reduzido a um simples “estigma”. Isso me lembra “argumentos” da extrema-direita no Brasil quando nega as torturas e assassinatos da repressão política.

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