Petistas x Antipetistas: o embate que se repete no Rio Grande do Sul

Historicamente dividido em dois grandes campos políticos, que se reagrupam de acordo com as alianças estabelecidas a cada campanha eleitoral, o Rio Grande do Sul vai às urnas, neste domingo (26), para escolher entre um candidato de oposição, José Ivo Sartori, do PMDB, e um candidato de situação, Tarso Genro, do PT.

Revive-se, mais uma vez, a divisão que separou o estado em dois grandes blocos, como ocorreu com os Pica-Paus/Chimangos e Maragatos, nos primórdios do período republicano, quando os integrantes das incipientes classes médias urbanas, os criadores das regiões “novas” (Missões) e os descendentes de imigrantes, republicanos, com concepções positivistas-estatistas, agrupavam-se no bloco pica-pau/chimango, de situação, comandado por Júlio de Castilhos e, depois, por Borges de Medeiros, enquanto os grandes proprietários rurais (estancieiros do sul do Estado), defendendo princípios federalistas-liberais, organizaram-se no bloco maragato, comandado por Gaspar Silveira Martins, de oposição aos governos federal e estadual.

Pós-Revolução de 1930 e pós-Estado Novo, no período democrático de 1945/1964, a divisão se estabeleceu entre os Trabalhistas, adeptos de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, agrupados no PTB, com posições políticas nacionalistas e de centro-esquerda, e os Antitrabalhistas, que reuniam partidos e personalidades políticas com posições políticas diversas, que iam da centro-direita à direita, agrupados na defesa da integração da economia brasileira à economia internacional e, principalmente, no combate ao trabalhismo.

No período da ditadura civil-militar de 1964/1984, os Trabalhistas agruparam-se no MDB, que se organizou como uma ampla frente política contra a ditadura civil-militar, enquanto os Antitrabalhistas agruparam-se na Arena, partido que sustentou a ditadura.

Desde 1982, com a volta das eleições diretas para os governos estaduais, no final do período ditatorial militar, a antiga divisão cindiu-se em três pontas, com os Trabalhistas dividindo-se internamente, primeiramente, entre o PDT brizolista/trabalhista e o MDB de Pedro Simon e, depois, entre o MDB e o PT, que assumiu, progressivamente, o lugar de proeminência no campo trabalhista, inicialmente ocupado pelo PDT. No lado antinacionalista e antitrabalhista, agruparam-se os antiestatistas-liberais, ex-arenistas e também os setores peemedebistas de centro-direita.

Atualmente, em um estado cindido ideologicamente, o PMDB, por sua composição de frente política, que comporta tanto representantes de trabalhistas/estatistas, quanto antitrabalhistas/liberais, passou a ser o fiel da balança eleitoral e da estabilidade dos governos. É a forma como o PMDB e seus grupos internos se articulam com os demais grupos/partidos políticos gaúchos que define os rumos eleitorais rio-grandenses. As alianças de centro-direita tornaram-se, nos últimos anos e mais especificamente desde o início dos anos 2000, quase imbatíveis no Rio Grande do Sul.

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Quando o PMDB consegue agregar as forças de direita sob a sua liderança, ele vence as eleições e comanda o governo, como força majoritária. Foi assim com Antônio Britto e com Germano Rigotto e talvez seja assim agora, se ocorrer a vitória de José Ivo Sartori, anunciada pelas pesquisas de intenção de voto. Quando o PMDB se agrega como força secundária ao bloco de partidos de direita, mesmo perdendo as eleições para o executivo estadual, ele se integra ao bloco governista, como força auxiliar. Foi assim com Yeda Crusius, quando o PMDB, após ser excluído do segundo turno, passou a apoiá-la e, depois, integrou-se ao seu governo. Teria sido assim, muito provavelmente, se Ana Amélia Lemos tivesse ido ao segundo turno e vencido as eleições em curso. Apenas quando o PMDB não consegue se articular com as forças de direita é que ele perde as eleições no Rio Grande do Sul e fica fora do governo. Foi assim nas vitórias de Alceu Colares, de Olívio Dutra e de Tarso Genro.

Esta é a dinâmica histórica e política que ajuda a explicar a não reeleição dos governadores no Rio Grande do Sul e que talvez explique a dificuldade enfrentada hoje por Tarso Genro de superar José Ivo Sartori e tornar-se o primeiro governador reeleito do Estado. A aliança PMDB/PP, que se formou no segundo turno das eleições em curso, articula os setores de centro-direita e os setores de direita que detêm a maioria dos prefeitos municipais no Estado, os quais dirigem a máquina pública e exercem influência sobre a decisão de voto de seus munícipes.

Soma-se a isto, a competição estabelecida no bloco trabalhista de centro-esquerda, entre PT, PDT e PSB, que disputam o mesmo eleitorado e que, portanto, precisam se afirmar e se diferenciar, e, ainda, a postura autossuficiente do PT, que tem dificuldade de se articular com os demais partidos de seu campo político cedendo-lhes espaço relevante em eventuais coligações, o que os lança, muitas vezes, no bloco de oposição ao PT.

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Soma-se, ainda, a frustração advinda do não cumprimento das metas de governo e das promessas de campanha feitas por Tarso Genro em 2010, quando garantiu que o “alinhamento das estrelas” nos governos federal e estadual possibilitaria o equacionamento da dívida pública do Rio Grande do Sul e possibilitaria, além de obras, a recomposição salarial do funcionalismo estadual e, principalmente, o pagamento do “piso dos professores”.

Em um primeiro momento, acompanhando a onda mudancista nacional, que se inclinava por Marina Silva, boa parte do eleitorado gaúcho, não alinhado politicamente e sem definição partidária, inclinou-se a votar em Ana Amélia Lemos. Depois, quando as duas candidaturas desinflaram, grande parte desses eleitores migrou, rapidamente, para as candidaturas de Aécio Neves, no plano nacional, e de José Ivo Sartori, no plano estadual, que passaram a corporificar os desejos difusos de “mudança”.

Nestas eleições, juntaram-se, portanto, as frustrações dos eleitores médios, não ideológicos e não partidários, com a postura antipetista (antitrabalhista/antiestatista/antinacionalista) de parte do eleitorado politizado e ideologizado do Estado, posicionado na centro-direita. Inflaram-se as candidaturas de Aécio Neves, que apareceu à frente de Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto durante boa parte da campanha do segundo turno, e de José Ivo Sartori, que se mantém à frente até aqui.

A tendência de decréscimo das intenções de voto em Aécio Neves, a se confirmar, talvez se explique pelo fato de que o eleitorado médio não ideológico gaúcho não tenha se frustrado com o governo Dilma Rousseff, que sempre obteve índices altos de aprovação no Estado, na mesma proporção com que se frustrou com o governo Tarso Genro, que sempre foi avaliado apenas como mediano.

A soma do antipetismo, do eleitorado ideologizado, com a frustração, do eleitorado não ideologizado, talvez explique o entusiasmo com a candidatura de José Ivo Sartori, pobre em propostas de governo e firmada na imagem de um candidato pessoalmente simplório, quase tosco. Nem mesmo as muitas gafes cometidas por ele durante a campanha têm se revelado capazes de fazer refluir sua liderança nas pesquisas de intenção de voto.

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Sartori pode fazer piada grosseira sobre o piso dos professores e afirmar que a definição do salário mínimo regional não é uma política de governo e seu candidato a vice-governador, José Paulo Cairoli, pode afirmar que é contrário à existência do salário mínimo regional e ao seu reajuste acima da inflação e, ainda, numa postura tradicional das oligarquias agrárias gaúchas, pode afirmar que não cumpre a legislação trabalhista em suas propriedades e nada disso parece influir nas intenções de voto declaradas a eles. Isto porque o resultado das eleições está dependendo, muito além de discursos e propostas dos candidatos, do desejo pouco definido de “mudanças” do eleitor médio e das alianças entre as forças políticas em que há muito se divide o Rio Grande do Sul.

Benedito Tadeu César* – cientista político – professor da UFRGS

Publicado orinalmente no site Sul21 http://www.sul21.com.br/jornal/petistas-x-antipetistas-o-embate-que-se-repete-no-rio-grande-do-sul/

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