Polícia ataca mulheres que protestavam contra crime da Vale em Brumadinho e por Marielle

O trem continua passando: Vídeo mostra o momento em que a Polícia Militar usou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo contra mulheres que protestavam em Sarzedo (MG), para não atrasar transporte de minério da Vale.

Ato de mulheres do MST e MAM em Minas Gerais (Foto: Joyce Fonseca)

Jornal GGN – As cruzes não puderam permanecer no chão e o trem voltou ao seu curso normal. Era por volta das cinco da manhã quando cerca de 400 mulheres obstruíram a passagem da ferrovia utilizada pela Vale S.A, em Sarzedo (MG), cidade vizinha à Brumadinho.

O ato promovido pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e MAM (Movimento Pela Soberania Popular na Mineração) fazia parte de um programa maior: a Jornada Nacional de Luta pelas Mulheres, realizada ao longo de todo o mês de março.

O objetivo com a obstrução da ferrovia era chamar atenção para a responsabilidade da Vale no desastre de Brumadinho que deixou 308 vítimas (105 ainda desaparecidas), em 25 de janeiro, quando mais uma barragem de rejeitos da mineradora se rompeu.

O dia escolhido para o ato, 14 de março, fazia referência à data de um ano de morte da vereadora Marielle Franco, crime ainda não solucionado pela Justiça. E a escolha do município aconteceu porque em Sarzedo a Vale mantém a mina Jangada, responsável por 7% da produção da mineradora, e de onde saíram os rejeitos que soterraram Brumadinho e o rio Paraopeba.

Os moradores de Sarzedo também convivem com o risco de rompimento de uma barragem, a Itaminas. Segundo informações do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), eles vêm relatando rachaduras e “remendos” na estrutura. Em caso de desastre, os rejeitos da barragem soterrariam metade do município com população estimada de 32 mil, segundo dados IBGE de 2018.

Logo no início, as manifestantes fincaram cruzes de madeira no chão, em referência às vítimas de Brumadinho e Marielle. Diariamente, um trem da Vale atravessa a cidade transportando minério de ferro extraído do quadrilátero ferrífero de Minas.

Em menos de uma hora, após a chegada das manifestantes, a Polícia Militar apareceu no local para desobstruir a passagem. De início, a PM retirou as cruzes de madeira, sem abrir qualquer diálogo e, a uma distância de cerca de 15 metros das mulheres, iniciou ataques atirando balas de borracha e bombas de efeito moral sobre o grupo.

Dez foram feridas, incluindo 4 idosas, além de um homem: o correspondente da Telesur no Brasil, Nacho Lemus. O jornalista cobria o protesto desde o início e contou ao GGN toda a trajetória do evento e como foi a ação policial.

Nacho também usou sua conta nas redes sociais para rechaçar publicamente a cobertura do Estado de S.Paulo. Segundo o jornal, houve confronto entre policiais e manifestantes e, usando apenas a Polícia Militar como fonte, disse que não houve registro de feridos.

“A gente que cobre manifestações percebe quando existe um estado de tensão e o estranho é que tudo estava muito tranquilo quando saiu o primeiro disparo”, relembra o correspondente.

“Depois do primeiro, ocorreram uma série de três disparos, de armas de borracha e bombas [de gás lacrimogêneo]. Imediatamente após o primeiro disparo, as mulheres pediram calma. Mas não teve calma, a polícia continuou atirando contra elas”, conta Nacho.

O jornalista fez um vídeo no momento em que as vítimas pediram calma mostrando que os PMs não deram ouvidos. Nacho, que levou um tiro de bala de borracha na perna e precisou levar pontos, acredita que foi atingido por engano.

“Uma mulher foi falar com um policial que apontou para ela e atirou. Eu estava filmando perto de uma idosa e recebi uma bala que acho que não foi apontada para mim, mas para o corpo da mulher”, pontua.

A nota da Estado de S.Paulo diz ainda que não houve registro de ocorrência de feridos, também de acordo com a PM. Mas para Nacho, a forma como o jornal expôs a informação encobre mais uma violência.

As vítimas do ataque policial se dirigiram até a Policlínica Municipal de Sarzedo para receberem os primeiros socorros. Na saída do local, algumas foram amedrontadas com a presença de Policiais Militares e preferiram não fazer um boletim de ocorrência sob o risco de serem detidas.

Ainda nesta quinta-feira (15), dia do ataque, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Helder Salomão (PT/ES) enviou ofícios ao Governo de Minas Gerais e à Procuradoria-Geral mineira, solicitando providências e informações sobre os atos de violência policial durante a manifestação.

“As agressões colocaram em risco a vida e a integridade física das manifestantes. Os tiros foram para reprimir a mobilização popular, para impedir e cercear os direitos à manifestação, à liberdade de expressão e de reunião, garantidos pela Constituição da República, pelo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e pela Convenção Americana de Direitos Humanos”, pontuou Helder Salomão nos ofícios.

O trem continua andando

Nacho Lemus vê semelhanças entre a ação da Polícia Militar em Sarzedo com a ação de policiais na cidade de Tete, em Moçambique, onde a mineradora Vale é apontada pela violação de uma série de direitos humanos e ambientais.

Em 2012, o jornalista entrevistou trabalhadores e moradores locais remontando um protesto que obstruiu uma via de passagem de trem da mineradora.

“Em Tete as pessoas foram forçadamente reassentadas para a extração de carvão mineral da Vale. A população foi colocada em moradias precárias e em terras que não produziam plantio, ficando dependentes da mineradora”, relembra o jornalista.

A crise entre a população e a Vale chegou ao clímax quando a mineradora e a Odebrecht realizaram demissões em massa. Sem trabalho, moradia adequada e terra para o plantio os moradores de Tete obstruíram a passagem de trem.

Nacho conta que a manifestação não durou muito tempo. Logo após a ocupação da estrada de ferro, a polícia local iniciou a repressão perseguindo as pessoas até as próprias casas. Clique aqui assistir a reportagem feita na época por Nacho Lemus.

Em abril de 2013, os trabalhadores de Tete voltaram a obstruir a ferrovia da Vale. Uma cobertura da BBC feita na época conta que policiais dispersaram os manifestantes usavam gás lacrimogêneo e balas de borracha para liberar a linha férrea. Muitos fugiram para as matas, ainda assim alguns foram feridos.

Ao relembrar o caso em Tete e ver a atuação da Vale sendo novamente defendida por forças de segurança do Estado, que deveriam garantir os direitos da população, Nacho alerta para o poder da Vale sobre as instituições.

“Um dia antes, estive no acampamento Pátria Livre, às margens do rio Paraopeba agora completamente poluído. A população não tem mais peixe para comer e água para usar nos plantios. Estão correndo risco de morte. Ao mesmo tempo, a polícia reprime mulheres enquanto chamavam atenção para o risco de um novo desastre ambiental em Sarzedo. Isso mostra o poder da Vale sobre a população, a polícia e as instituições. E o trem da Vale continua andando, apesar de tudo o que aconteceu”, reflete.

O mesmo hospital de Sarzedo que recebeu as vítimas do ataque policial desta quarta-feira, também prestou socorros para os sobreviventes do desastre de Brumadinho.

2 comentários

  1. Que vergonha as forças de segurança defendo a Vale ! Que tristeza ver essas mulheres corajosas defendendo seus direitos serem agredidas com tanta violencia ! Estado cumplice de descaso e mortes provocadas pela Vale nada !

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome