POLÍTICA: A MORTE DO PSDB

O desaparecimento do grande partido de centro do Brasill

 

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Edição Impressa | The Americas

Nov 1st 2018

 

EM 1988 Um grupo de políticos e acadêmicos de centro-esquerda que se opuseram à ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 criou uma nova organização política, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Seus membros eram reformadores, não populistas, estatistas ou conservadores de carne de porco. Como um de seus líderes, Fernando Henrique Cardoso escreveu mais tarde: “Defendemos uma mistura de reforma de livre mercado e responsabilidade social”, como a de Felipe González na Espanha, Bill Clinton nos Estados Unidos e Tony Blair na Grã-Bretanha. Sob o governo de Cardoso, eles governaram o Brasil entre 1995 e 2003. Como o partido mudou para o centro-direita, tornou-se uma das duas âncoras rivais do sistema político, juntamente com o Partido dos Trabalhadores (PT) de esquerda. Nas seis eleições presidenciais entre 1994 e 2014, obteve uma média de quase 40% dos votos. E agora, de repente, o PSDB parece muito mais próximo da extinção do que seu símbolo, o tucano.

 

No papel, teve um forte candidato à presidência nas eleições do mês passado em Geraldo Alckmin, um governador de quatro mandatos do estado de São Paulo. Alckmin reuniu uma coalizão de oito partidos e assim desfrutou de muito mais tempo livre na televisão do que qualquer um de seus rivais. No entanto, ele ganhou apenas 4,8% dos votos no primeiro turno em 7 de outubro. Muitos dos antigos apoiadores do PSDB mudaram para o agressivo nacionalismo conservador de Jair Bolsonaro, eleito em votação contra o candidato do PT. O PSDB também se saiu mal na eleição para o congresso. Agora, tem apenas 29 dos 513 assentos na câmara baixa, contra 54 em 2014, e oito senadores, em vez de 12. Alckmin foi um dos cinco governadores do PSDB eleitos em 2014. Agora o partido vai governar em apenas três estados (de 27).

 

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Seus problemas não param por aí. Um desses três governadores é João Doria, que venceu por pouco em São Paulo. Um ex-lobista, ele era um protegido de Alckmin. Mas os dois caíram e Alckmin apoiou o oponente de Doria. Enquanto o PSDB permaneceu neutro no segundo turno presidencial, Doria apoiou Bolsonaro.

 

Sob o comando de Cardoso, o PSDB ostentava tecnocratas brilhantes e alguns políticos eficazes, tanto nacional como localmente. Os governos de Fernando Henrique Cardoso suplantaram a inflação, modernizaram a economia em parte por meio da privatização e foram pioneiros nas reformas sociais que o PT Luiz Inácio Lula da Silva iria ampliar. Em São Paulo, o PSDB reduziu o crime violento; no Ceará, no Nordeste, criou programas de atenção primária à saúde e alfabetização.

 

Há apenas dois anos, na esteira do impeachment de Dilma Rousseff, sucessora escolhida de Lula, alguns analistas escreviam o obituário do PT, culpado pelo colapso e pela corrupção sistemática. Sobrevive como a principal oposição ao senhor Bolsonaro. Por que o PSDB se tornou vítima? Como os Clintons e o Sr. Blair, parecia datado. Doria estava certo quando disse em vitória que o partido “perdeu o contato com a realidade do Brasil”. Os líderes do partido brigaram entre si. Quando a geração fundadora envelheceu, eles não conseguiram preparar sucessores.

 

Acima de tudo, com os brasileiros irritados, o PSDB começou a se parecer com o establishment. Juntou-se ao impopular governo de saída de Michel Temer, mas não tirou proveito de apoiar as necessárias reformas previdenciárias e trabalhistas. Começou a parecer tão corrupto quanto os outros partidos. Aécio Neves, seu candidato à presidência em 2014, foi acusado de buscar suborno (o que ele nega). Enquanto os torcedores do PT “têm um apego quase religioso ao partido, o voto para o PSDB foi muito mais instrumental”, diz Sergio Fausto, que comanda o centro de estudos de Cardoso. O instrumento rompeu a onda de raiva de Bolsonaro.

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Doria agora está pronto para assumir os restos do PSDB. Tudo isso “representa a derrota do histórico PSDB”, publicou esta semana o jornal Folha de S. Paulo. O nome do partido pode continuar vivo, mas “o PSDB como o conhecemos está definitivamente morto”, declara um membro proeminente. “Não há razão para permanecer na festa.”

 

A tarefa para quem acredita no PSDB é reinventar o centro reformista em um Brasil fortemente polarizado entre o populismo de direita de Bolsonaro e o estatismo impenitente do PT. Isso significa fundar uma nova organização que atraia jovens e busque um novo líder. Alguns vêem esse papel para Luciano Huck, um apresentador de televisão, a quem Cardoso cortejou em vão antes da eleição deste ano. Que Huck, que não tem experiência política anterior, possa ser a melhor esperança para o centro reformista, diz muito sobre a forma como a democracia brasileira mudou desde 1988.

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