Política paulista, problema, solução ou fase de transição?

 

A questão é que, para o bem e para o mal de São Paulo, tanto PT como PSDB foram, e são até hoje, em grande parte, fortemente paulistas. E esses dois partidos têm dirigido o Brasil nas duas últimas décadas.

Assim seus políticos têm já de início a esfera federal como alvo e não a construção de uma carreira local para depois alçar postos nacionais.

Foi assim que se construiu a política na redemocratização e principalmente após a morte de Tancredo.

A morte de Tancredo tirou Minas, sempre tão influente, do jogo político federal trágica e inesperadamente. Itamar não conta, é café-com-leite. E aqui, esse café-com-leite não é designativo de alguma simpatia dele com São Paulo; permiti-me uma pequena maldade com o homem de topete.

O poder político e o econômico estavam em São Paulo naquele momento.

Ulisses, Montoro, Fernando Henrique, Mario Covas, Almino Afonso, Severo Gomes e Lula. Note-se que estou aqui nominando de memória e que nem foi preciso citar Quércia ou Jânio – para o último, sua renúncia já era história escrita em pedra. Todos paulistas.

Isso sem contar a intelectualidade da USP, UNICAMP, Dom Paulo e a comunidade eclesial de base, o movimento sindical e uma enorme efervescência cultural que ia do punk à vanguarda paulista. Há que se notar, ainda, a poderosa presença de publicações de peso, como os jornais Folha e o Estadão e a revista Veja. Trinta anos após, essa publicações guardam pouca relação com o que eram na época, mas é no contexto dos anos 80 que devem ser entendidas aqui. 

Fora desse contexto essencialmente paulista estava o nordeste com um Sarney completamente perdido na presidência, ACM poderoso localmente, mas identificado demais com o regime anterior para tentar qualquer vôo em escala nacional e Arraes, um mito, mas também um político com curta autonomia de vôo.

Entre os gaúchos, sempre tão atuantes, Pedro Simon e Paulo Brossard, grandes homens do plenário, do legislativo não do executivo e, ele, o fantástico Brizola, esse sim um nome a nível federal, mas que, paradoxalmente, não tinha penetração em São Paulo e Minas e, aí, todo o Brasil restante acabou-lhe sendo pouco.

O momento era paulista; 50 anos após 32, era novamente São Paulo.

O último político fora da esfera paulista foi Collor, mas este, então, era um ser artificial, um holograma criado pelo Doutor Roberto Marinho, segundo Dona Lily, e apoiado ou tolerado de nariz tapado pelo conservadorismo nacional como forma de conter Lula e Brizola. Sua derrocada abriu as porta para a uma temporária hegemonia paulista na política brasileira.

Agora, depois dessa longa contextualização histórica, vamos ao que São Paulo é hoje politicamente. Um Estado sem novos nomes, sem novos quadros políticos, é isso.

Seus grandes nomes estão no passado recente ou foram prematuramente desgastados. Ulisses, Covas e Montoro mortos. Quem são seus herdeiros? Alckmin? Um sobrevivente da tragédia fernandina-serrista que o PSDB se auto-impôs, sem dúvida. Mas ainda está para provar que é um nome nacional e não uma exótica produção da culinária paulista- o picolé de chuchu.

Para FHC e Serra basta re-escrever no passado os doloridos versos de uma belíssima canção da Alcione “você se ama, e em sua própria chama há de se consumir”.

O poderoso PMDB paulista não sobreviveu à morte de Ulisses e ao divisionismo quercista, está em re-fundação. Vamos ainda ver para onde Temer o leva, se é que leva.

Maluf é um político parabólico, teve seu ápice na derrota para Tancredo e, desde então, vem lentamente decaindo.  É, hoje, mais folclórico que outra coisa. Como ouvi outro dia de um jornalista, “o Maluf é aquele político que a gente odeia há tanto tempo que nem mais lembramos por que”.

Lula, o grande Lula. Maior que o PT, maior que si mesmo. Cumpriu seu papel na nossa história. Lula é um político picado pela mosca verde, ou seja, o veneno da política está na corrente sangüínea. Mas têm a questão da idade e da esperteza. Não me espantaria se não voltasse mais ao protagonismo político. É inteligente o suficiente para saber que ainda que mais nada faça estará junto com Getúlio e Juscelino no posto mais alto do panteão político nacional. Mas com uma história política calcada na democracia, o que Getúlio não tem, e com uma história pessoal que faz de Juscelino um homem comum. Com todo o respeito a nós, homens comuns, e a Juscelino.

Sintomaticamente sua sucessora não saiu do PT paulista.  Por quê?

Porque não havia e não há nomes paulistas para sucedê-lo. Nem para, neste momento, suceder Dilma. 

Eduardo Suplicy e Erundina estarão lá, sempre presentes quando precisarmos de reserva moral.

Mercadante parece que não consegue coordenar o seu tempo pessoal com o espaço político. Marta não se recuperou ou não entendeu as lições da sua derrota para o 2º mandato na prefeitura. Cada vez mais estridente, continua uma “petista – Bourbon”, parafraseando Paul Krugman. 

Genoino, João Paulo, Zé Dirceu e Palocci, justa ou injustamente, têm seus esqueletos no armário. Ora lhes atiram contra suas carreiras políticas um mensalão ou um extrato bancário vazado ou, se nada mais restar, uma lata de massa de tomate com ervilhas. 

Celso Daniel e Toninho do PT não estão mais entre nós, são hoje casos ainda a serem esclarecidos.

No espectro da direita, alguém aposta um real no futuro de Kassab como um político de expressão nacional?

Do outrora poderoso e influente movimento sindical quem surgiu para a esfera política? 

Vicentinho, Paulinho da Força, Luiz Marinho? Nem para governadores, em minha opinião.

Da academia, das artes, da imprensa ou da dita sociedade organizada, ONG´s e que tais, sairá alguém? 

Nas ruas, das praças vemos alguém?

Ainda existe aqui em São Paulo algo que podemos denominar de movimento popular, ou tomamo-nos todos burgueses conservadores e reacionários prisioneiros de nossos automóveis, fretados, condomínios e shopping centers.   

Ainda somos, os paulistas, seres políticos reais ou digladiadores radicalizados da internet?

Enfim, parece que vivemos o fim de mais uma etapa. O eixo de gravidade da política parece que se desloca, ainda que lentamente, para fora de São Paulo.

A política paulista é neste momento, pelo menos, no meu entender, um pássaro na muda.

 

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